Nome da fic: Corações
Acorrentados
Autor: Magalud
Pares: Severo/Personagem Original
Censura: NC-17
Gênero: Drama, Romance, Tema Adulto.
Spoilers: Eu alerto para spoilers em todos os livros
Avisos:
Resumo: Snape
entra espontaneamente num casamento arranjado.
Agradecimentos: Jana, minha beta simpática!
Disclaimer: Esses personagens são de JKR, eu não quero nem vou ganhar
dinheiro com eles.
Esta fic faz parte do SnapeFest 2004, e está arquivada no site
http://www.oxetrem.com/fest e no meu site http://www.geocities.com/
Alguma
coisa não estava nada bem.
Victoria
Hennigan subiu as escadas de Hogwarts
nervosamente. Não que ela fosse má aluna, mas ser chamado ao gabinete do
diretor nunca tinha sido boa notícia.
Talvez
alguém tivesse visto quando ela e Blaise Zabini tinham se encontrado na Torre de Astronomia. Ela não
tinha deixado o colega sonserino "avançar o
sinal", mas eles tinham se dedicado a "altos malhos" naquela
noite. Ela até achava que poderia namorar Blaise, mas
depois que eles "ficaram", ele não a procurou mais.
Victoria
não podia fazer idéia do motivo que levara o Prof. Dumbledore
a chamá-la naquela noite. Mal sabia ela que toda sua vida ia mudar.
Ao
entrar no gabinete do Prof. Dumbledore, ela teve uma
visão que a confortou: o chefe de sua casa, Prof. Severo Snape,
estava lá também. Ele garantiria que, fosse qual fosse a encrenca na qual ela
estava metida, ela teria um tratamento justo. Mas Minerva McGonagall
também a encarava, com uma expressão que Victoria não conseguiu decifrar.
Como Blaise não estava lá, talvez aquilo não tivesse nada a ver
com a Torre de Astronomia. Ela ficou um pouco mais tranqüila.
O
Prof. Dumbledore disse:
- Por
favor, minha criança, sente-se. Drops de limão?
- Não,
obrigada – ela olhava para os professores, temerosa.
-
Tenha calma, minha cara – disse o diretor – Você não está em encrenca. Pedi
para vê-la porque algo aconteceu e não é nada bom. Como você sabe, faz alguns
meses desde que Voldemort foi derrotado. Desde então
os seus seguidores remanescentes vez por outra promovem ataques contra aqueles,
que, como sua família, estiveram lutando pela causa da Luz.
Victoria
arregalou os olhos:
-
Houve um ataque?
O
Prof. Dumbledore parecia triste e cansado, e chegou
perto dela:
-
Lamento, mas houve um ataque sim, Victoria. Seus pais... eles não sobreviveram.
Jamais
Victoria tinha tido um choque tão grande. Ela ficou até meio aparvalhada, o
coração acelerado:
-
Eles... morreram? Meus pais morreram?
- Eu
sinto muito, minha querida –disse a Profª McGonagall.
Por um
minuto, Victoria sequer sabia como reagir, e foi nesse minuto que um frasco de
poção apareceu diante dela. O Prof. Snape a encarava,
oferecendo o frasquinho. Ela tomou o líquido e reconheceu asfódelo.
Sem perceber, as lágrimas já caíam em seu rosto.
- Prof.
Dumbledore – ela disse, em lágrimas –, Voldemort matou toda a minha família. Eu só tinha meus
pais. Agora eu não tenho ninguém. O que vai ser de mim?
O
diretor de Hogwarts disse:
- Você
não ficará desamparada, Victoria, pode ter certeza. Já começamos a tomar
providências.
McGonagall passou
as mãos em volta dos ombros da moça, abraçando-a. Victoria tinha 17 anos, mas
até completar 21 anos, não era considerada adulta ou emancipada. Sem ter
parentes ou tutores, ela seria mandada para um orfanato. No mundo dos bruxos, o
orfanato tinha o nome de A Casa do Jovem Bruxo, e diziam que era um local
assustador, com delinqüentes e uma disciplina draconiana, algo retirado de um
livro de Dickens.
Ela
choramingou:
- Eu
não quero ir para o orfanato!
- Não
se preocupe, minha criança – disse o Prof. Dumbledore
– Cuidarei para que isso não aconteça. Agora o Prof. Snape
vai levá-la para a enfermaria. É melhor você passar a noite lá. Amanhã de manhã
arranjaremos um jeito para você ir aos funerais. Acredito que você queira dar o
último adeus a seu pai e sua mãe.
- Sim,
professor.
- E
tente não se preocupar, minha querida.
Sob
efeito da poção, ela dormiu sem problemas, e no dia seguinte foi levada para os
funerais, a Profª McGonagall representando o diretor
de Hogwarts.
Victoria
sentia-se como se estivesse num filme, assistindo àquilo tudo como se fosse uma
outra pessoa. Não que ela não tivesse aceitado o fato, mas era difícil dar
adeus. Despedir-se dos pais significava dar adeus a sua vida até aquele
momento. Ela não tinha idéia do que seria dela ou de sua vida dali para frente.
Emocionalmente,
Victoria não estava tão devastada quanto poderia estar. Claro que madame Pomfrey tinha lhe dado poções para ajudar, mas a perda de
seus pais sempre tinha sido meio que presente na vida de Victoria desde que ela
teve idade suficiente para entender as coisas. Sua família era de origem sonserina e contrária a Voldemort,
e a ameaça sempre tinha estado presente. Desde muito pequena, ela recebera dos
pais as instruções e avisos de que ser contra Voldemort
era perigoso – e a favor de Voldemort também não era
mais fácil.
Na
verdade, Victoria tinha crescido vendo sua família ser dizimada paulatinamente
por Comensais sequiosos de vingança. Ela era uma menina quando os pais primeiro
lhe explicaram sobre o bruxo mau que ameaçava a todos. Quando Harry Potter finalmente derrotou Voldemort pela segunda vez, ela acreditou que tudo tinha
acabado, que o mundo finalmente estava seguro para se viver. Jamais lhe passara
pela cabeça que Comensais restantes pudessem acabar com sua vida deste modo.
Sentiria
muita a falta de seus pais, que a amavam muito e a quem amava com grande
carinho. Ela não tinha irmãos, nem tios, nem primos, nem ninguém. Estava
sozinha no mundo.
Ao
voltar para Hogwarts, foi conduzida ao escritório do
Prof. Dumbledore mais uma vez. Novamente, assim que
entrou, viu um grupo de pessoas à sua espera: o Prof. Dumbledore,
a Profª McGonagall, o Prof. Snape
e um homem que ela não conhecia. Ele era baixinho, magrelo e careca; estava
enfiado numa capa preta surrada e usava uma gravata borboleta vermelha.
-
Entre, Victoria, entre – convidou o Prof. Dumbledore
– Eu tenho aqui umas ótimas balinhas de menta. Gostaria de uma?
- Não,
obrigada, senhor – disse ela – Eu estava indo para minha aula de Feitiços.
- Oh,
isso pode esperar. Você acabou de passar por uma experiência terrível com
grande bravura. Nenhuma criança deveria ser obrigada a assistir os funerais dos
próprios pais.
Aquilo
fez Victoria voltar a ficar com os olhos cheios de água. Ele continuou:
- Eu a
chamei aqui, Victoria, porque sua vida vai mudar, como você já deve ter
percebido. Mas como eu disse antes, você não vai ficar desamparada.
- Não
vão me mandar para o orfanato?
- Não,
não, querida, não. Seu pai foi muito previdente e tomou providências para o
caso de um dia Voldemort conseguir derrotá-los e você
ficar órfã. Ele deixou um documento que só deveria ser aberto no caso da morte
dele e de sua mãe.
- Um
documento?
- Um
contrato – ele se virou e mostrou o baixinho – Esse é o Sr. Bannister,
advogado de seu pai. Ele acabou de retirar o contrato do cofre de sua família
no Banco Gringotts. Ele me deu a boa nova: você vai
ter um responsável. Bem, na verdade mais que isso. Esse contrato foi assinado
quando você ainda era uma criança, e a ameaça de Voldemort
poderia deixá-la órfã numa idade ainda mais tenra. Foi para evitar que você
fosse levada para um orfanato que seu pai fez esse contrato nomeando um
responsável.
Victoria
indagou:
- Esse
responsável vai ser meu tutor, como uma governanta?
O
Prof. Dumbledore enrubesceu:
- Não,
na verdade não é essa a natureza do contrato que seu pai deixou. É um contrato
de casamento.
-
Casamento? – ela olhou para o advogado – Com ele?!
Dumbledore tentou
explicar:
-
Agora tenha calma, Victoria. O contrato prevê que você tem opção de se
divorciar ao completar 19 anos, um ano depois de alcançar a maioridade, se
assim desejar. Contudo, até lá, você deverá cumprir todos os requisitos do
casamento.
Victoria
olhou par ao baixinho e começou a se assustar com o que estava ouvindo. Ela
procurou ter certeza:
-
Professor, o que isso quer dizer?
Todos
os adultos presentes se mexeram, desconfortáveis, evitando olhar diretamente
para a garota. A Profª McGonagall apertou os lábios
com força, e o Prof. Snape não só parecia estar mais
pálido do que de costume, mas também seu humor deveria estar especialmente
ruim. O Prof. Dumbledore olhou para a menina, cheio
de compaixão, e disse:
- Isso
quer dizer que o casamento será real em todos os sentidos, Victoria. Não será
um casamento de aparências. Você poderá obter o divórcio mais tarde, como eu já
disse, mas enquanto for casada, deverá ser uma esposa verdadeira, não apenas
fingir ser uma.
As
implicações do que ele disse atingiram Victoria em cheio. Lágrimas começaram a
cair:
-
Mas... não tenho escolha? Não existe alternativa?
-
Lamento, mas não há, Victoria. O contrato força você e seu marido a essa
situação.
Ela
olhou o advogado, ainda chorando:
- Como
ele vai ser meu marido? Eu não tenho nem namorado! Eu nunca sequer namorei
firme!
A
Profª McGonagall sentou-se ao lado dela e Victoria se
sentiu tão confortada que se arrependeu de um dia tê-la chamada de galinha
velha. O Prof. Dumbledore disse, suavemente:
- Você
parece estar sob a errônea impressão de que o Sr. Bannister
é o contratante. Isso não é verdade. O contrato firmado prevê seu casamento com
o Prof. Snape.
Victoria
ficou tão surpresa que sequer conseguiu falar. Ela jamais poderia ter imaginado
algo assim. O que seu pai tinha feito? Não, não! Isso não podia estar
acontecendo!
Mas
estava, e como toda sonserina, ela rapidamente
encarou a realidade. Ela olhou para o Prof. Snape por
entre as lágrimas e viu-o de uma maneira diferente do que o via todos os dias:
como um homem. Viu os cabelos em desalinho, as capas bem negras, a veste de lã
cinza, os botões forrados, e finalmente o nariz em ganho, debaixo de olhos bem
pretos e bem brilhantes...
Seu
futuro marido.
Percebendo
o silêncio constrangedor, Victoria fez a pergunta que lhe pareceu mais óbvia no
momento:
- O
senhor quer se casar comigo, professor?
Numa
voz suave que ela nunca tinha ouvido, ele suspirou e respondeu:
- O
que eu quero ou o que você quer pouco importa. O contrato foi firmado e ele
precisa ser cumprido.
Ele
tinha razão. Victoria assentiu e enxugou as lágrimas. Por dentro, ela começou a
se acalmar – um pouco. Pelo menos, ela confiava no seu diretor de casa. Claro,
casar com ele jamais tinha passado pela cabeça, mas ao menos ela sentia que não
precisava ter medo dele.
O
Prof. Dumbledore interrompeu seus pensamentos:
- A
cerimônia de oficialização será realizada hoje à tarde. Até lá, Victoria, você
deverá providenciar a sua mudança para os aposentos do Prof. Snape. A partir de amanhã, a Profª Sinistra será sua nova
professora de Poções. A Profª McGonagall lhe dará os
novos horários amanhã no café da manhã. Hoje você deve se preparar para o seu
casamento. O Sr. Bannister vai acompanhar a cerimônia
como testemunha e vai verificar o cumprimento do contrato.
Victoria
arregalou os olhos:
- Mas
já? Não pode esperar um pouco? Sabe, até nós nos acostumarmos à idéia?
O
diretor de Hogwarts disse pesadamente:
- Isso
fere os termos do contrato. Por isso o Sr. Bannister
está aqui. Se vocês não estiverem casados ainda hoje, o contrato pode ser
declarado quebrado. Neste caso, você será retirada de Hogwarts
e levada à Casa do Jovem Bruxo.
Aquilo
foi o balde de água fria na última esperança de Victoria. Ela iria se casar em
poucas horas, e todos os adultos a encararam, como que à espera de uma reação.
Victoria enxugou as lágrimas de novo e suspirou, dizendo:
- Sim,
Prof. Dumbledore.
Ele
deu um tapinha no braço dela, tentando confortá-la:
-
Muito bem, minha brava criança. Vou pedir aos elfos
domésticos que mudem seus pertences para os aposentos do Prof. Snape o quanto antes.
A Profª
McGonagall se adiantou:
- Eu
irei mais tarde para transfigurar um lindo vestido para o seu casamento.
Poderemos conversar, se você quiser.
-
Obrigada, professora – Victoria se sentia realmente grata. Ela gostaria muito
de conversar com alguém sobre tudo que estava acontecendo.
- O
Prof. Snape vai levá-la até sua nova casa – disse o
diretor – E parabéns ao jovem casal.
Cada
vez que o Prof. Dumbledore abria a boca, ela parecia
estar mais perto do inevitável. Contudo, era essa sua nova realidade. Ela deveria
aceitar isso o quanto antes.
Foi
com pernas trêmulas que Victoria seguiu o Prof. Snape
até a masmorra embaixo do lago, onde ficavam seus aposentos. Eles andaram em
silêncio, seus passos ecoando pelos corredores de pedra, perdidos em
pensamentos.
O Prof.
Snape parou em frente a seus aposentos, tirou a
varinha e recitou um encantamento que Victoria não conhecia. Em seguida, ele
anunciou:
-
Agora as proteções vão reconhecer você. Não será preciso usar a senha para
entrar.
Victoria
entrou nos aposentos do professor mais temido de Hogwarts
com um sentimento de desastre iminente. Ali seria seu novo lar. O que ela viu
foi uma sala com um sofá em frente à lareira, uma grande escrivaninha no canto,
abarrotada de cadernos e pergaminhos.
- Este
é meu escritório particular – ele mostrou as outras portas – Ali fica meu
laboratório privado. Adiante está o quarto de dormir e o banheiro é contíguo.
No momento, estou atrasado para uma aula, mas acredito que teremos chance de
conversar mais tarde, depois... – ele hesitou – da cerimônia.
Victoria
assentiu:
- Sim,
senhor.
-
Victoria – ela não estava acostumada a ouvi-lo falar seu primeiro nome –, aqui
neste aposento você pode me chamar por meu primeiro nome. Fora daqui, eu volto
a ser o Prof. Snape e você será a Srta. Hennigan, apesar da sua mudança de estado civil. Essa
situação só perdurará até a formatura, quando a senhorita deverá se mudar para
a mansão de minha família.
- Sim,
senhor – corrigiu-se. – Quer dizer, Severo – Victoria ficou constrangida. – Vai
ser difícil eu me acostumar.
Ele
disse, a voz sempre com aquele tom suave que ela não estava acostumada:
- É
compreensível. Agora vou lhe dar uma parte do closet para colocar suas roupas.
Depois poderemos fazer arranjos mais confortáveis para ambos.
Ele
entrou no quarto, e Victoria seguiu-o, surpreendendo-se com o que viu. Era um
aposento amplo, dominado por uma grande cama de casal com quatro postes nus,
sem tecidos ou dosséis. À direita, embutido nas paredes de pedra, estava o
closet; à esquerda, a porta do banheiro, e em frente à cama, uma outra lareira.
Snape tirou a
varinha e apontou para o closet: várias roupas saíram das prateleiras, trocaram
de lugar e abriram uma grande seção interna. Victoria observou, impressionada
pela austeridade que jamais imaginou existir na intimidade de seu diretor de
casa.
-
Acredito que esse espaço seja o suficiente por enquanto. Como eu disse,
futuramente poderemos fazer outros arranjos mais a seu gosto. Agora preciso
voltar para a sala de aula.
-
Claro, professor.
Ele
parecia relutante, e disse, levemente constrangido:
- Vou
deixá-la à vontade para se preparar para a cerimônia. Pode almoçar no
escritório, se quiser. Talvez fosse mais aconselhável evitar seus colegas nesse
momento.
- Sim,
senh- quero dizer, sim, Severo.
Ele
saiu e ela ficou no aposento, olhando para aquelas paredes estranhas, sabendo
que teria que se familiarizar rapidamente com tudo aquilo. Lágrimas voltaram a
seus olhos, mas ela não saberia dizer por quê. Havia tanta coisa em sua mente
que ela tinha dificuldade em separar seus sentimentos.
Após o
que pareceram ser apenas alguns minutos, uma batida surgiu à porta e Victoria
foi atender, ainda sentindo-se uma estranha num lugar ao qual não pertencia.
Era a
Profª McGonagall.
- Olá,
querida. Está sozinha? Suas coisas já chegaram.
E era
verdade. Ao lado da porta, estava seu malão e algumas
caixas com pertences pessoais. Victoria disse, começando a carregar para
dentro:
- Oh,
eu não percebi. O Prof. Snape foi dar uma aula e eu
devo arrumar minhas coisas nesse meio tempo.
- E você
ainda nem almoçou, como eu verifiquei. Já passou da hora do almoço no Grande
Salão faz tempo.
Victoria
ficou surpresa:
- Eu
não percebi. Não estou com fome. Acho que tenho muita coisa na cabeça – Então
percebeu que a professora ainda estava na porta. – Por favor, entre.
- É
natural que esteja um pouco... dispersiva – disse a professora, entrando. – Sua
vida mudou de maneira radical e abrupta. Você tem se portado muito bem,
considerando as circunstâncias.
-
Será, professora? – Victoria suspirou. – Parece que isso tudo é um sonho e que
daqui a pouco vou acordar na minha cama lá em casa e meus pais vão me dar uma
bronca por dormir até mais tarde!
As
últimas palavras ela disse chorando, e em seguida afundou o rosto nas mãos,
soluçando. Penalizada, a Profª McGonagall sentou-se
ao lado dela no sofá.
-
Srta. Hennigan... Victoria. Eu calculo como isso tudo
deve estar sendo duro para você. Acho que vai precisar conversar com alguém
sobre isso. Se quiser que eu chame alguma de suas amigas, ou algum outro
professor com quem se sinta mais à vontade...
- Não,
por favor, não vá. Fique comigo. A senhora parece se importar com o que
acontece comigo.
-
Todos nós estamos muito preocupados com você, Victoria.
-
Professora, por que meu pai fez isso comigo? Por que ele me casou por contrato
com alguém tão mais velho?
-
Tenho certeza de que seu pai estava preocupado em mantê-la em segurança, junto
a alguém em quem o Prof. Dumbledore confia. De
qualquer modo, eu acho que seria bom você conversar com o Prof. Snape a esse respeito. Ele deve saber melhor do que eu
sobre esse assunto. Acredite apenas em duas coisas: a primeira é que você não
está sendo punida. Afinal, seu pai só fez o que achou ser melhor para você. E
acredite também que o Prof. Snape não é nenhum vilão.
Ele está preso a esse contrato do mesmo modo que você.
- Mas
é tão estranho! – desabafou ela – Digo, ele é um professor – *meu* professor.
- *Ex*-professor, não se esqueça. Madame
Sinistra vai ensiná-la Poções daqui para frente.
- A
senhora sabe o que eu quero dizer. Ele vai ser meu marido. Eu vou ter um
marido! Eu nunca nem sequer tive um namorado na minha vida!
Pacientemente,
McGonagall disse:
-
Tenho certeza de que com esforço e boa vontade, você poderá superar a falta de
experiência. Com certeza o Prof. Snape terá paciência.
Diga-me: você odeia o Prof. Snape, por um acaso? E
não precisa se preocupar: eu não vou repetir nada do que disser para ninguém.
Pode ser sincera.
- Não,
eu não o odeio. Ele é o diretor da minha casa e cuida de nós muito bem. As
outras casas nos odeiam, e só temos ele a quem recorrer – então ela olhou para McGonagall, ficou vermelha – Er...
desculpe por dizer. Eu não devia ter falado.
- Não
vou julgá-la – disse a professora. – Mas fico feliz em saber que você não tem
medo dele.
Victoria
ficou ainda mais vermelha:
-
Mas... eu tenho...
- Medo
dele? Mas não foi o que pareceu. Por quê?
- É
que – ela parecia não parar de ficar vermelha – O Prof. Dumbledore
disse que o casamento tem que ser de verdade. Então eu e ele vamos ter que...
fazer... coisas.
Os lábios
e McGonagall formaram um perfeito “O” e ele assentiu,
com uma compreensão pesarosa. Abaixando a voz, ela indagou:
- Mas
você foi às aulas de Educação Sexual com Madame Pomfrey,
não foi?
- Sim,
mas... eu vou ter que fazer, er... sexo... com ele.
Eu nunca fiz. Eu sei como é, mas nunca fiz. E vai ser com ele!
-
Agora, minha querida – disse McGonagall, tentando
acalmá-la. – Entendo que se sinta insegura. Mas tente explicar a situação a seu
marido. Sabe, as pessoas podem dizer muita coisa sobre o Prof. Snape, mas ele é um cavalheiro e vai tratá-la como uma dama
deve ser tratada. Ele vem de excelente família, e eu sei o quanto sonserinos valorizam isso numa pessoa.
- Eu
tenho medo, professora.
- Do
Prof. Snape?
- De
tudo isso! Eu não vou conseguir, eu sei que não.
-
Tenha calma, querida. Você está indo muito bom. Não há nada para se apavorar.
Casamentos arranjados podem ser um tanto constrangedores de início, mas com boa
vontade e esforço, as coisas podem tomar jeito. Procure conversar com seu
marido, negociar o que vocês querem desse casamento.
- Ele
disse que quer falar comigo hoje.
- Isso
é um bom sinal. Mas antes de falar com ele, pergunte-se o que você quer desse
casamento. Seja sincera. Se você não quer que esse casamento dure além do prazo
mínimo, diga isso a ele. Mas dê uma chance ao seu coração de saber o que quer.
- Sim,
senhora.
- No
momento, porém, devemos nos concentrar em deixar você bonita para sua cerimônia
de união. Antes de qualquer coisa, almoço. Depois um banho, e eu vou
transfigurar um vestido do jeito que você quiser.
- Eu
ouvi dizer que as noivas trouxas casam de branco. Isso é verdade?
- Sim,
é isso mesmo. E está na moda bruxa.
- O
que a senhora acha?
- Você
ficaria linda num vestido branco de noiva, Victoria. Vamos ver o que podemos
fazer.
E
linda ela realmente ficou. Depois de uma tarde inteira de trabalho, a hora
chegou. Naquela noite, uma breve cerimônia, testemunhada por alguns dos
professores e o Sr. Bannister, oficializou o
casamento de Severo A. Snape e Victoria Ann Hennigan, que passou a se
chamar Victoria Snape. O Prof. Dumbledore
em pessoa conduziu o ritual simples e ofereceu aos noivos um feitiço especial
para aumentar a proximidade do casal. O Prof. Flitwick
também encantou as alianças com vibrações de harmonias para os noivos.
Em seu
vestido branco de detalhes rosa, com rendas nos punhos e nas barras, Victoria
era um sonho de noiva trouxa. Os cabelos compridos castanhos estavam presos a
um coque pontilhado de flores brancas. Brincos e colar de cristal rosa
combinavam com os detalhes do vestido. O Prof. Snape
tinha optado por um elegante paletó cinza, camisa de gola alta e gravata em nó,
com botas pretas. O cabelo dele tinha sido lavado e estava sedoso e brilhante.
Victoria surpreendeu-se com a aparência do homem a quem a partir daquele
instante chamaria de marido.
Após a
cerimônia, os noivos foram convidados a uma recepção perto do Salão Principal,
exclusiva para os professores e para os alunos de sétimo ano. Só então Victoria
pôde ver seus amigos e colegas. Foi cercada pelas meninas, que numa algazarra
típica de adolescentes, queriam ver as alianças, comentar sobre o vestido,
fofocar sobre a reviravolta em sua vida. Ao falar com suas amigas Angela, Kathy e Jenny, ela olhava para o Prof. Snape,
por um canto do olho, e viu a reação dele. Obviamente, um bando de ruidosas
adolescentes aos gritinhos não o deixou nada contente.
O
tempo pareceu voar diante de Victoria, até que a festa foi encerrada e todos
começaram a voltar para suas casas e dormitórios. Nessa hora ela se deu conta
de que sua vida de casada iria começar.
Ao
entrar nas masmorras, acompanhada por Snape, ela se
sentiu extremamente constrangida. Mas logo tentou dizer a si mesma que não
deveria, ficar. Afinal de contas, aquele homem era seu marido.
-
Talvez fosse aconselhável você se preparar para dormir.
- Sim,
senhor. Quero dizer, Severo.
Os
dois entraram no quarto, e ele retirou o paletó, dizendo:
- Se
preferir conversar, podemos fazer isso também.
Victoria
se sentiu aliviada e sentou-se na cama:
- Sim,
eu gostaria disso – ela olhou para ele e enrubesceu – Obrigada.
- Por
quê?
- Por
estar sendo bom comigo.
- Ao
contrário do que reza a lenda em Hogwarts, eu não sou
um monstro. Há que se acrescentar que você é minha esposa agora. Mas também
quero que saiba que não tenho intenção em tornar esse casamento mais difícil
para nós do que ele já é.
-
Professor, posso fazer uma pergunta?
- Não
me chame por meu título.
-
Claro, desculpe. Severo, posso fazer uma pergunta? Gostaria de saber como meu
pai fez esse contrato. E por que ele fez isso?
- Ora,
o motivo é óbvio. Ele queria deixá-la protegida no caso de uma morte prematura.
O contrato previa que o Sr. Bannister arranjaria um
tutor para você até completar 16 anos, idade em que poderia se casar.
- Meu
pai fez o contrato com o seu pai?
- Não,
foi comigo mesmo. Meu pai – ele hesitou, sentando-se na cama – era seguidor do Lord das Trevas e morreu logo depois. Você era muito
pequena.
- Por
que você aceitou esse contrato?
- Seu
pai me fez um favor muito grande, e provavelmente salvou minha vida. Ele era um
dos poucos sonserinos que estava do lado da Luz e
usou sua influência junto a Dumbledore para convencer
o Diretor que minhas intenções em combater o Lord das
Trevas eram verdadeiras. Mais tarde, quando ele me pediu o favor de aceitá-la
como minha prometida em casamento, eu não pude recusar. À medida que você
crescia e eles estavam seguros, eu considerei que o contrato dificilmente seria
cumprido. Quando Harry Potter
livrou o mundo bruxo do Lord das Trevas, eu achei que
o contrato iria se tornar naturalmente nulo, pois você chegaria à maioridade
com seus pais vivos. Infelizmente não foi o que aconteceu. Eu sinto por sua
perda.
-
Então você não quis se casar comigo?
-
Acredito que o contrário seja verdadeiro. Não tenho ilusões de que você
quisesse, espontaneamente, casar-se com um homem de minha idade, odiado por
toda a escola, ex-Comensal da Morte, de humor duvidoso e sociabilidade ainda
mais controversa. Por isso entendo que esteja ansiosa pelo seu 19° aniversário,
quando poderá pedir o divórcio e se ver livre de mim. É minha intenção não
tornar essa exigência contratual mais desagradável do que já é. Não tenho
ilusões de que venha a ter sentimentos a meu respeito, e só exigirei alguns
poucos deveres conjugais. No mais, deixarei que desfrute de relativa
privacidade.
- Oh –
fez Victoria – Agradeço.
Snape se emendou:
-
Claro, se minha presença se tornar muito insuportável para você, poderemos
pensar em anular o contrato e o casamento.
- Não,
por favor. Eu... gostaria de tentar. O senhor parece estar se esforçando, é
apenas justo que eu faça o mesmo também.
-
Muito bem então – ele se ergueu e assumiu uma postura como se estivesse prestes
a começar uma aula de uma poção particularmente difícil – É melhor avisar que
não sou uma pessoa fácil de conviver. Muito da minha reputação é verdadeira.
Quando trabalho, não gosto de ser perturbado. Meu temperamento é conhecido e,
como já disse, a fama é totalmente justificada. Como seu marido, não exigirei
sua presença em eventos sociais que não queira ir, ou fora do âmbito acadêmico.
Se desse casamento resultarem filhos, eles levarão o nome Snape
não obstante o divórcio. Não lhe exigirei intimidade por enquanto, mas
lembre-se de que esse casamento não é apenas de aparência.
Ela
prestava uma grande atenção e disse:
-
Entendo, Severo.
- Até
o final do ano – continuou ele –, continuaremos a morar em Hogwarts.
Depois nós nos mudaremos para a mansão de minha família. Claro que passarei
muito tempo em Hogwarts, mas tentarei dedicar tempo a
você e à Mansão Snape. Você estará formada e poderá
se dedicar ao que quiser.
-
Você... quer filhos?
- A
idéia de um herdeiro não me desagrada. Jamais tinha pensado em ter um,
obviamente, mas essa pode ser minha última chance. Afinal, depois do divórcio,
é razoável presumir que jamais me casarei novamente.
- Por
quê?
O
rosto dele endureceu:
- Não
seja tola, Victoria. Você só se casou comigo obrigada, então por que supor que
alguém faria isso de livre e espontânea vontade?
Victoria
ficou penalizada ao ouvir o que aquele homem pensava de si mesmo – e sentiu-se
culpada, como se tivesse ajudado de alguma forma a que ele tivesse essa imagem
de si mesmo.
Seu
marido a devolveu à realidade:
- Se
quiser, poderemos falar mais numa outra hora. Agora é melhor irmos dormir.
- Está
bem. Obrigada por isso.
Victoria
foi ao banheiro, sentindo-se constrangida e tola por agradecer tanto. Com
dificuldade, tirou sozinha o vestido de noiva, optando por uma camisola
comprida para dormir. Ao sair do banho, Snape estava
enfiado num camisolão preto. Ela tremeu um pouco, pensando que teria que se
tornar íntima daquele homem.
Ele se
enfiou debaixo das cobertas enquanto ela guardava suas roupas e retirava a
maquiagem. Depois, constrangida, ela também se enfiou na cama – o mais longe
possível dele.
-
Assim você vai cair da cama.
- Não,
estou bem – mentiu ela.
- Não
seja tola, menina. Eu não vou tentar me aproximar de você até que esteja
pronta.
-
Mesmo?
Ele
suspirou.
- Não
tenho a menor intenção de estuprá-la na noite de seu casamento. Discutiremos
seus deveres maritais quando chegar a hora.
Ela se
sentiu tão aliviada que sorriu:
- Oh,
obrigada.
E mais
uma vez ela agradecia!
-
Agora vá dormir – disse ele – Você teve um dia cheio.
Era
verdade. Só depois de dar boa-noite e estar quase deslizando para um sono
pesado, ela se deu conta que no mesmo dia tinha enfrentado o enterro de seus
pais e seu próprio casamento.
***
Victoria
sentia-se deitada numa nuvem de calor e segurança envolvendo seu corpo. Quando
abriu os olhos, demorou a entender o que se passava.
Ela
estava nos braços do Prof. Snape. Durante a noite,
ela tinha se mexido e procurado o calor do corpo dele, aninhando-se com
satisfação nos braços de seu marido.
O
susto foi tamanho que ela deu um pulo para trás. O movimento o acordou e ela enrubesceu:
- Er... bom dia – ele continuou encarando-a, como se
esperasse uma explicação – Achei que estava atrasada e me assustei.
Era
uma mentira, e ele percebeu, mas não se deteve nisso:
- Eu a
teria acordado. Espero que tenha dormido bem. Pode usar o banheiro primeiro.
Constrangida, Victoria procurou seu uniforme e
dedicou-se à sua higiene matinal. Os dois recém-casados se envolveram nas
atividades do dia experimentando algum acanhamento e depois subiram juntos ao
Salão Principal. Assim que entrarem, as conversas pararam e todas as cabeças se
voltaram para eles. Vermelha, Victoria ouviu seu marido dizer:
- Bom,
tenha um bom dia.
Ele
deu um ligeiro toque nas costas dela antes de ir para a mesa dos professores, e
ela logo se dirigiu para a mesa de Sonserina. Assim
que ela sentou, foi cercada pelas amigas, todas cheias de perguntas,
animadíssimas com o casamento dela. Mas Victoria ainda não sabia direito como
se sentia. Tudo tinha sido tão rápido.
- E
como foi a lua-de-mel?
- Jennie, isso é lá pergunta que se faça? – ralhou Kathy.
- Ora,
o que tem de mais? A gente precisa saber como é.
Angela disse:
-
Olhe, você e Roger Corman já fizeram tudo que
precisavam para saber como é.
- É,
mas Vic fez com um homem de verdade!
Victoria
disse, tentando disfarçar o fato de que não tinha feito coisa nenhuma:
-
Olhe, gente, não fica bem ficar comentando.
- Aiiiiiiii que romântico!
- Psiu! Fala baixo! Snape já está
olhando para cá.
-
Mostra de novo a aliança.
Blaise Zabini se aproximou do grupo:
- Oi,
Victoria.
- Oi, Blaise.
-
Ainda não pude cumprimentá-la pelo casamento. Estão todos impressionados, só se
fala nisso.
Ela
não sabia o que dizer:
- Pois
é, eu me casei.
- Olhe
só – ele olhou para as demais meninas, que de repente passaram a olhar para as
unhas, mexer no cabelo, virar para o outro lado. Blaise
abaixou a voz – Victoria, se o seu casamento tem alguma coisa a ver com a gente
não ter dado certo... eu... olha, me desculpe.
- Não,
Blaise, não tem nada a ver com você.
- Eu
estava interessado. A gente podia ter namorado.
-
Agora não vale muito a pena pensar nisso, né?
- Mas
a gente pode ser amigo. Eu quero muito ser seu amigo.
-
Claro, Blaise. Podemos ser amigos.
-
Legal – disse ele, virando para trás – A gente se vê na aula.
Assim
que ele estava fora do alcance de voz, as três meninas atacaram Victoria como
gaviões caindo em cima de uma presa:
-
Nossa! Vocês viram a cara dele?
-
Estava morrendo de ciúmes! Dava para ver.
-
Vocês estão exagerando.
- Que
nada! Vic, acho que ele está a fim de você.
- Como
você tem sorte! Pode ter um marido e um amante!
- Não
é nada disso! – protestou Victoria – Ele só falou em amizade. Quer ser meu
amigo, só isso.
- Uau! Será que os dois vão duelar por causa da Vic?
- O
Prof. Snape iria massacrar o Blaise!
- Aiiiiiiiii isso é tão romântico!
- Pára
de dizer isso! Não tem nada a ver.
A
chegada da Profª McGonagall interrompeu as
adolescentes:
-
Srta. Hennigan, aqui estão seus novos horários. A
Profª Sinistra vai lhe dar Poções num horário extra às quartas-feiras.
- Sim,
senhora.
-
Tenham um bom dia. E não se atrasem para a primeira aula.
O dia
passou, ainda parecendo que tudo aquilo não era muito real, e Victoria quase se
esqueceu de que era uma mulher casada. No final do dia, ela quase foi para o
dormitório da Sonserina, como era de costume. Já estava
perto da entrada do salão comunal, quando deu meia-volta e foi até os aposentos
do Prof. Snape.
Ele
estava no laboratório e ela ocupou a escrivaninha do escritório para estudar as
matérias do dia. Quando ele emergiu do laboratório, ela estava quase terminada
com suas lições.
- Olá
– sorriu Victoria – Como foi o seu dia?
Ele
não retribuiu o sorriso:
-
Ensinando um bando de cabeças-ocas, como sempre. O seu?
-
Tentando deixar de ser uma cabeça-oca – ela voltou a sorrir – Já está quase na
hora do jantar. Vem comigo?
- Sim,
claro.
Mais
uma vez eles chegaram juntos ao Salão Principal, e as cabeças se viraram, mas
as conversas não diminuíram. Depois do jantar, eles desceram para as masmorras,
onde os dois ocuparam a escrivaninha para terminar seus deveres: Snape corrigia redações, e Victoria fazia o resto de suas
lições de Artimancia. Na sua letra miúda e
garranchada, ele distribuía notas baixas e comentários sarcásticos, ela notou.
- Vou
pedir aos elfos domésticos que providenciem uma
escrivaninha para você ficar mais confortável.
Ela
gesticulou para a pilha de pergaminhos ao lado dele:
- Eu
não quero atrapalhar.
- Não
está atrapalhando.
-
Então posso ajudar?
Snape piscou
lentamente:
- Quer
ajudar?
-
Claro. Você parece estar sobrecarregado.
-
Conhece as propriedades da pedra da lua?
- Foi
minha melhor redação no quinto ano. Conheço tudo sobre isso.
Ele
passou uma pilha de manuscritos e tinta vermelha, dizendo:
-
Divirta-se. Qualquer dúvida pode me consultar.
Victoria
viu-se diante de uma pilha de redações do quinto ano e passou a corrigi-las com
afinco, feliz de poder ajudar.
-
Posso fazer comentários?
-
Fique à vontade. Mas rubrique-os.
Ela
convencionou assinar um pequeno V ao pé do pergaminho. Quando terminou, viu que
Snape lia alguns de seus comentários com um meio
sorriso.
-
Bastante satisfatório.
-
Vindo de você é um elogio.
- Foi
gentil de sua parte.
- Fiz
com prazer.
-
Agora vamos dormir?
- Pode
ir. Tenho outros afazeres a terminar.
- Oh,
que pena. Mas está bem.
Ela se
enfiou na cama e, cansada, dormiu. Estava dormindo quando Snape
se deitou. Estava dormindo quando seu corpo procurou o calor do dele. Foi a vez
de Snape ficar intrigado. Mas não se separou dela.
Abraçados, os dois dormiram a noite inteira – o que, no caso de Snape, era virtualmente inédito.
De
manhã, houve novamente o constrangimento ao acordar nos braços de Snape. Mas aquilo era tão bom, pensou Victoria, preferindo
por uns minutos fingir estar dormindo. Mal sabia ela que seu marido também
estava acordado, fingindo que dormia. Quando Victoria abriu os olhos, ele
parecia dormir e admirou-o por alguns minutos, hipnotizada pela visão do marido
de olhos fechados: ele parecia calmo e sereno, e talvez até mais jovem. Ela
teria ficado mais tempo a admirá-lo, mas temia ser descoberta. Com cuidado ela
se desvencilhou dos braços dele e dirigiu-se ao banheiro.
Ao
ouvir o barulho da porta, Snape abriu os olhos,
sentindo a falta do corpo dela em seus braços, a ausência do seu calor, seu
perfume suave. Ele preferiu não pensar no quando os seus sentidos tinham se
aguçado e sentiu um problema se apresentando: uma insistente ereção bastante
inoportuna. Respirando fundo, ele esperou, imóvel até que ela desaparecesse.
Ele previu que o "problema" poderia se repetir eventualmente, e para
não constranger sua esposa, seria bom ele cuidar disso – sozinho, concluiu
amargamente.
Foi
nesse momento que Victoria emergiu do banheiro, já de banho tomado e uniforme.
Ela viu que ele a encarava e sorriu:
- Bom
dia.
- Vejo
que levantou cedo. Dormiu bem?
-
Muito bem, obrigada – ela guardou a camisola – Há tempo de tomar um banho antes
do café. O banheiro está livre.
-
Agradecido.
Naquela
manhã, os dois estavam menos constrangidos um com a presença do outro.
Nas
semanas que se seguiram, grande parte da tensão entre os dois se diluiu sem que
eles percebessem. Foi naturalmente que eles chegavam ao Salão Principal e a mão
de Severo estava nas costas de Victoria. Sem sentir, eles estavam mais próximos
fisicamente, trocando olhares que ninguém, a não ser eles dois, perceberam. Uma
relação incipiente começava a se desenvolver.
Então
não foi de espantar que numa noite fria, um novo passo foi dado. Victoria lia
um romance em frente à lareira e Snape chegou na
frente dela com duas taças;
-
Gostaria de tomar um cálice de vinho comigo?
- Eu
nunca tive permissão para beber álcool.
- Você
é uma mulher casada, com idade e atitude para consumir álcool com
responsabilidade. É um bom vinho.
Victoria
sorriu:
-
Então vou experimentar.
Snape serviu uma
taça e passou-a a Victoria, sentando-se a seu lado. Ela tomou a taça das mãos
deles e bebericou um pouco.
- Hum – fez – Bom – e bebeu mais um pouco.
- Vá
com calma – recomendou – Isso não é suco de abóbora.
- Está
bem. Não posso me embebedar: tenho aula amanhã cedo!
Ela
sorriu de sua própria piada, e Snape não retribuiu,
reparando que os lábios dela estavam avermelhados do vinho. Ele notou isso e
seu corpo reagiu. Mas ele nem tinha bebido nada, portanto, não era efeito do
vinho.
- Isso
é bom – repetiu Victoria – Quanto posso beber sem ficar bêbada?
- Você
não está acostumada a beber, então é bom não abusar. Um copo deve bastar.
- Hum, ajuda a esquentar a gente por dentro. Estou ficando
rosada – ela parecia descobrir um mundo novo.
-
Tenha cuidado. Álcool dá uma sensação de falsa euforia.
- Acho
que entendo o que quer dizer.
-
Talvez fosse bom beber um pouco de água para diluir esse efeito – ele conjurou
um copo e entregou-o a ela.
-
Obrigada – ela tomou um gole – Você é muito gentil. Sabe, nem todos são tão
gentis com a esposa, pelo que ouvi falar.
- Eu
disse que pretendia tornar essa experiência o menos indolor possível. Mas há
certas coisas das quais não se pode fugir, Victoria.
Ela
sentiu uma mudança de tom na voz dele e quis saber:
- O
que quer dizer?
-
Precisamos conversar sobre intimidade. Talvez esteja chegando a hora de
consumarmos o casamento.
Victoria
sentiu o coração bater mais forte. Ela tinha resistências, medos, mas sabia que
ele tinha razão: ela não podia fugir por muito mais tempo.
-
Entendo, professor.
- Eu
já lhe disse que vou apenas exigir intimidade num nível mínimo. Podemos
determinar dias especiais para sexo, e se houver interesse, acordar encontros
fora desta agenda. O que lhe parece?
Victoria
sentiu-se grata pelo modo como ele parecia se preocupar com ela, mas foi
sincera:
- Eu
não sei. Na verdade, devo dizer que não tenho experiência nenhuma com sexo.
-
Nenhuma?
- Nada
– ela deu de ombros – A não ser que beijar conte para alguma coisa.
-
Lamento, não é o caso.
-
Então, não. Desculpe.
- Não
se desculpe, porque você não fez nada de errado. O máximo que posso fazer é
prometer ser... gentil.
-
Obrigada.
-
Sextas-feiras lhe parece adequado?
-
Sextas? É amanhã. É isso que quer dizer?
- Eu
alertei contra a procrastinação exagerada. Acredito que assim possamos resolver
esse assunto e remediar isso.
- Entendo
– disse Victoria – Mas gostaria de lhe pedir um favor.
- Pois
não?
-
Minha formatura ainda está longe, e eu não gostaria de engravidar antes de me
formar. Posso lhe pedir para tomar precauções até lá?
- É
razoável – disse ele - Eu mesmo prepararei uma poção com essa finalidade que
deverá ser tomada uma vez por semana. Mas depois da formatura, eu espero que
essa atitude mude.
- Sim,
é claro – ela disse – Posso até tomar uma poção de fertilidade, se quiser.
- Não
é recomendável na sua idade. Mas poderemos manter essa opção em aberto.
-
Parece ser bem razoável. Obrigada por isso, Severo. Eu... confesso que estou
surpresa. Você tem se mostrado tão compreensivo e gentil comigo. As pessoas
jamais suspeitariam isso de você.
Ele
fez um rosto inamistoso:
- Espero
que você não saia repetindo isso por aí com suas amigas.
- Não,
não. Mas quando ouço alguém falando mal de você, eu gostaria de dizer isso
tudo.
-
Agradeço por não fazê-lo – ele deu um meio sorriso – Tenho uma reputação a
preservar.
Victoria
percebeu a ironia:
- Não
se preocupe, seu segredo está seguro comigo. Bom, eu vou dormir, acho que o
vinho realmente fez efeito – ela se ergueu do sofá – Você vem?
- Não,
gostaria de desfrutar um pouco mais dos prazeres de Baco, se não se importa.
-
Claro que não – talvez fosse o vinho, talvez fosse outra coisa; o fato é que
Victoria se inclinou e deu um beijo casto na bochecha de Snape
– Boa noite, Severo.
Ele
não respondeu, sentindo o local onde os lábios de Victoria tinham tocado
queimando em fogo.
Sem se
deter no que tinha feito, Victoria foi dormir.
Severo
ainda ficou um bom tempo a consumir vinho, olhando o fogo e tentando controlar
seu corpo repentinamente desperto e sem a menor disposição de ir dormir.
No dia
seguinte, Victoria estava um tanto quanto inquieta diante da perspectiva da
noite. Isso ela não podia negar. A sexta-feira passou rapidamente, e depois do
jantar, ela voltou para as masmorras com o coração acelerado. Estava muito
insegura, temendo que alguma coisa saísse errado ou que ela não agradasse o
marido. Por outro lado, ela não sabia nem como fazer isso, nunca tendo
praticado sexo e conhecendo apenas a teoria.
Snape corrigia
provas em sua escrivaninha quando ela entrou. Subitamente ela se sentiu
acanhada e enrubesceu, ao perceber que em pouco tempo teria sexo com aquele
homem.
- Vou
tomar um banho – anunciou, achando que seria de bom tom.
-
Vista a camisola.
Novo
rubor tomou conta de Victoria, e ela foi para o banheiro.
Em
grande expectativa, ela deixou o banheiro e enfiou-se na cama, esperando que
ele terminasse suas atividades. A inquietação dela aumentou quando ele colocou
os pergaminhos de lado e entrou no banheiro. Ela se sentou na cama, nervosa.
Snape deixou o
banheiro, já vestido com sua roupa de dormir. Ele se sentou na cama e disse, em
voz suave:
- Você
não precisa ter medo de mim, espero que já saiba disso.
- Não,
eu só... É que... eu espero não fazer nada de errado.
- Não
há certo ou errado. Procure relaxar. Gostaria de um copo de vinho?
- Nem
pensar. Acho que não conseguiria engolir o líquido.
- Você
está muito nervosa. Quem sabe num ambiente mais escuro isso seja mais fácil. Nox.
As
luzes se apagaram e o quarto caiu na penumbra, iluminado apenas pelo fogo da
lareira. Estranhamente, aquilo não acalmou Victoria.
-
Seria bom se você retirasse sua roupa da cintura para baixo, para não
atrapalhar.
Com um
ligeiro tremor, Victoria obedeceu, mesmo por debaixo das cobertas. A voz de Snape soava suave em meio á penumbra:
- Isso
pode doer um pouco no início. Procure deitar-se confortavelmente e relaxar.
Ela
colocou a cabeça no travesseiro e sentiu o colchão afundar, à medida que ele
chegava mais perto dela, já debaixo das cobertas também. Victoria sentiu os
dedos de mãos longas a passearem por suas pernas, erguendo a camisola. Logo em
seguida, ele se deitou sobre ela e foi um gesto gentil – ela ficou agradecida,
pois seu estômago estava um tanto quanto inquieto, e seu coração, disparado.
Colocando
uma perna entre seus joelhos, Snape começou a
colocá-la em posição. Passiva e complacente, Victoria sentiu algo quente e
rígido roçar entre suas pernas, agora abertas. Ele ergueu os joelhos dela e
dobrou-os, fazendo com que ela plantasse os pés na cama. Num movimento
instintivo, ela jogou os braços para trás, tão embaraçada que não sabia sequer
para onde olhar.
Agilmente,
Snape se colocou entre as pernas de Victoria e
posicionou-se, e ela mais uma vez sentiu o membro quente e rígido, desta vez
bem *lá* - e ela sentiu algo
excitante por saber que aquele era o pênis dele, e que estava duro por causa
dela. Era um sensação estranhada, mas não era ruim.
A
princípio suave, a pressão do pênis em penetrar sua vagina foi aumentando,
causando-lhe dor por causa da barreira natural que existia no local. Ela gemeu
e o som pareceu tão alto que ela se controlou para não repetir. Mas a dor
aumentou e ela deixou escapar uma exclamação. Contudo, Snape
continuava a pressionar.
- Só
mais um pouco – ele disse, numa voz tão baixa e estrangulada que Victoria mal
reconheceu – Mais um pouco...
De
alguma maneira, a voz dele a confortou, e ela sentiu a dor ser substituída por
uma ardência – e de repente, havia algo dentro
dela. A sensação era diferente de tudo que conhecia: a dor tinha passado, e ela
sentia algo dentro dela, que só a fazia sentir-se preenchida, quase como que
recheada. Snape recuou um pouco e investiu de novo,
desta vez com mais ímpeto. E mais uma vez, e outra, e mais outra, procurando um
ritmo. Victoria sentiu as estocadas, a dor cada vez menor sendo substituída por
outras sensações, algumas bem interessantes. Snape
parecia ofegar, mas de maneira elegante.
De
repente, quando o ritmo aumentou, ela sentiu algo mais a preenchendo, algo
muito, muito quente e líquido. Foi quando ela soube que ele tinha atingido o
clímax. De alguma maneira, aquilo a deixou orgulhosa. Ela tinha conseguido
satisfazer seu marido, e isso era uma sensação poderosa.
Snape saiu de
dentro dela, murmurou algumas palavras e ela sentiu que tinha ficado limpa. Em
seguida, ele deitou-se ao lado dela, e ela podia ouvi-lo tentando recuperar o
fôlego, as respirações fortes e ritmadas.
Victoria
rolou para o lado e encolheu-se, subitamente sentindo-se vazia e sozinha. Havia
alguma coisa faltando, mas ela não sabia o que era. Uma certa angústia
instalou-se na jovem esposa, que ficou a pensar no que tinha acabado de
acontecer. Ela tinha feito sexo, mas tudo parecia ter sido tão diferente do que
ela vira nas aulas de Educação Sexual de Madame Pomfrey.
Ali havia menção a casais que se amavam, e aquele certamente não era o caso
dela.
Foi
quando uma lágrima caiu de seus olhos no travesseiro, e ela percebeu que seu
marido não a amava. Na verdade, ele sequer tinha podido encará-la, de tamanha
repulsa que ele sentia. Durante todo o ato sexual, ele não a olhara, nem fizera
um gesto de carinho – um beijo, um toque. Não que ele fosse obrigado a fazer
isso, mas como ele não tinha feito aquilo a fazia sentir-se pior do que jamais
se sentira. Ela tinha sido uma esposa imposta a ele, e ele a achava repugnante.
Sexo era uma obrigação, uma que ele não escondia em demonstrar que era pouco
prazerosa para ele. Era pena, porque ela começava a gostar dele, de seu jeito
calado e fechado. Victoria sentia que Severo estava se esforçando – como disse
que faria – para que aquilo fosse o mais palatável possível. Mas ela não
conseguira conquistar seu marido sexualmente. Tinha sido uma função
perfunctória e mecânica, como um desagradável imperativo biológico.
Pouco
Victoria sabia das reais emoções e do quanto Snape
tinha se controlado durante todo aquele ato. Sim, controle era a palavra-chave
para aquele momento pelo qual ele tanto esperava. Snape
queria muito a união conjugal com sua esposa, a quem se descobrira muito
atraído. Mas ele tinha que ser distante, já que a garota provavelmente sentia
nojo por fazer sexo com alguém por obrigação, alguém feio, velho e
completamente sem atrativos para uma moça tão jovem e bela. Impossível não ter
ficado atraído por ela. Ele tinha que dominar o desejo dentro dele de fazer
dela sua mulher em todos os sentidos, fazê-la sua mulher de fato, pois que ela
era de direito.
Mas
ela provavelmente agradeceria a Snape o fato de o
contato entre eles ser reduzido ao mínimo possível, apenas o indispensável para
consumar o casamento. Era o máximo que ele podia esperar dela – que ela
suportasse seu toque, e para isso, ele tinha que ser o mais cirúrgico possível.
O que ele não daria para tomá-la em seus braços e dar-lhe todo o carinho que
ele sentia por ela. Sim, isso era o que Severo Snape
queria, mas Severo Snape era um homem que em toda sua
vida nunca conseguia o que mais queria. Portanto, era melhor esquecer e poupar
a moça o máximo possível, para que ela ao menos pudesse suportar a sua presença
a seu lado enquanto eles fossem obrigados a ficar casados. Pois ele certamente
mais uma vez não teria o que queria na vida.
Certamente
não teria amor.
Cada
um virou para o lado, absorto em diferentes pensamentos, e a noite era a única
testemunha do que se passava em seus corações atormentados.
Uma
nova rotina se estabelecia, com o sexo semanal. Os dois evitavam o assunto
durante o resto da semana, mas Victoria tomava uma vez por semana a poção antigravidez. Ela ia se acostumando gradativamente à idéia
de um criar os filhos de Snape.
Por
diversas vezes, Victoria imaginava se tinha uma vida feliz. Bom, ela certamente
não estava num orfanato, e seu marido a tratava bem, muito bem, aliás, para um
homem que não a amava. Na vida privada, Snape era
cortês, gentil e respeitoso com ela – e isso era mais do que se podia dizer de
muitos casamentos, arranjados ou não.
Severo
dava a Victoria ampla liberdade para se ocupar de suas coisas favoritas e a
deixava reunir-se com os amigos – desde que fora das masmorras. Felizmente, a
curiosidade inicial de suas amigas a respeito do casamento tinha arrefecido, e
ela não se sentia mais tão constrangida ao lado delas.
Victoria
viu-se passando muito tempo em frente à lareira, desenhando. Com um bloco de
desenho pequeno e tintas mágicas, ela se sentava no chão, perto da lareira, e
desenhava paisagens, pessoas, cenas. O fogo da lareira parecia tornar as cores
ainda mais vivas do que a magia das tintas e ela jogava com os contrastes,
pintando enquanto Severo se dedicava a corrigir cadernos ou provas. Uma vez, ao
vê-la sentada no chão, ele indagou:
- Já
terminou seus deveres?
- Sim
– ela respondeu – Estou na fase de reforço para os NIEMs.
Ele
olhou para o que ela fazia, assentiu e virou as costas, dizendo:
- Você
desenha bem.
Aquele
tinha sido o primeiro elogio que ela ganhara por seus desenhos, e seu orgulho
era absolutamente indizível. Severo não distribuía elogios, mesmo que
merecidos, fosse a quem fosse. Se ele tinha dito aquilo, ela porque ele
realmente achava que ela desenhava bem.
O
segundo elogio a seus desenhos tinha sido da fonte mais improvável que ela
poderia imaginar. Snape apitava uma partida de quadribol, e Victoria sentou-se na seção de Sonserina, com as amigas, munida de um bloco grande e suas
tintas. Durante o jogo, ela fez esboços do próprio marido e das múltiplas
expressões de seu rosto, o cabelo voando, sua elegante postura em cima da
vassoura. O jogo acabara e ela dava os últimos retoques quando uma voz atrás de
si disse:
-
Muito bom, Srta. Hennigan. A senhorita tem muito
talento.
Era a
Profª McGonagall, que sorria para ela. Victoria
indagou, insegura:
- Oh,
obrigada. A senhora acha mesmo?
-
Admito que pintar o marido pode ser um pouco suspeito, afinal, há sentimentos
envolvidos – Victoria enrubesceu por motivos que McGonagall
nem suspeitava – Mas não tome a minha palavra como verdade. Faça o seguinte: a
loja Tintas Mágicas tem uma galeria de arte no Beco Diagonal. Fale com o
marchand e leve alguns de seus desenhos. Ele lhe dirá se são mesmo bons. Mas se
quer um conselho, prepare um retrato bruxo de Severo para o aniversário dele –
será um excelente presente.
- Vou
pensar nisso. Obrigada, Prof ª McGonagall.
Victoria
nunca tinha pensando que fosse boa com os desenhos, ao menos boa o suficiente
para mostrar a um marchand de artes. Decidiu produzir alguns desenhos para ter
o que levar ao Beco Diagonal.
Contudo,
outras preocupações a afastaram das tintas para ocupar sua cabeça: ela se
preparava para prestar os NIEMs e, conseqüentemente,
se formar de Hogwarts. Ia ser difícil deixar algumas
daquelas pessoas.
Além
das suas amigas mais chegadas, também Blaise Zabini se mostrava solícito e gentil. Com uma pontada de
dor, Victoria imaginou como teria sido namorar com ele, e como seria sentir
amor por alguém. Mas isso era algo que Victoria só podia imaginar, claro.
Aquilo provavelmente nunca aconteceria com ela.
Os NIEMs passaram, e depois deles, a formatura. Houve um baile
aos formandos e Victoria ficou muito satisfeita porque Snape
aceitou acompanhá-la à festa. Eles dançaram juntos e não chegaram a ser a
sensação do baile. Um formando muito famoso, Harry Potter, roubou a cena. O Menino-que-sobreviveu era um dos
mais solicitados na pista de dança. Victoria sabia que aquilo era a causa do
mau humor de seu marido: Snape odiava Potter.
No dia
seguinte, quando os estudantes pegaram o Expresso de Hogwarts
para voltar para a casa, Victoria despediu-se dos amigos e preparou-se para
pegar uma vassoura e voar até a Mansão Snape. Seria a
maior mudança de sua vida, e ela sabia que ali seria seu novo lar.
O
casal voou durante uma boa parte do dia, levando bagagens encolhidas, e
Victoria sentiu uma certa trepidação ao aterrissar no jardim da mansão
escondida dos trouxas. Snape ajudou-a a desmontar da
vassoura, dizendo:
- Bem
vinda à Mansão Snape. Ela está na família há 13
gerações, e eu temi que eu fosse o último dono dela dentro da família.
Felizmente, espero que a família agora tenha descendência.
O dono
da mansão subiu os cinco degraus até a porta da frente e bateu no dispositivo
de metal. Um elfo doméstico vestido num pano de prato
atendeu à porta:
-
Mestre Snape! Blinky estava
esperando. Entre, por favor.
-
Obrigado, Blinky. Permita-me apresentar-lhe Madame Snape.
- Sim,
sim, Madame! Bem-vinda à mansão. Blinky espera que
tudo seja de seu agrado.
Snape expandiu a
bagagem e ordenou:
- Leve
tudo para cima enquanto deixo Madame Snape
familiarizar-se com seu novo lar. Blinky, espero que
você dê a ela toda assistência que precisar.
- Com
certeza, Mestre Snape. Madame pode contar com Blinky!
Enquanto
as bagagens eram levadas para cima, Snape mostrava a
parte de baixo da casa: os dois salões de jantar, o escritório, a biblioteca
(extensa e impressionante, admitiu Victoria) e a parte de serviço. Lá fora,
estava a área de vôo, os jardins e o riacho, às margens do qual havia um
pequeno coreto, sob um grupo de árvores, onde era agradável tomar chá no verão.
Victoria achou tudo muito lindo e bem-cuidado.
Mas no
andar de cima...
- Ali
adiante ficam os quartos dos hóspedes. O meu quarto fica na ala oeste e o seu
na ala leste.
- Como
assim? – quis saber Victoria.
- Seu
quarto pega o primeiro sol da manhã. É um dos mais iluminados da casa.
- Por
que dois quartos?
Ele
pareceu estar explicando o óbvio:
-
Somos duas pessoas. Eu certamente não espero que você, tendo uma escolha, opte
por dividir um quarto comigo.
Ela
argumentou:
-
Severo, somos casados. Pessoas casadas dormem juntas.
- Nós
só fazemos isso uma vez por semana, e eu não –
- Não
estou falando de sexo, estou falando de dormir. Não somos companheiros de
quarto, somos marido e mulher. O casamento pode ser arranjado, mas ele é
verdadeiro. Devemos ter um quarto só.
Snape parecia
surpreso com a atitude dela.
-
Eu... imaginei que gostasse de ter seu próprio quarto para suas coisas.
Ela
deu de ombros:
- Se
me prometer mais espaço no closet do que tínhamos em Hogwarts,
não vejo por que ter um quarto próprio. Eu me acostumei a ter companhia para
dormir, e agora acho que não conseguiria dormir sozinha. A não ser que... oh,
agora entendo. É você que quer ter seu próprio quarto, não é isso?
- Não,
Victoria, não é isso.
- Não
mesmo? Eu sei que você me acha repugnante, mas não pensei que quisesse tanta
distância de mim.
-
Victoria, eu não entendo o que está dizendo. Mas garanto que se você quer que
compartilhemos um quarto, eu não vou me opor.
Victoria
cruzou os braços e mordeu os lábios, lutando contra as lágrimas. Na verdade, ele
não a tinha tratado mal, e estava concordando em compartilhar um quarto, mesmo
que não a amasse nem a achasse bonita.
Ele
era um marido digno, e ela sentiu que estava se comportando como uma menina
mimada.
-
Obrigada – disse apenas – E o quarto da ala leste? Que faremos com ele?
Snape andou um
pouco no corredor e disse:
- Ele
facilmente pode virar mais um quarto de hóspedes – a não ser que você tenha
planos para ele. Afinal, a luz privilegiada faria dele um excelente ateliê de
arte.
- Um
ateliê?
- Eu
estava pensando em reformar a parte leste do sótão para que você usasse como
ateliê para seus desenhos. Mas se você prefere o quarto, também pode-se dar um
jeito.
- Um
ateliê no sótão? Isso seria excelente.
-
Alegra-me que pense assim. Como você sabe, eu devo passar as noites da semana
em Hogwarts, quando as aulas começarem, e você pode
ocupar seu tempo livre de maneira prazerosa.
- Foi
muito gentil de sua parte, Severo.
Blinky apareceu
nesse momento.
-
Mestre Snape, Blinky está
preparando chá com biscoitos no coreto.
-
Excelente – disse Snape – Enquanto isso, por favor,
traga a bagagem de Madame Snape para o quarto oeste.
- Sim,
senhor, Mestre Snape.
Victoria
sorriu:
-
Obrigada, Blinky. Você é muito prestativo.
O elfo sorriu, emocionado:
- Oh!
Madame Snape é boa e gentil! Blinky
vai fazer tudo para ajudá-la, madame, tudo!
O
casal desceu as escadas, saiu da casa e foi até o coreto, onde uma bandeja de
chá em baixela de porcelana o esperava. Victoria serviu o marido e serviu-se de
chá, dizendo:
- Acho
que este já virou um de meus locais preferidos na mansão. Tenho sua permissão
para explorar a biblioteca mais tarde?
- Com
satisfação. Fico feliz em saber que você não pretende abandonar os livros
apenas porque já deixou Hogwarts.
- Mas
eu vou me candidatar a um emprego que exige muito estudo. Não posso me separar
dos livros!
- Tem
planos de fazer algo além da pintura? Como minha mulher, não precisa trabalhar
se não quiser.
- Ora,
mas eu quero. Eu só pinto por lazer. Tenho planos de lecionar para crianças
bruxas de cinco a nove anos. Sabe, antes de entrarem em Hogwarts.
Snape fez uma careta:
-Você não tem minha simpatia. Eu não queria
esse emprego nem que minha vida dependesse disso. Odeio crianças.
- Não
entendo. E nossos planos de termos filhos?
-
Nossos filhos não serão mal-educados, egoístas nem mimados.
- O
que o faz pensar que todas as outras crianças são assim?
-
Dezoito anos de experiência.
-
Nossa, como você é severo.
- É o
meu nome, certo?
Victoria
sorriu:
- Se
as pessoas soubessem desse seu senso de humor...
- Não
está pensando em destruir minha reputação, está?
- Não,
claro que não. Ao você ficaria de mau humor e eu teria que ouvi-lo sem cessar.
- Não
precisa se preocupar. Durante o ano escolar, eu não estarei muito presente. Mas
você obviamente já tem planos de como ocupar seu tempo.
- Você
desaprova?
- E
quem sou eu para aprovar ou desaprovar?
-
Severo, você é meu marido. Eu respeito muito sua opinião.
-
Tentarei não deixar que isso afete minha vaidade.
Com
diálogos assim,o verão passou, e foi interessante. As notas de Victoria nos NIEMs ajudaram em sua pretensão de se candidatar a uma vaga
de professora, mesmo que de crianças. Snape passava
seu tempo entre a biblioteca, o escritório e o laboratório de poções no porão.
Victoria arrumara o ateliê no sótão e abrira magicamente mais duas janelas,
iluminando muito o local. Enquanto as aulas não começavam para ambos, ela
produzia desenhos. Fez retratos dos amigos, uma cena no Beco Diagonal (difícil,
com todos aqueles pequenos detalhes), paisagens naturais e até algumas
impressionistas.
Um
dia, ela tomou coragem e seguiu o conselho de Minerva McGonagall:
levou alguns de seus desenhos para o marchand de arte mágica. Para sua
surpresa, o Sr. Fiefenbach, o marchand, gostou muito
deles. Ela voltou à galeria com mais desenhos e ele resolveu incluí-la numa
coletiva que abriria no outono.
-
Ainda faltam uns dois quadros para eu poder entrar na coletiva, segundo o Sr. Fiefenbach – disse ela entusiasmada – E faltam apenas dois
meses para a exposição.
- Você
parece bastante entusiasmada.
- Eu
devo estar trabalhando quando a exposição abrir. É bem verdade que é uma
coletiva, mas é um começo.
- E
muito auspicioso.
-
Posso convidar alguns amigos?
- Para
a exposição? Claro que sim.
- Não,
para a mansão. Sinto saudades.
- Está
bem. Devo ir ao Beco Diagonal para buscar ingredientes para Hogwarts
e para os laboratórios. Você pode recebê-los nesse intervalo, assim terão
privacidade.
- Tem
certeza de que não quer estar aqui quando vierem? Afinal de contas, eles são
seus ex-alunos.
- A maravilha
de se ter ex-alunos é saber que não preciso mais vê-los enquanto viver.
Obrigado, mas não, obrigado.
Victoria
riu-se da atitude de seu marido e começou a escrever corujas. Seria uma boa
chance de saber as fofocas do verão sonserino.
***
As
notícias fervilhavam.
-
Jura? Afinal, Pansy e Draco
vão ou não anunciar o casamento?
- É
claro que vão. O anúncio final só deve sair na semana que vem, e será discreto.
Você sabe, com o pai dele em Azkaban e tudo mais...
- Sabe
quem tem perguntado por você, Vic? Blaise.
- Ora
e por que ele faria isso? Ele pode me escrever.
- Ele
morre de medo do seu marido. Afinal, tudo indica que Blaise
não tem intenções honradas a seu respeito.
- Kathy! – Victoria escandalizou-se – Eu sou uma mulher
casada.
-
Coruja amarrada também pia, sabia? – disse a outra amiga.
- Você
também, Jenny?
- Se
ao menos você fosse feliz no casamento... sabe, sexualmente.
Victoria
enrubesceu. Nunca tinha contado nada a elas, e não iria começar agora.
- Eu
não acho que isso seja apropriado. Não vou comentar minha vida sexual com
outras pessoas.
- Ora,
mas nós somos suas melhores amigas. Ora, vamos. Você nunca falou para a gente o
que o Prof. Snape esconde debaixo daqueles trajes esvoaçantes.
Kathy, Jenny e Angela explodiram em
risinhos adolescentes, que Victoria não acompanhou. Com um suspiro, ela disse:
- Não
sei por que vocês dão tanta importância a isso. Há outras coisas na vida.
Kathy percebeu o
desconforto de Victoria e rapidamente mudou de assunto:
- E
você certamente está fazendo outras coisas, querida. Vai ser professora e fazer
uma exposição de arte. Vamos, conte tudo.
Grata
pela mudança de assunto, Victoria pôs-se a falar sobre sua incursão no ramo das
artes plásticas. Depois o assunto foi a nova profissão de cada uma, incluindo a
de professora para crianças bruxas, e depois variou sobre a fofoca sobre os
demais colegas.
A
surpresa foi na semana seguinte, quando Kathy mandou
uma coruja, avisando que passaria para tomar um chá com Victoria. Severo tratou
rapidamente de arrumar algo fora para fazer, e as duas moças se encontraram a
sós.
Kathry reparou:
- Seu
marido não fica muito em casa, não é?
Victoria
ficou vermelha e resolveu ser diplomática:
- Ele
quis nos deixar desfrutar de privacidade.
- E
isso é muito oportuno – disse Kathy, de maneira grave
– Eu queria falar com você e é um assunto sério.
-
Aconteceu alguma coisa?
- É o
que eu quero saber, minha amiga. No outro dia, as garotas estavam rindo, mas eu
senti que você pode estar com problemas, Vic,
problemas do tipo conjugais.
- Eu?
– Victoria estava vermelha feito um pimentão – Mas... de onde você tirou essa
idéia.
- Você
disse que sexo não era interessante. Isso diz uma tonelada de coisas.
- Só
porque não dou importância a sexo, isso não quer dizer...
- Vic, você tem 18 anos, é bonita, jovem e atraente. Você
deveria estar explodindo em sexualidade.
-
Sinceramente, sexo não é tudo o que dizem. Não sei por que tanta polêmica.
- Eu
sei que você não se casou por amor, mas você parece ter uma boa relação com seu
marido. Por que esse descaso com sexo?
- Como
eu disse, não sei por que tanta polêmica. Sexo não é lá essas coisas.
- Vic, você não está feliz. Eu conheço você e sei que não
está feliz.
-
Olhe, posso não estar explodindo de felicidade, mas estou contente com outras
coisas no meu casamento. Severo pode parecer um homem ríspido, mas na
intimidade ele é bem gentil comigo, compreensivo e cortês.
- Pelo
amor de Merlim, Vic, você
parece estar falando de um velho amigo, não de seu marido.
- E
não podemos ser bons amigos?
- Não
é disso que estou falando, e você sabe. Estou falando de paixão, de
arrebatamento, de prazer!
Victoria
sentiu uma angústia no peito e disse, com sinceridade:
-
Olhe, Kathy, agradeço sua preocupação, mas o fato é
que ele não me ama. Ele me trata com respeito, cortesia e até alguma dedicação
– lágrimas vieram a seus olhos –, mas o casamento foi imposto a ele também.
Kathy olhou para
ele admirada:
- Oh, Vic, você gosta dele e nem sabe!
- Como
assim, não sei? Eu nem sei direito o que é isso que estou sentindo por ele.
- Oh,
minha amiga.
Ela
enxugou as lágrimas e disse:
- Ele
me surpreendeu, sim. Todo mundo tem a imagem de Severo como um homem
irritadiço, mal-humorado e injusto. Ele nunca foi assim comigo. Não gosto que
falem mal dele.
Kathy riu-se,
dizendo:
- Por Merlin, Vic, você está ouvindo o
que você mesma está dizendo? Você ama esse homem!
Pela
primeira vez, Victoria se deu conta de que isso era verdade. Se fosse honesta
consigo mesma, sabia que a amiga estava certa. Aos poucos, Snape
a envolvera com respeito e dedicação, e até um pouco de carinho – do jeito
dele. Ela tinha se apaixonado por ele.
Mas
Victoria deu de ombros:
- De
que adianta? Ele não me ama – aquilo doeu de ser dito.
-
Querida, ele a trata como uma esposa respeitada. É o que ele pode fazer.
- Não.
Ele me acha repulsiva. Evita me tocar. Por isso o sexo não é lá essas coisas.
Eu não o atraio sexualmente.
As
lágrimas voltaram sem Victoria percebeu. Kathy
carinhosamente amparou as lágrimas com os dedos e disse:
- Ah,
minha amiga, então você pode estar com um problema.
- Não
há problema – ela enxugou o resto das lágrimas – Problema nenhum. Isso é comum
em casamentos arranjados. Eu vou sobreviver.
- Sim,
talvez sobreviva, mas seu problema existe de verdade, e tem um nome. E o nome é
Blaise Zabini.
- Blaise? O que ele tem a ver com isso?
- Ele
tem dito a quem quiser ouvir que está a fim de você, Victoria. Ele quer se
tornar seu amante, fazer com que você traia seu marido!
- Isso
é absurdo! Blaise não faria isso.
- Será
mesmo? Sabe, ele nunca se conformou com seu casamento.
- Mas
ele é meu amigo. Vai respeitar meu casamento.
- Vai
mesmo? Eu tenho minhas dúvidas. Veja bem: você ama e não é correspondida, tem
uma vida sexual insatisfatória. Se um homem como Blaise,
que é jovem, apaixonado, e até um amante razoável, fizer você se sentir feliz,
não acha que é uma tentação grande demais? Seu casamento pode estar em jogo.
- Eu
jamais faria isso com Severo. Nem comigo mesma.
- Isso
você diz agora. Mas se você experimentar a paixão e cair nessa armadilha, você
pode se complicar, Victoria.
-
Tenho certeza que não caio em armadilha nenhuma.
Kathy lembrou:
- Blaise é bem persistente, e pode ser encantador quando
quer. Está com idéia fixa. E você já gostou dele, se é que ainda não
gosta.Victoria, tome cuidado.
- Não
há perigo, posso garantir. O que eu sentia por Blaise
foi coisa de menina. Agora tenho responsabilidades como esposa.
Kathy olhou
longamente para a amiga e deu uma risadinha. Victoria ergueu uma sobrancelha,
intrigada:
- O
que foi?
- Acho
que vou lhe mandar um presente de verão.
-
Presente?
- Para
melhorar sua vida sexual.
- Kathy, eu já disse: não vou discutir minha vida sexual com
você. Espero que compreenda que o que dissemos não pode ser repetido fora
daqui.
- É
claro, não se preocupe. Mas fique alerta. Blaise está
se preparando para dar o bote. Ele vai atacar na primeira oportunidade.
- Pode
deixar. Eu estarei atenta.
Na
semana seguinte, Victoria começou a se ocupar com a preparação para encarar uma
sala de aula cheia de bruxinhos e bruxinhas, bem como
a sua exposição, que estava chegando perto. Ela tinha que escolher os quadros e
prepará-los para o local da exposição, além de, claro, preparar-se para a festa
de inauguração, a esperada vernissage. Como toda boa sonserina,
ela sabia do valor das relações e laços de sociedade. Ao fazer sua lista de
convidados, ela escolheu as famílias da melhor estirpe da comunidade bruxa.
Quando
a data da exposição foi marcada para meados de setembro, Victoria teve uma má
notícia.
- Eu
estarei em Hogwarts – anunciou Severo – Você sabe.
A moça
disse, com sinceridade:
- É
uma pena. Sua presença significaria muito para mim. Será que você não pode dar
uma fugidinha à noite só para a vernissage?
-
Levarei o caso diretamente a Alvo. Mas não posso prometer coisa alguma.
- Sei
que vai tentar e agradeço. Ficarei feliz se você puder vir.
- Ah,
esse pacote chegou ainda há pouco para você. Duas corujas o trouxeram.
- É
grande. Talvez sejam os convites da exposição. O Sr. Fiefenbach
ficou de mandar para que eu pudesse endereçá-los.
- Não,
acredito que seja um livro. Veio de sua amiga Kathy.
- É
melhor abri-lo no ateliê. Agora quero desfrutar um pouco mais do fim de tarde.
Eu já lhe disse que esse coreto é o meu lugar preferido de toda a casa?
- Sim,
e você tem bom gosto. Ele é fresco no verão. Mas no outono é muito frio, pois o
vento não tem barreiras naturais.
-
Então vamos aproveitar o verão enquanto podemos.
Quando
a noite se punha, Victoria subiu a seu ateliê e lá abriu o livro de Kathy. Qual não foi sua surpresa ao ter diante de si um
volume da versão extensa de O Kama Sutra Bruxo – Magias a Dois
na Cama. Enrubescida até a raiz dos cabelos, ela pôs-se a folhear as
páginas, arregalando os olhos diante das figuras, esfogueada ao imaginar-se com
Severo naquele jeito amoroso, gentil e carinhoso.
Victoria
ficou dividida diante do livro. Secretamente, ela o lia com sofreguidão,
aprendendo tudo o que jamais tivera na sua vida sexual. Ela sentia agora que
sexo podia ser um banquete e tudo o que ela conhecia tinha sido uma ração à base
de pão e água.
Ela
não tinha dúvidas de que Kathy tinha tido as melhores
intenções ao lhe enviar o livro. Contudo, de que adiantava todo o deseja e
atração que sentia por Severo se ele não sentia o mesmo?
As
sessões semanais de sexo se tornaram duplamente doloridas. Não fisicamente,
claro. Mas agora Victoria sabia que sexo podia ser mais do que aquilo, e sabia
também que ela jamais teria mais do que isso de Severo. Quem sabe se ela
engravidasse logo, ela não poderia desfrutar de maior carinho de seu marido,
quando ela lhe desse um filho?
O fato
é que, durante o sexo, ela via as imagens do livro desfilando em sua cabeça.
Uma vez ela chegou a gemer, como se estivesse tendo um pouco de prazer, mas
Severo se desculpou e disse que teria mais cuidado.
À
medida que sua insatisfação sexual crescia, ela via o verão passando e seu
tempo ficando escasso. Na verdade, antes que percebesse, havia chegado a hora
de Severo voltar para Hogwarts e ela de começar na
escolinha. Victoria achou que fosse ficar solitária naquela casa, mas a
exposição estava em cima do laço, e ela nem tinha tempo de sentir solidão. Era
grande a correria para enviar convites da vernissage, ajeitar sua roupa nova
com Madame Malkin e ainda cuidar de detalhes de
última hora.
Quando
o dia da inauguração chegou, ela já estava praticamente acostumada à nova vida
de professora. As crianças gostavam dela, e ela logo se acostumou a elas. Mas
ela estava ficando nervosa com a abertura da exposição. Ela se vestiu de
maneira elegante e discreta, e Blinky a encheu de
elogios. Preferiu chegar cedo à galeria, usando a rede de flu.
Cumprimentou os demais colegas que estavam expondo e logo começaram a chegar os
connoisseurs de arte, críticos e outros artistas, bem
como amigos e conhecidos, todos bebericando suas
bebidas em volta dos quadros e esculturas, discutindo conceitos de arte com
referências que iam do impressionismo trouxa ao pós-modernismo bruxo.
Victoria
preferiu circular entre os leigos e convidados sonserinos
de famílias tradicionais. Os Malfoy estavam lá (ao
menos os que não estavam em Azkaban), entre outros
bruxos de grande estirpe. Sozinha, sem Severo a seu lado, Victoria se sentiu um
pouco exposta, e disse aos que perguntavam que as responsabilidades de seu
marido o impediram de estar junto com ela nesse grande dia.
Logo
no começo da festa, ela viu as amigas Jenny e Kathy, e Angela chegou depois.
Outros ex-colegas de Hogwarts também estavam lá.
Todos notavam que Draco e Pansy
eram um casal, embora até o momento nada formal tivesse sido anunciado a
respeito de casamento. Blaise Zabini
também foi cumprimentá-la, levando-lhe uma rosa e uma taça de champanhe – que
ela recusou, pois estava tão nervosa que não queria se arriscar com álcool.
-
Vamos, isso vai ajudá-la a relaxar – garantiu Blaise.
- Eu
acho até que vou passar mal, Blaise – confessou –
Sério, é melhor eu não tomar nada além de suco de tomate.
- Que
pena. A vida fica borbulhante com champanhe, Vic, e
você está com cara de quem poderia usar algumas bolhinhas
a mais na sua vida.
- Como
assim?
Eles
conversavam num canto afastado do burburinho dos artistas e convidados, em
frente às lareiras onde bruxas e bruxos em roupas elegantes continuavam
chegando.
- Ora,
parece que o nosso Mestre de Poções não aprecia o talento artístico de sua
esposa.
- Isso
não é verdade. Ele me incentivou muito a pintar.
- Será
que ele não está se sentindo sufocado por seu brilho? – indagou Blaise, chegando perto dela – Você é uma artista, Vic querida. Precisa de alguém que entenda sua alma
sensível.
Victoria
sorriu, marota:
- Por
acaso está se candidatando a essa vaga, Blaise?
O
jovem sonserino armou seu sorriso mais encantador:
- Se
você me der uma chance, querida, eu aceito o trabalho com muito prazer.
A moça
riu ainda mais alto:
- Sabe
que alguém chegou a aventar a possibilidade de que você viesse me abordar com
essa idéia?
- Oh,
um aliado desconhecido – ele se aproximou ainda mais, os lábios brincando na
borda da taça de champanhe – O que você achou da minha idéia?
-
Sinceramente, eu não pensei que você tivesse coragem de me fazer uma proposta
dessas.
Insinuante,
Blaise tocou os cabelos escovados de Victoria com a
ponta dos dedos, soltando mais um sorriso insinuante:
- Oh,
mas eu tenho mais coragem do que você imagina. Posso ir bem mais longe, também.
Experimente.
Um
barulho nas lareiras onde as pessoas chegavam via flu
quebrou o clima de sedução entre os dois. Victoria se recompôs, dando dois
passos para trás, afastando-se de Blaise:
- Blaise, não sei de onde tirou essas idéias, mas eu sou uma
mulher casada.
- O
que não é exatamente um empecilho.
- Blaise, por favor...
Ele
ergueu as mãos, num sinal de rendição:
-
Olhe, Vic, querida, em respeito às nossas memórias de
escola, vou respeitar seu desejo – por enquanto. Mas eu não vou deixar uma alma
sensível como a sua ser esmagada por um homem cruel e insensível com quem você
só se casou por obrigação.
"Droga", pensou ela. "Kathy tinha mesmo razão: ele é bom nisso".
- Se
você me der licença – pediu Victoria –, preciso dar atenção a alguns dos
recém-chegados.
Com
aquela desculpa diplomática, Victoria deixou Blaise bebericando sua taça de champanhe, os olhos dele a
acompanhando pela galeria como se estudasse um novo ângulo de ataque – como um
bom sonserino.
Absortos
no diálogo intenso e na profundidade de emoções trocadas, nem Blaise nem Victoria perceberam que estavam sendo observados
por uma figura vestida inteiramente de preto do outro lado do salão, recém-saída
da lareira. Pensando em fazer uma surpresa a sua esposa, Severo Snape tinha deixado Hogwarts logo
depois do jantar e rumara para a galeria de arte bruxa.
Contudo,
o feitiço literalmente se voltara contra o feiticeiro quando ele deu de cara
com sua mulher rindo e bebendo com um ex-colega de escola numa atitude
abertamente convidativa ao flerte. Toda a expectativa que tivera de fazer uma
surpresa a Victoria se dissolvera ao vê-la aos risos com Blaise
Zabini. Severo não ignorava que os dois tiveram um
namorico antes do casamento, e imaginou que talvez os sentimentos entre os dois
não tivessem sido esquecidos.
Mais
ainda, imaginou que a situação toda pudesse ter sido planejada. Afinal de
contas, Victoria sabia que o marido não poderia comparecer à vernissage, então
os dois poderiam ter combinado de se encontrar sem medo.
Aquilo
esmagara as poucas esperanças que ele nutria de tentar conquistar sua esposa.
Severo estava ferido, e seu coração sangrava de tanto amor por Victoria, amor
esse que ele não demonstrava temendo a rejeição e a repulsa de sua mulher. Mas
naquele momento em que ele via diante dos próprios olhos que ela buscava estabelecer
uma ligação adúltera, as esperanças ruíram cruelmente.
Mortalmente
ferido, cego de ciúme, Snape deu meia-volta e usou a
rede de flu para voltar à mansão. Decidiu esperar
Victoria para que ambos pudessem definir o que restava do casamento. Ao sair de
maneira intempestiva, ele não testemunhara a rejeição de Victoria às investidas
de Zabini. Magoado, Snape
saíra carregando toda a dor e ira.
Ignorando
o que se passava no outro lado da sala, Victoria passou as próximas duas horas
concentrada no seu papel de artista iniciante, tentando esquecer o incidente
com Blaise, que a deixara incomodada. Contudo, quando
a festa se encaminhava para o final, Blaise voltou à
carga:
- Indo
embora, Victoria?
- Sim,
eu estava terminando alguns assuntos com o Sr. Fiefenbach.
-
Deixe-me acompanhá-la até sua casa.
- Oh,
isso não será necessário, obrigada.
- Por
favor, eu insisto.
- Blaise, eu não acho que isso seja apropriado. Severo não
está em casa, e eu realmente acho que não –
-
Tolice. Eu não seria um cavalheiro se deixasse uma moça respeitável voltar
sozinha para casa a essa hora da noite. Já pegou seu casaco? Então vamos.
Antes
que Victoria pudesse protestar, ele já a tinha levado até a lareira, pego um
punhado de pó de flu e gritado:
-
Mansão Snape!
Assim
que colocou o pé para fora da lareira, dentro de sua casa, Victoria virou-se e
disse:
- Blaise, você foi muito gentil, mas agora eu –
- Mas
para que tanta pressa, Vic querida? Quem sabe se
agora você aceita aquela taça de champanhe?
- Blaise, eu já disse que isso não é apropriado.
- Ora
vamos, Vic – ele começou a abraçá-la – Eu sei que
você quer dizer sim.
- Não,
Blaise, por favor – ela tentou se desvencilhar dele –
É melhor você ir embora.
- Você
não quer que eu vá, eu sei que não.
- Blaise, por favor. Eu sou uma mulher casada.
Uma
voz diferente, profunda e enganosamente controlada, disse, vindo da parte
escura da sala:
-
Aconselho-o a obedecer a minha esposa – agora.
Os
dois deram um pulo. O jovem Zabini ficou lívido:
- P-Prof. Snape!... Eu não sabia
que estava aí!
A voz
do Mestre de Poções soou como um pouco mais do que um rosnado:
-
Obviamente não, ou o senhor não estaria molestando minha esposa.
Victoria
estava pálida, e Blaise se afastou dela:
- O
senhor não entendeu, professor, eu jamais –
- Eu
vi com meus próprios olhos, Sr. Zabini – Snape caminhou tão suavemente até ele que parecia deslizar
no chão – Eu exijo que o senhor se ponha para fora da minha casa nesse exato
minuto antes que eu lance uma azaração que o deixará
impotente pelos próximos 200 anos.
Blaise engoliu em
seco e com uma voz estrangulada, disse:
- Mas
professor...
Ameaçadoramente,
Snape avançou contra ele com um brilho homicida nos
olhos:
- Eu
disse agora. E o senhor não vai
gostar se eu tiver que me repetir.
Em
segundos, Blaise se colocou dentro da lareira e sumiu
numa nuvem de pó de flu. Victoria jamais tinha visto
seu marido tão alterado e não pôde evitar pensar que uma tragédia tinha acabado
de ser evitada.
Ou
não.
O que
Victoria não sabia era que, desde que voltara da galeria, Snape
a tinha esperado na sala de estar, acompanhado por generosas doses de uísque de
fogo. Procurando evidências de que a traição pudesse ser de longa data, ele
fizera o impensável: invadira o ateliê de Victoria e lá encontrou, escondido
tal uma obra clandestina, o livro que segundo ele evidenciava o desejo de
Victoria em levar adiante o adultério. O Kama Sutra falava por si só das intenções de
Victoria. E isso só adicionara mais ingredientes à fervura de ódio e dor que
borbulhavam dentro de Severo.
Na
verdade, toda a raiva e dor estavam paulatinamente borbulhando como um
caldeirão em fogo baixo. Quando ele vira Victoria entrar dentro de sua própria
casa acompanhada por seu presumível futuro amante, a mistura chegara ao ponto
de ebulição.
Sem
sequer deixar Victoria se recuperar do susto, ele voltou os olhos faiscantes
para ela e disse:
-
Durante todo o tempo deste casamento, eu respeitei seus sentimentos e a tratei
como uma dama. Contudo, diante dos acontecimentos desta noite, eu estou
reivindicando integralmente os meus direitos de marido. Eu não serei negado
essa noite. E não importa que não seja sexta-feira. Hoje estaremos pondo em
prática as sugestões daquele pequeno livro que eu encontrei no seu ateliê e que
você certamente pratica bastante com seu catamito.
Victoria
perdeu toda a cor – ele tinha achado o Kama Sutra e agora acreditava que ela tinha um caso com Blaise!
Mas
antes que ela pudesse abrir a boca, Snape agiu. Num
movimento rápido, ele agarrou as pernas dela e a atravessou nos ombros,
fazendo-a soltar um grito.
- Oh!
- E
não quero ouvir nenhuma palavra. Eu não vou ser negado!
Com
ela segura nos ombros, quase de cabeça para baixo, Snape
começou a subir as escadas rumo à ala leste. De sua posição precária, Victoria
sentiu que o marido não estava com humor nem disposição para conversar sobre o
assunto, e só sentiu o terror aumentar ao ser levada para o quarto de dormir.
Com firmeza, mas sem violência, ela foi depositava junto à cama, e ao se ver
novamente de pé, notou que suas pernas estavam trêmulas.
Snape a encarou e ela
se sentiu acuada, indefesa – e excitada. Ele nunca tinha olhado para ela com
tanta fome, com tanto desejo. Victoria estremeceu levemente ao ver o fogo que
queimava os olhos negros a encará-la, e ele se aproximava sem tirar os olhos
dela.
Com um
movimento ágil e firme, Snape a enlaçou pela cintura,
puxou-a para junto de si e fez uma coisa que nunca tinha feito: ele a beijou.
Mas não foi um beijo qualquer.Victoria jamais tinha experimentado algo tão
intenso, tão delirante e hilariante. Os lábios dele ardiam contra os seus,
despertando sensações em variadas zonas de seu corpo, roubando-lhe o fôlego,
provocando ondas de desejo. A sensação do corpo dele sobre o dela era
implacável, e Victoria sentiu-se derreter um pouco no fogo que parecia emanar
de Severo.
A proximidade
dos dois corpos intoxicava Victoria, e ela mal sentiu quando, sem que seus
lábios se desgrudassem, dedos ágeis começaram a retirar suas roupas. Ela ainda
estava inebriada com a sensação de um corpo que procurava o seu para saciar uma
estranha fome que rapidamente se tornava mútua. Pois Victoria não só
correspondia ao beijo como puxava-o para junto de si, tão faminta quando ele.
Ela
não sentiu em que ponto os dois terminaram entrelaçados e nus na cama, mas
sentiu o corpo dele explorando o seu, seja retirando o resto das roupas, seja
acariciando sua pele nua, provocando uma gama de sensações inéditas. Ela sentiu
os lábios dele passeando por todo seu pescoço, provocando repercussões em suas
partes mais íntimas.
Em
seguida, os lábios desceram para os ombros, e depois mais para baixo, para os
seios. Victoria jamais pensou que tivesse mamilos tão sensíveis. Quando Severo
começou a beijá-los, ela prendeu a respiração e jogou a cabeça para trás,
oferecendo o peito para o deleite de seu marido. E ele não se furtou a
deleitar-se: lambendo-os, beijando-os, mordicando-os, alternando sensações que
Victoria achou que não seria capaz de suportar.
Depois
os lábios foram para ainda mais baixo: sua barriga, que foi lambida à exaustão,
bem como seu umbigo. Victoria sentiu os tremores que invadiam sua carne e não
pôde escondê-los de seu marido. A barriga tremia e ela acariciou a cabeça que
estava na altura de seu estômago, sentindo a maciez de seus cabelos. Foi a essa
altura que ela sentiu que seus sentidos estavam hiper-ativos: ela sentia os
cabelos deles com tanta intensidade na ponta de seus dedos que não notou a
língua dele se movimentando novamente.
Dessa
vez, Snape desceu direto para o centro da sua
feminilidade, usando os lábios de uma maneira tão profunda que Victoria gritou,
ao sentir todas as sensações de sue corpo convergindo para aquele ponto
nevrálgico entre suas pernas. Seu corpo todo arqueou para trás, especialmente
quando seu marido pôs-se a mordiscar e pressionar um pequeno botão naquela
região, um botãozinho ao qual Victoria jamais
prestara atenção dentro de seu corpo, mas que naquele momento provocava uma
explosão de sensações em todos os lugares, que só aumentou, aumentou, aumentou
como um trem descontrolado e ela não queria que ele parasse, pois aquilo era
muito bom, era ótimo, e de repente ela estava gemendo e não podia parar, mas
tudo foi ficando tão intenso e tão extraordinariamente bom que ela sentiu que
não iria agüentar mais e foi então que aconteceu.
-
OHHHHHHHH!
O
corpo dela ficou todo rígido, mas ela sentiu como se ele estivesse se
liquefazendo de dentro para fora, e Victoria pareceu desmaiar um breve
instante. Mas não houve tempo para isso. Naquele breve instante, em que o corpo
dela parecia ser feito de borracha, Severo agilmente deitou-se por cima dela e
penetrou-a vigorosamente, e Victoria sentiu-se mais do que preenchida – ela se
viu conquistada, subjugada e totalmente ansiosa por tê-lo dentro de si. Desta
vez, ele não economizou toques nem carinho. Enquanto ele a possuía de maneira
intensa e apaixonada, ele a beijava e a acariciava, e ela o puxava para dentro
de si, mexendo-se no mesmo ritmo que ele, participando de tudo, sentindo uma
união mais profunda entre os dois. E mais uma vez aquela sensação de trem
descontrolado voltou a crescer dentro dela, mas dessa vez ela não tinha forças
para se controlar, e gritou de prazer.
Snape ofegava, sua
voz ainda mais rouca a sussurrar:
-
Minha... Finalmente minha!...
Victoria
cruzou as pernas às costas dele enlaçando os calcanhares, como se o abraçasse também
com as pernas, inebriada de paixão. Snape também
estava incontrolável e com um gemido rouco, chegou ao máximo de desejo.
Despejou sua semente em Victoria, que estava a um passo de também chegar ao
orgasmo.
Depois
de explodir de prazer pela segunda vez, gritando o nome dele, Victoria
efetivamente apagou. Sem forças para mais nada, o corpo parecendo feito de
borracha e sem ossos, ela se agarrou a Snape e
deixou-se adormecer nos braços de seu marido, sentindo-se, pela primeira vez na
vida, amada.
***
Ao
despertar Victoria manteve os olhos fechados, imóvel por um segundo,
desfrutando das sensações que seu corpo lhe proporcionava. Depois se
espreguiçou lentamente, sentindo partes do seu corpo doendo e lembrando-se do
exercício que tinha feito para que elas amanhecessem doloridas. Um sorriso sem
precedentes abriu-se em seu rosto. Aquelas dores eram as mais maravilhosas do
mundo, decidiu. Acordar dolorida depois de uma noite de sexo incrível era
simplesmente a melhor coisa do mundo.
Ela
rolou para o lado na cama, e preguiçosamente abriu um olho. O que ela queria
ver era o rosto de seu marido, agora transformado em seu amante. Pela primeira
vez, ela tinha feito amor, e não poderia estar mais feliz.
Mas a
cama estava vazia, exceto por um pedaço de papel no travesseiro de Severo, e o
nome dela estava escrito no papel.
Victoria
sorriu. Sentou-se na cama e pôs-se a ler o bilhete, as letrinhas miúdas
denunciando que ele tinha escrito aquilo apressadamente.
"Victoria,
Não
sei se algum dia você poderá me perdoar pela agressão a que eu a submeti, e em
minha defesa posso apenas dizer que o álcool me levou a tomar atitudes que sei
serem impróprias. Por isso eu decidir remover minha presença dessa casa para
não lhe causar mais sofrimento. Mudei-me permanentemente para Hogwarts.
Para
não quebrar o contrato de casamento e prejudicá-la ainda mais pela insânia que
eu cometi, acredito que prefira esperar até seu aniversário de 19 anos para
pedir o divórcio. Eu o concederei sem contestação. Para cuidar das despesas de
manutenção da casa e de suas despesas pessoais, eu lhe mandarei uma generosa
mesada. Se necessário, Blinky poderá lidar com todo o
contato comigo, para não ter que me encarar novamente.
Sem
mais,
Severo
Snape"
-
NÃÃÃO!
Victoria
pulou da cama, com o coração acelerado, e então se deu conta de que estava
inteiramente nua. Abriu o closet e teve um choque: todas as roupas de Severo
tinham sido removidas. Ele tinha se mudado!
Ainda
mais apressada, Victoria enfiou o primeiro vestido que sua mão pôde alcançar e
arrumou o cabelo magicamente, já sabendo que não iria trabalhar. Ela tinha que
detê-lo antes que fosse tarde demais!
Desceu
as escadas apressadamente, suas capas esvoaçando dramaticamente pela escadaria,
enquanto ela gritava:
- Blinky! Blinky!
O elfo apareceu no pé da escada, de olhos arregalados:
- O
que houve, Madame Snape?
-
Preciso que vá até a escolinha e avise que não vou trabalhar hoje. Surgiu um
imprevisto muito sério. Avise que Mestre Snape teve
uma crise e eu vou cuidar dele em Hogwarts.
O elfo se agitou todo:
- Não
se preocupe, Madame Snape! Blinky
avisa! Mestre Snape não parecia bem quando saiu hoje
de madrugada.
- Não
me espere para o almoço. Vou tentar trazer Mestre Snape
para o jantar.
- Sim,
madame. Blinky deseja melhoras de Mestre Snape.
Victoria
se posicionou na lareira e garantiu:
- Não
se preocupe, Blinky. Vou cuidar dele direitinho – ela
pegou um punhado de pó de flu – Masmorra de Hogwarts!
Assim
que ela botou o pé para fora da lareira, nas conhecidas masmorras, tentou se
controlar, pois estava tremendo de ódio e indignação. Descontrolada, ela não
serviria para nada.
Sabia
que Severo deveria estar em aula, portanto, ela não teve dúvida: foi direto à
porta da sala de aula e bateu. Ele mesmo veio atender e ao vê-la, ergueu uma
sobrancelha. Parecia ter passado a noite em claro, e mais: a presença dela em Hogwarts obviamente o surpreendeu.
Victoria
rapidamente disse, em tom neutro:
-
Professor, podemos discutir um assunto urgente?
- Como
pode ver, estou no meio de uma aula – os alunos começaram a cochichar – Não
pode ser no fim do expediente?
-
Inaceitável. Como eu disse, o assunto é urgente – insistiu ela – Eu o estarei
esperando ao final dessa aula em seus aposentos. Por favor, não se atrase.
Deu as
costas e foi para o aposento. Ao chegar lá, viu que ele já tinha começado a
desfazer algumas das malas. E eram muitas. Afinal, ele realmente tinha trazido
todas as suas coisas. Mais uma vez Victoria tentou se controlar, e começou a
refazer as malas, colocando as coisas dele dentro da bagagem.
Minutos
depois, ela ainda estava fazendo as malas quando Snape
entrou nos aposentos. Ele disse:
-
Quando saí da mansão, eu esperava justamente evitar uma cena.
Sem
parar o que fazia, ela respondeu:
- Deu
para notar.
- O
que está fazendo?
- Suas
malas. Seu lugar é na mansão, ao lado de sua esposa, Severo.
- Mas
eu...
Victoria
não o deixou completar, parando de empacotar e virando-se para ele:
- O
que é que você está pensando? Como ousa tentar sair da minha vida, me abandonar
desse jeito?! Você acende minha vida, dá um sentido para ela e depois decide ir
embora? Depois do que você fez, você acha que pode simplesmente me descartar?
Se pensa que vou aceitar isso passivamente, Severo Snape,
é bom pensar duas vezes!
Severo
pareceu genuinamente surpreso com a reação dela e franziu o cenho:
- Mas
eu... O que eu fiz... foi...
Victoria
chegou perto dele e sorriu:
- O
que você fez foi tudo que eu precisava em minha vida para ser uma esposa feliz
e satisfeita. Você ficou chateado com aquele livro, mas eu só li aquele livro
pensando em você, não em algum amante que não existe. Era para você, Severo,
que eu queria ser uma esposa melhor. Sempre achei que você me achasse
repugnante, mas ontem você mostrou que sente alguma coisa por mim. Estou certa?
-
Certamente – Ele ainda parecia chocado. – Mas... então devo entender que fui
perdoado?
- Não,
não foi perdoado porque não cometeu nenhum crime. Não sei porque você achou que
tinha feito uma coisa errada. Mas se tentar me abandonar de novo, eu juro que
vou fazer de sua vida um inferno. Palavra de sonserina.
- Está
falando sério?
-
Mortalmente sério. Severo, eu amo você e isso não é brincadeira. Há tempos eu
amo você e ontem você deu um novo sentido à minha vida. Por isso, eu tomei
algumas decisões.
-
Decisões?
- Isso
mesmo. Uma delas é continuar nesse casamento a minha vida toda, e esquecer o
contrato. Eu quero que seja para sempre, Severo, enquanto você me quiser.
- Tem
certeza? Você quer continuar um casamento para sempre com um Mestre de Poções
velho e mal-humorado como eu quando pode se livrar de mim em questão de alguns
meses?
- Está
se esquecendo de que vamos ter um herdeiro para criar?
Ele
arregalou os olhos:
- Está
querendo me dizer alguma coisa?
-
Estou querendo comunicar uma outra decisão que tomei. Temos que providenciar um
herdeiro o quanto antes. A primeira coisa a fazer é para de tomar aquela poção
contra gravidez.
Os
dois trocaram olhares, e só naquele momento Severo sentiu que Victoria falava
sério. O impossível tinha acontecido: ela estava apaixonada por ele. Um calor
agradável aqueceu-o por dentro, um calor que varreu o frio da solidão que
habitava o coração do Mestre de Poções.
- Sabe
– ele deu um daqueles meio-sorrisos que só ele sabia dar –, para produzir um
herdeiro vamos ter que rever o nosso compromisso de sexo semanal.
Victoria
sorriu:
-
Engraçado. Eu estava pensando a mesma coisa. Esses horários precisam ser
revistos com urgência.
-
Alguma sugestão?
Ela
colocou as duas mãos no peito dele e quis saber, sugestiva:
- Você
tem aula agora?
-
Lula-lufa e Corvinal, primeiro ano.
Victoria
deu um sorriso maroto:
- Eu tenho
a impressão de que essa aula de Poções vai começar atrasada hoje.
Snape a enlaçou
pela cintura e sussurrou no ouvido:
-
Interessante, pois estou com a mesma impressão. Mas acho que vou ter que usar
um feitiço silenciador, porque eu pretendo fazer coisas com você que a farão
gritar de prazer.
- Como
as que você fez ontem?
-
Algumas, talvez. Você trouxe o livro?
- Você
não precisa de livro nenhum, Severo.
- Ora,
isso é muito galanteador.
-
Estou dizendo a verdade. Basta você usar aquela manobra.
-
Manobra?
-
Aquela coisa que você fez com a língua... bem, você sabe. Adorei essa manobra.
- Acho
que vou dar um nome a essa manobra.
- A
Manobra Snape?
- Não.
A Manobra Zabini.
- Acha
que é apropriado?
- Mais
de que apropriado. Afinal, se não fossem os avanços do Sr. Zabini,
eu jamais teria tomado aquela atitude.
-
Nossa. Eu devo a Blaise mais do que ele imagina. Ele
salvou meu casamento.
-
Vamos ver se continuamos de onde paramos ontem – ele sussurrou direto no ouvido
dela, a voz mais sensual do que nunca – Pronta para gritar, Madame Snape?
Victoria
sentiu seus olhos brilharem e provocou:
-
Promessas, promessas...
-
Então vamos tratar de cumpri-las.
Snape puxou-a
contra si e beijou-a apaixonadamente, e mais uma vez Victoria sentiu-se
inebriada, uma sensação à qual ela queria sentir muitas e muitas vezes mais,
pelo resto de sua vida.
Sem
que seus lábios se separassem, os dois cambalearam até a cama, onde
concretizaram seu amor, agora de maneira completa e sincera, sem fronteiras, sem
limites, sem dúvidas.
Os
dois se amavam, e dali para frente a vida seria diferente, com um casamento
mais do que real.
Seria
um casamento feliz.
FIM