Nome da fic: A inocência ficou na gaveta.
Autor: Marina Snape
Pares: Severo/Lilly
Censura: 14 anos ( angst,)
Gênero: Angst
Resumo: A maturidade de uma pessoa deve ser medida pela idade cronológica ou pelos sofrimentos causados pela vida?
Agradecimentos: À beta Ferporcel, pela paciência de monge que ela exercita comigo, todos os dias.
Disclaimer: Todos os personagens que você consegue reconhecer são de JKR, eu não me dei nem ao trabalho de criar algum. Essa obra não tem fins lucrativos, apenas a intenção de propagar nosso amor ao querido mestre.
Esta fanfic faz parte do SnapeFest
2008, uma iniciativa do grupo SnapeFest.
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- Então era aí que você
estava se escondendo? – A voz da menina tinha um tom irritado.
O menino muito
magro e bastante comprido para a idade, que estava jogado displicentemente no
gramado não levantou os olhos, preferiu ignorá-la e continuou deitado de lado,
na grama, dando as costas a ela. O lugar era isolado pela vegetação alta que
separava o parque dos arredores, de modo que eles tinham total privacidade ali.
Impaciente, ela
contornou o corpo ao chão para ter uma visão melhor do rosto dele. Uma mão do
menino apoiava a cabeça e a outra arrancava ervinhas do solo. Os cabelos negros
demonstravam uma necessidade urgente de serem lavados, pois estavam por demais
oleosos, e serviam como uma cortinha para cobrir-lhe os olhos. Ele era muito
branco, pálido, quase translúcido, e continuava ignorando-a.
Da sua posição,
ele a observava por entre os cabelos, o sapato dela batendo com irritação no
chão. Continuou ignorando.
- Não é possível
que você ainda esteja chateado comigo – A voz dela agora era um misto de
preocupação e incredulidade – Eu já te expliquei que se fiz alguma coisa que te
magoou, não era minha intenção. Não me faça sofrer mais por isso.
Ele já sofrera
tanto. Ela que provasse um pouco da sua realidade diária. Ele continuava a
ignorá-la.
Quando saiu de
casa naquela tarde, não agüentava mais ver seu pai jogar as coisas no chão e
gritar com sua mãe por um motivo infundado. Sua intenção era de procurá-la, como
fazia todos os dias, mas ao se aproximar do parque, cultivou mais um pouco do
hábito de espreitá-la por entre os ramos da sebe.
Era uma posição privilegiada, porque quando ela imaginava que estava sozinha, parecia que um peso era retirado de suas costas, e um sorriso iluminava o seu rosto.
Só ele podia entender
como os trouxas podiam ser cruéis com os bruxos, quando queriam. Longe da irmã
que só fazia recriminá-la, ela flutuava, girava no ar, fazia pequenos truques
como desabrochar flores e paralisar borboletas em pleno vôo. Ela ria de si
mesma, com o florescer dos seus poderes. Ele sabia que ela estava lá esperando
por ele, mas não conseguia se aproximar.
Toda vez que a
encontrara nos últimos dois meses, ficava cada vez mais marcante as diferenças
que o destino bordara em volta deles.
Ao passo que ela
se vestia com esmero, os vestidos apesar de simples e baratos eram
impecavelmente limpos e bem passados, denotando que havia alguém que se
preocupava com ela, as roupas dele eram o exemplo típico do descaso. Não que ele
se importasse com isso. Vestia o que encontrava pela casa, fosse uma calça do
seu pai, abandonada em algum armário, do tempo em que ele era mais magro, ou uma
camisa de sua mãe. Não fazia diferença, ninguém ligava mesmo, e ele sempre se
arranjava. Não lembrava a última vez que alguém o levara para comprar roupas. As
irmãs de sua mãe mandavam as sobras dos primos que ele nem conhecia, e seu pai,
apesar de ter condições financeiras, não lhe dignava um mísero nuque.
Nunca se importou.
Ninguém o via mesmo. Exercitava-se em se tornar tão invisível quanto possível.
Passava os dias ou trancado na biblioteca aprendendo tudo que pudesse nos
livros, ou saia para perambular pela margem do rio. O ambiente frio e cinzento
em perfeita sinfonia com sua alma. O seu jeito maltrapilho afugentava quem
tentava importuná-lo. Sobrevivia com um único objetivo: iniciar a escola bruxa e
ter reconhecimento como um grande bruxo. Então ele não seria mais invisível.
Enquanto olhava a
menina, alguma coisa mudou, e ele percebeu a triste figura que fazia. Teve um
impulso de lavar o cabelo, procurar uma veste mais adequada ao seu porte físico,
mas deteve-se. Por quê? Para quê?
- Pare de
sonhar, Severo – ordenou a si próprio. Você é um indesejado. Quem liga
para como você aparenta? Quer impressionar a quem? Ser aceito por quem? De que
adianta tentar refinar a sua aparência se o seu interior é sombrio?
Então essa bruxa –
e ela nem tinha real consciência de que era uma - chamou sua atenção. Penetrou
na suas idéias, insinuou-se no seu dia a dia. Ela parecia tão inocente, tão
linda. Parecia uma bonequinha - frágil, delicada, feminina - implorando
proteção, com sua pele clara, os cabelos cor de fogo, iluminando aqueles olhos
incrivelmente verdes. Lembrou do que estudou em algum livro trouxa: vermelho e
verde são cores complementares. Afins. Isso tudo fazia dela um ser perfeito. E
pela primeira vez em sua miserável vida ele desejou proteger alguém.
Só que ele não
fazia absoluta idéia de como fazer isso.
Desistiu de
observar a menina; ela também o magoara. Ele estava acostumado a não esperar
nada das pessoas. Todos o decepcionavam, até que não houvesse mais decepção
porque não haviam mais expectativas.
- Severus, eu
exijo uma explicação! Vamos, você está me assustando... - A frase foi
interrompida, pois enquanto ela se abaixava para sentar no gramado, percebeu
lágrimas que escorriam no rosto dele.
Aproximou-se
gentilmente e afastou os cabelos dele, para revelar os olhos negros,
tempestuosos, angustiados.
Ele não ofereceu
resistência. Estava cansado. Cansado de viver, cansado de ser rejeitado pelo seu
pai – que o olhava como se olha uma anomalia – por ser bruxo. Cansado da
fraqueza de sua mãe, que não o defendia do pai quando este chegava cheirando a
mulheres e bebidas e o usava como saco de pancadas para descarregar suas
frustrações. Com onze anos, inocência era uma palavra que não fazia mais parte
do vocabulário de Severo Snape.
Mas porque aquela
mão tão quente correndo em seu rosto era tão reconfortante? Que poder tinha essa
bruxa de trazer luz ao seu mundo tão escuro?
Lílian, acomodando-se melhor no gramado, puxou Severo para perto de si; as mãos pequeninas secando suas lágrimas.
Ele continuava
distante e parecia não perceber o que ela fazia. Estava concordando muito
docilmente e isso definitivamente não era o perfil dele. Alguma coisa muito
errada estava acontecendo.
A expressão de dor
que ele demonstrou, acompanhada por um grito contido, quando ela tocou suas
costas a fizeram pular imediatamente.
Parecendo cair em
si, afastou-se rapidamente dela e ficou enrolado num canto como um animal
ferido. Seus olhos guardando um misto de medo e vergonha.
-Severo, o que
você tem? Você está machucado. O que aconteceu? - Agora era ela quem estava à
beira das lágrimas, ao ver o estado de seu amigo. Mas ele apenas levantou
cambaleando e saiu em disparada para longe dela. Deixando-a sozinha e
terrivelmente preocupada.
Era um garoto tão
estranho. Parecia extremamente solitário e às vezes ela se questionava se ele
teria amigos. Quase não falava, contentando-se em lhe fitar, pálido, apático,
como que se sofresse de um mal incurável.
Sua irmã Petúnia
tinha medo dele, achava ele sinistro e o apelidara de morcego, devido às roupas
folgadas que usava e a mania de fica dependurado em árvores para observá-la de
outros ângulos que não chamassem a atenção .
A única coisa que
fazia ele se inflamar era falar de magia. O rosto se iluminava e a cor voltava,
os olhos profundamente negros reluziam. E era esse o assunto que ela sempre
puxava quando queria a atenção dele.
Ele era paciente e
ia ensinando alguns truques a ela. Coisa pequena, que a deixava feliz. Os dois
passavam horas em outro mundo, um mundo onde ele não sofria e às vezes até
parecia sorrir.
- Lílian você é
a única pessoa com quem converso sobre magia e confio que você mantenha isso
como um segredo nosso, promete?- para a pouca idade, ua voz dele já era profunda
e pesada.
- Será nosso
segredo, segredo de amigos. Vamos fazer um pacto?- sugeriu a garota.
- Pacto?-
questionou ele.
- Sim, como
você me contou que os bruxos antigos faziam quando fechavam um acordo.
-Sim, sim –
esboçando um sorriso com o pensamento longe, demonstrando surpresa ao perceber
que ela prestava mesmo atenção ao que ele dizia – um pacto.
- De sangue? –
sugeriu ela, com uma emoção a lhe percorrer a espinha.
- De sangue –
confirmou ele, tirando o canivete do bolso e fazendo um pequeno corte na palma
da mão. Então estendeu o apetrecho para ela que repetiu sem hesitar, o gesto
dele.
- Agora devemos
tocar nossas mãos para que nosso sangue se misture – Tomou a sua mãozinha entre
as dele, comprimindo-as num aperto de mão, enquanto dizia: - Amigos para sempre,
nos bons e nos maus momentos, repita.
E ela repetiu.
O coração batendo forte dentro do seu peito.
-Um protegerá o
outro com sua vida se preciso for, e nada, nem ninguém, nos separará.
Quando Lílian
terminou de repetir, eles ficaram uns tempos ainda de mãos dadas. Não imaginavam
o que haviam feito naquele preciso momento. Não sabiam que aquele ritual no
mundo bruxo equivalia a um compromisso eterno.
No entanto, na
primeira ocasião em que ele precisou dela, ela sem ter consciência, traiu o
pacto.
Decidiu que procuraria por ele. Aquela situação já estava passando dos limites. Primeiro, ele a acusara de traidora, e não lhe dera maiores explicações, segundo, ela o encontrara machucado e fugira dela.