Nome: Nos olhos de quem vê
Autor: Magalud
Pares: Snape/Lily
(não-correspondido), Snape/Granger
Censura: R
Gênero: Angst, Romance
Spoilers: Todos os sete livros,
exceto o epílogo
Avisos ou Alertas: Morte de
personagem secundário
Resumo: A beleza está nos olhos de
quem vê, diz a Bíblia
Agradecimentos: beta Cris!
Disclaimer: Personagens, lugares e
citações pertencem a J.K. Rowling, Scholastic Books, Bloomsbury Publishing,
Editora Rocco ou Warner Bros. Essa estória não possui fins lucrativos.
Nota: Esta fic faz parte do
SnapeFest 2008, uma iniciativa do grupo SnapeFest do Yahoo!grupos
Nos olhos de quem vê
- Vamos ao parquinho?
- Vamos!
Aos 9 anos, Severus correu atrás da
menina de cabelos vermelhos, fascinando. Como ele a amava... O coração batia
mais rápido, ele se esquecia de tudo.
- Vamos no balanço. Eu empurro você.
- Lily... - Ele avisou.
- Já sei: não balançar muito alto.
Foi como se não tivesse dito nada.
Severus estava no balanço, Lily o empurrava.
- Está muito alto!
- Sev, você precisa se arriscar mais.
Quanto mais alto, melhor a sensação!
- Eu vou cair!
Lily soltou uma risada alta.
- Assuma o risco, Sev!
E Sev ia mais alto, mais alto, até que
ele se projetou para fora do balanço, a queda em velocidade lenta, o pavor cada
vez maior, o chão chegando mais e mais perto de seu rosto....
Severus Snape acordou de súbito, o
peito constrito, a respiração curta. O pesadelo figurando Lily o atormentava há
algumas semanas. Ele não entendia direito o motivo daqueles pesadelos
recorrentes. Desde o final da guerra, ele tinha feito suas pazes com a memória
de Lily Evans. Demorara, sim, ele passara décadas preso à lembrança e à culpa,
mas finalmente ele conseguia ver Lily apenas como uma grande amiga e uma das
poucas lembranças agradáveis de sua infância.
Ajudava muito o fato de que Severus
tinha encontrado uma companhia fiel e constante nos últimos tempos, uma pessoa
altamente improvável. Na verdade, se alguém lhe dissesse, alguns anos antes, que
Hermione Granger seria sua visita mais assídua e Harry Potter seria o segundo
mais assíduo, Severus Snape teria gargalhado sonoramente - um fato mais raro que
o nascimento de unicórnios em cativeiro.
A verdade, contudo, era que os dois
haviam se tornado amigos, após uma inusitada aproximação por motivos
profissionais. Hermione tinha virado curadora do Hospital St. Mungo's de
Moléstias Mágicas. O plano inicial de entrar para o treinamento de Aurores e
casar-se com Ronald Weasley em seguida tinha sido tragicamente abortado por Lord
Voldemort, que na Batalha de Hogwarts havia localizado o cabelo vermelho de
Weasley e decidira dar uma lição na matriarca do clã, que o privara de seu
melhor lugar-tenente, Bellatrix Lestrange.
A morte de Ron fora um duro golpe na
moça, Severus pôde notar. Não que ela reclamasse, choramingasse ou se lamentasse
constantemente. Eram pequenas coisas que denunciavam uma imensa tristeza,
geralmente quando os anos antes da guerra eram mencionados. A moça era jovem,
mas nessas horas seus olhos carregavam uma idade só explicada por uma grande
dor. Severus sabia exatamente como ela se sentia.
Primeiro, foi uma admiração
profissional pela moça, de raciocínio rápido e agudo, memória prodigiosa e
entendimento perfeito. Depois foi uma empatia profunda, como duas almas que
sofreram grandes perdas em batalhas, que sabiam o que era uma dor tão grande que
pensavam que se iriam afundar nela. Então, sem que Severus percebesse, tudo
mudou para uma percepção vigorosa da jovem e de seus atributos físicos. Os
dentes eram brancos e perfeitos, os cabelos ganharam alguma poção específica
antivolume, as roupas eram sensatas sem deixar de revelar um corpo incitante, os
olhos grandes eram vivos e brilhantes, fulgurando quando ela descobria algo
novo, uma poção desconhecida, um ingrediente obscuro.
E o sorriso era capaz de iluminar toda
a sala.
Fazia muito, muito tempo que Severus
não sentia aquelas coisas. Na verdade, se fosse sincero, ele não sentia aquilo
desde que tinha 15 anos e uma palavra abjeta e ignóbil saíra de seus lábios em
direção à mulher que amava. Contudo, Severus tinha medo de admitir esses
sentimentos. Até porque ele já conhecia o fim da história. Como antes, ele seria
rejeitado. Afinal de contas, por que diabos uma moça jovem, bonita e brilhante
olharia para um homem com quase 50 anos, de aparência horrorosa, temperamento
mais do que azedo e um passado condenável?
Ele tinha sorte de ter Hermione como
uma amiga e sabia disso.
Portanto, Severus tentava esmagar esses
sentimentos dentro de seu coração. Ele não era digno sequer da amizade da moça,
muito menos de algo mais. Se Hermione desconfiasse que ele tinha esses
sentimentos, ela poderia dar fim à amizade, e aí Severus ficaria exatamente como
previra: rejeitado.
Claro, Severus não tinha a menor idéia
de que Hermione já tinha superado a perda de Ron Weasley e não teria a menor
objeção aos sentimentos de Severus. A princípio, ela tinha apreciado a companhia
de uma pessoa que, ao contrário de todos os anos escolares, não parecia
julgá-la. Por mais que amasse os Weasley, Hermione sentia uma cobrança sutil
entre eles. Era como se a presença dela os lembrasse da ausência de Ron. Por
outro lado, eles cobravam verbalmente que ela reconstruísse a vida. A
contradição embutia um julgamento que a desgastava. Hermione passou a evitar ir
ao Burrow, ou a aparecer apenas quando Harry ia cortejar Ginny, de acordo com a
prática tradicional bruxa.
Severus jamais a pressionava, e
Hermione era imensamente grata por isso. Depois que eles trabalharam as pequenas
diferenças (idade, história de vida, temperamento), a moça se deu conta de que
havia mais em Severus do que o exterior sarcástico e ácido. Após tudo o que ele
passara, não havia pressão entre eles. Ela o admirava porque sabia de tudo que
ele carregava. A história de amor não-correspondido entre Severus e Lily Potter
era a prova de que Severus era não só capaz de amar, como era fiel a esse amor.
Primeiro Hermione ficou imaginando como
seria amar assim. Não que ela não amasse Ron, mas ele tinha morrido, e ela sabia
que iria eventualmente reconstruir sua vida. Mas Severus não tinha feito isso:
ele continuara fiel a Lily, e ainda era fiel a ela, até onde Hermione sabia.
Depois Hermione ficou imaginando como
seria ser o objeto desse amor tão grande e profundo. Como seria ser amada de tal
modo que nem a morte pudesse deter esse amor? Nesse ponto, Hermione ficou com
uma grande inveja da mãe de Harry.
Finalmente, ela se deu conta de que
adoraria poder ser amada assim. Foi quando seus olhos mudaram para Severus Snape.
Foi quando o respeito e a admiração por Severus se tornaram uma atração, uma
atração muito mais profunda e madura do que ela jamais tinha sentido por Ron.
Foi um passo antes de se transformar em
amor.
Ainda que Hermione não tivesse a mínima
idéia de que ele um dia retribuísse esse amor, ela se sentia orgulhosa de ser
considerada uma amiga. Hermione tinha plena consciência de que o homem reservado
era excepcionalmente aberto para ela, mostrando-lhe segredos que a ninguém mais
ele dava autorização. Era um privilégio. Ela tinha o privilégio de ver facetas e
lados de Severus Snape que o mundo jamais veria. Mesmo que nunca tivesse Severus
Snape que ela queria.
o0o o0o o0o o0o o0o
- Bom dia, Severus.
- Bom dia, Hermione. Chá?
- Não, obrigada. Na verdade, tenho
pouco tempo. Essa semana eu volto para a ala dos doentes por danos permanentes
de feitiços. Vai ser um estresse no começo. Gilderoy sempre fica muito agitado.
Demora um tempo até que ele se acalme. Agora que ele deu para pegar os remédios
dos outros, eu tenho que ficar de olho nele o tempo todo.
Hermione viu Severus erguer uma
sobrancelha e pensou nas mudanças de sua vida.
Após a morte de Ron, Hermione desistira
dos planos de entrar para o Esquadrão de Aurores e descobrira que para ser
curadora ela tinha que estudar muito mais, o que era extremamente apelativo. Ela
passou grande parte do seu período de luto enfiada em livros - um conforto
sempre presente em sua breve vida. Livros eram amigos antigos e queridos, eles a
faziam se sentir segura. Curar gente agora parecia fazer muito mais sentido do
que sair correndo atrás de bruxos das Trevas. Ela dissera isso a Harry, e ele
tinha entendido.
Estranhamente, Harry tinha sido um dos
mais compreensivos quando Hermione passou a se tornar figura assídua na loja de
poções de Severus Snape. Ela estudava poções curativas e, simplesmente, não
havia ninguém melhor no assunto em todas as Ilhas Britânicas. Droga,
provavelmente em toda a Europa.
A primeira abordagem não foi dos
melhores. Severus gritou, xingou-a de Sabe-Tudo Insuportável e, sem a menor
cerimônia, correu com ela para fora de sua loja. Hermione ficou tão chocada que
saiu às lágrimas. Claro, ela não sabia que, para Severus, ela era uma Auror com
a missão de colocar uma daquelas correntes mágicas para monitorar os movimentos
mágicos dele.
Pois Severus Snape tinha sido condenado
pelo Wizengamot a três anos de monitoramento constante, pelo assassinato de
Albus Dumbledore. Perdoado por seus crimes anteriores devido à condição de
espião, graças à interferência de Harry Potter, ele não escapara da fúria do
Wizengamot pela morte de Dumbledore. Aquilo tinha sido demais para a corte bruxa
perdoar. A sentença de monitoramento o deixara um tanto quanto irado (para dizer
o mínimo), e naquele dia Hermione tinha sido alvo de sua fúria incontida e
intempestiva.
Desnecessário dizer que no dia seguinte
Harry Potter invadira sua loja, o heróico Gryffindor, para tirar satisfações de
como Severus Snape tinha sido desalmado e fizera sua amiga chorar enquanto ela
ainda não se recuperara da perda do amor de sua vida. Severus nada disse, mas o
olhar de Harry o deu certeza de que ele pouco tinha a falar de amores perdidos
com Severus, que tinha passado sua vida inteira tentando se recuperar da perda
de Lily.
Fosse como fosse, na segunda vez que
Hermione Granger bateu à porta da loja de Severus, a acolhida foi diferente. Um
tanto quanto constrangedor, mas não ríspida. Ela perguntou sobre poções
curativas, ele lembrou algumas lições do sexto e sétimo anos de Hogwarts - então
se deu conta de que Hermione tinha feito o sétimo ano após a derrota de
Voldemort, sob a tutela de Slughorn.
Os próximos encontros foram menos
tensos. Eventualmente, eles foram se tornando até prazerosos. A princípio, eram
estritamente profissionais. Numa ocasião, Hermione entrava quando um Auror saía,
após checar a tal pulseira mágica. Severus estava azedo, amargo e quase
intratável.
- Por favor, Srta. Granger, agora não é
uma boa hora. Podemos retomar isso mais tarde?
Ela não hesitou, num tom irritantemente
animado:
- Claro. Mas acho que um chá cairia
bem, não? Deixe que eu faço.
Severus suspirou:
- Por favor...
- Não, não é incômodo.
- Eu quis dizer...
- Eu sei o que quis dizer. - Ela tentou
manter o ar alegre, mas seus olhos denunciavam a imensa tristeza. A voz,
contudo, não se alterou: - Mas você não deve ficar sozinho agora. Venha. Eu
fecho a loja. Vamos apenas tomar chá.
Ela não falou nem uma palavra sobre o
que acontecera. Severus ficou imensamente grato por aquilo.
Aquilo tinha sido há tantos anos, e
Severus carregaria a cena para sempre dentro de seu coração. Não era sempre que
lhe tinha sido oferecida compaixão, e ele agradecia imensamente o gesto. Mesmo
que nada dissesse. Pois Hermione tinha entendido a mensagem não-dita.
Então, anos mais tarde, quando a moça
entrara no seu laboratório falando sobre Gilderoy Lockhart, Severus continuou
mexendo o caldeirão, comentando:
- Aquele pomposo sempre foi assim,
desde pequeno. Nunca vi uma criança tão voltada para si mesma.
- Você conheceu Gilderoy Lockhart
quando era pequeno?
- Minha mãe tentou uma breve
aproximação com antigos conhecidos do mundo bruxo usando o nome Prince, então
fomos apresentados como companheiros de brinquedo. Eu era muito pequeno na
ocasião, mas minha mãe me disse mais tarde que a Sra. Lockhart achava que todos
os amiguinhos eram inferiores a seu filho tão lindo, o pequeno Gil, como ela
chamava. Então, foi uma amizade que pouco durou.
- Acho que foi para melhor.
- Por que diz isso?
- Bem, eu posso estar enganada, mas, na
remota hipótese de que você tivesse se tornado amigo do pequeno Gil,
dificilmente você teria conseguido ser amigo de Lily. Sinceramente, pelo que eu
conheço de Gilderoy e pelo que ouço falar de Lily Evans, acho que você levou a
melhor na troca, Severus.
Ele evitou encará-la, ainda mexendo o
caldeirão.
- Lily... não tem mais o mesmo
significado para mim. O fim da guerra foi uma mudança... - ele fez uma pausa,
continuando após alguns segundos: - Parece que foi numa outra vida.
Com o coração batendo mais forte,
Hermione encostou a mão suavemente nele, comentando, em voz baixa:
- Na verdade, foi mesmo.
Teria ela alguma chance?
o0o o0o o0o o0o o0o
Severus ainda não tinha completado 10
anos de idade, mas já começara a sonhar com Lily. Então, sonhar com ela não era
novidade. Nos últimos tempos, porém, os sonhos estavam mudando, mudando para um
tom específico. Os temas dos últimos sonhos com Lily eram sempre sobre vôo,
riscos, e outras situações nas quais a moça incentivava Severus a engajar em
atividades perigosas.
Por menos que fosse entusiasta de
Adivinhação ou entendesse de simbolismos, Severus não conseguia deixar de
perceber a mensagem desses sonhos: Lily o convidava a seguir adiante com sua
vida, a arriscar o novo. Mas como fazer isso?, perguntava-se ele. Só o que ele
tinha era seu passado, suas lembranças. Por que Lily iria querer algo assim?
Ele ralhou consigo mesmo por se recusar
a encarar o sonho pelo que ele era. Era seu subconsciente, chamado-o para uma
atitude mais saudável com sua vida. E ele estava terrificado de seguir o
conselho.
Especialmente porque ele gostaria de
ter uma chance com a Curadora Granger. A perspectiva de perder a chance o
deixava mais nervoso do que ter que reviver cada um dos Marotos e sofrer seus
tormentos, todos de uma vez.
Hermione era importante demais para
ele.
o0o o0o o0o o0o o0o o0o
- Curadora Granger, ainda bem que
chegou. Venha! É Gilderoy Lockhart.
Hermione apressou o passo para
acompanhar enfermeira Kyle.
- O que ele fez?
- Não temos idéia. Removermos para o
Cuidado Intensivo, mas ele parece ter feito uma mistura de poções antes de
roubar a varinha de um dos atendentes e tentar um feitiço de beleza.
- E como ele está?
- Nada bem.
Era dizer o mínimo. Três curadores já
trabalhavam no paciente. Gilderoy estava num leito cercado por um feitiço de
contenção, para a mágica não se espalhar. Contudo, a energia que saía dele
parecia totalmente fora de controle. Como Gryffindor perfeita, Hermione se
precipitou a tentar ajudá-los.
- É tarde demais! - Um deles disse,
tentando contar a magia enlouquecida. - Vamos perdê-lo!
- Finite Incantatem! - gritou
Hermione.
Algumas das maldições que ricocheteavam
em raios coloridos simplesmente cessaram. Contudo, junto com elas, também a vida
de Gilderoy Lockhart chegou ao fim.
- O que aconteceu?
- O feitiço de beleza não misturou bem
com as poções que ele tomou. Algumas delas eram bem fortes. Ele se envenenou com
magia e uma combinação mortal de poções. Pelo menos acabou.
Um dos curadores olhou para o corpo:
- Na verdade... não acabou, não.
Hermione e os demais se viraram para o
paciente sem vida estendido na cama, a tempo de verem, abismados, outros
feitiços deixando o corpo. Num átimo, entenderam do que se tratava. Glamours,
feitiços de beleza.
A maior parte dos bruxos carrega algum
pequeno feitiço de beleza em si: uma cor de cabelo mais favorável, um formato de
rosto diferente, olhos mais brilhantes. São pequenas vaidades que não
sobrecarregam a magia do bruxo.
Esse tipo de feitiço geralmente
acompanha o bruxo toda a sua vida, mas ele se quebra no momento de sua morte.
Quando a energia vital deixa o corpo do bruxo, a maldição literalmente se
quebra, com um estopim e um raio colorido. Ao morrer, o corpo do bruxo se mostra
como ele é naturalmente, sem qualquer feitiço.
O corpo de Gilderoy Lockhart, contudo,
estava crivado de feitiços saindo de sua casca mortal. Os três curadores sabiam
que, quanto mais escuro o feitiço, mais profundo ou antigo era ele.
Vários dos raios que saíam do corpo de
Lockhart beiravam o preto absoluto, como uma cortina de piche.
- Merlin... - deixou escapar a
atendente que trouxera Hermione. - O que ele fez?
Demorou pelo menos cinco minutos
inteiros até a mágica deixar o corpo de Lockhart. O que sobrou, entretanto, não
era nada interessante de se ver: um homem com um nariz nada perfeito, olhos
muito esbugalhados, cabelo louro esmaecido e grudento, acne de meia-idade e
dentes amarelados.
O curador mais experiente respondeu:
- Suspeito de magia das trevas.
Enfermeira Kyle, por favor, chame alguém do Esquadrãos dos Aurores. Acho que
esse corpo merece uma necropsia.
- Necropsia?
- Temos que descobrir exatamente que
feitiço ele usou. Porque obviamente alguém foi vítima dele. Mas agora está livre
do feitiço.
- Pena que não sabemos qual é esse
feitiço.
- Daí a necropsia.
A coisa foi mais rápida do que Hermione
calculou. Sem especialização em curadoria-legal, ela não pôde ajudar na
necropsia, mas acompanhou os trabalhos. As conclusões foram fascinantes.
Pela cor dos feitiços, eles calcularam
que Gilderoy Lockhart tinha usado esses feitiços ainda criança. Pior: tudo
indicava que ele usara um feitiço antigo e torpe chamado Transfero Formositas.
Como as raízes latinas indicavam, uma vez lançado, ele retirava a beleza de uma
outra pessoa e transferia a uma outra pessoa. Era um roubo de encanto e
formosura.
O Auror que acompanhava os
procedimentos, Dawlish, sacudiu a cabeça:
- Então ele simplesmente roubou a
beleza de alguém? Que bastardo!
- Não, pela idade do feitiço, Gilderoy
era pequeno demais para isso. É uma maldição das mais negras, o tipo que deixa
marcas na alma de alguém para sempre. Quase tão ruim quanto as três
Imperdoáveis. Alguém lançou o feitiço quando Gilderoy era criança para que ele
recebesse a beleza que era de uma outra pessoa.
- Acho que foi a mãe dele, senhor -
disse Hermione, baixinho. - Aparentemente, ela era muito orgulhosa da beleza de
seu filho, pelo que ouvi.
Dawlish sacudiu a cabeça de novo:
- Que tragédia. Um crime desse e
ninguém para prender. Bom, pelo menos alguém está bonito de novo.
o0o o0o o0o o0o o0o
Quando Severus Snape sentiu a primeira
pontada de dor, ele estava colocando a quantidade precisa de pinhão-da-abissínia
na poção contra hipertensão na poção para St. Mungo's. Como resultado da dor
súbita, sua mão falhou, colocando três vezes a quantidade necessária. Ele xingou
baixinho pela perda de ingredientes e de tempo numa poção tão necessária no
hospital mágico.
Apesar de ter pouca idade em termos de
expectativa de vida bruxa, Severus tinha passado por grande estresse nos anos de
Voldemort. Dores musculares e até movimentos involuntários não eram incomuns a
quem se expusera a sessões prolongadas da Maldição Cruciatus. Contudo, ele ficou
intrigado pela aguda dor repentina, que aparentemente não tinha causa.
A segunda pontada quase o fez derrubar
o caldeirão da poção desperdiçada, pois era muito mais intensa do que a
primeira. Ele teve tempo de pousar o caldeirão antes que a terceira onda o
atingisse.
Ele urrou de dor, caindo de joelhos
quando a onda de dor beirava uma agonia mortal. Diversos ossos se realinharam,
músculos protestando, tecidos se rompendo. Em meio à névoa de dor, Severus
imaginou que, se era isso que Lupin passava toda a lua cheia, ele poderia
pesquisar um progresso para a Poção Wolfsbane com ênfase em analgésicos.
Do nada, seu nariz quebrou. O sangue
jorrou, e a dor parecia tão intensa que ele temeu não conseguir manter a
consciência, entre a dificuldade para respirar com o nariz quebrado e a
necessidade de urrar de dor.
Severus já estava de quatro quando a
dor repentinamente cessou. Simplesmente parou, tão subitamente quanto chegara.
Ele se ergueu, ofegante, a mão ensangüentada tentando descobrir o que tinha
acontecido com o nariz. Ficou alguns minutos assim, até a dor passar totalmente.
Bom, ele tinha que limpar aquela
bagunça e tomar um banho, decidiu. Tomou uma dose de poção analgésica, só para
garantir, e notou que o cabelo estava diferente. Parecia mais comprido, pensou,
intrigado.
Entrou debaixo do chuveiro e constatou
que realmente o cabelo estava mais longo. Talvez agora ele pudesse esconder a
cicatriz do seu último encontro com Nagini. Severus usava golas altas e
fechadas, mas esse cabelo poderia ajudar.
O que não ajudou foi a seqüência de
eventos iniciados quando Hermione bateu à porta de Severus.
O Mestre de Poções apressou-se a
desligar o chuveiro e a sair do box, mas, quando ele se enrolou na toalha,
deparou-se com o reflexo embaçado de um homem estranho no espelho. Foi tudo tão
inesperado que, num reflexo, ele gritou e deu um passo para trás, escorregando
no chão molhado do banheiro com um grande alarido.
Do outro lado da porta, o grito de
Severus chegou até Hermione. Numa atitude típica de um Gryffindor e muito
atípica para Hermione, a moça invadiu o apartamento sem pensar duas vezes, de
varinha em riste, e foi direto ao banheiro, fonte da comoção.
O que ela viu foi um homem extremamente
atraente, molhado e completamente nu no chão do banheiro, enrolado numa das
toalhas de Severus. O que ela não viu foi Severus Snape em lugar algum.
- Quem é você e o que fez com Severus
Snape?
O homem a encarou, agitado, e então
Hermione quase teve um troço pois da boca do homem bonito saiu a voz de Severus:
- Do que é que está falando, Srta.
Granger, e como a senhorita invade o meu lar dessa maneira?
Hermione sentiu o sangue fugir do
rosto, especialmente quando o bonitão se ergueu do chão, ajeitou a toalha de
maneira pudente e revelou um tórax definido, pálido como um mármore, esculpido
em músculos irrepreensíveis.
Aquele era Severus.
Aquela era a vítima da Sra. Lockhart.
A revelação trouxe tamanho choque que a
deixou um tanto tonta, e ela se apoiou na parede, para evitar ir ao chão. Ela
viu os expressivos olhos negros a encararem com preocupação:
- A senhorita está bem?
Ela fez um gesto casual e disse, em voz
embargada:
- Vá se vestir e olhe-se no espelho.
Depois conversamos.
Severus a encarou, intrigado, mas
obedeceu, repentinamente dando-se conta de seu estado de seminudez. Hermione
suspirou, ainda em choque, e dirigiu-se à lareira. Entrou em contato com o Auror
Dawlish para informar que ela tinha descoberto a vítima da maldição Transfero
Formositas. Depois ela chamou St. Mungo's para comunicar a mesma coisa. Um
Auror e dois curadores entraram na sala de Severus Snape.
Enquanto isso, o dono da casa obedecia
à sugestão de Hermione. Ao ver a imagem no espelho, ele soltou outro grito.
Hermione correu para o quarto, mas ficou do lado de fora, falando para a porta
fechada:
- Severus, está tudo bem!
- O espelho...! - Ele estava abismado.
- É um espelho enfeitiçado!
- Não há qualquer feitiço - garantiu
ela, do lado de fora. - Deixe-me explicar a história toda.
Para surpresa da própria Hermione, em
poucos minutos, ela explicou todo o imbróglio envolvendo Madame Lockhart e seu
pequeno Gil, ainda que fosse uma suposição. Mas essa parecia ser a explicação
mais provável. Severus estava abismado.
Mais do que isso, pensou, agora
vestido, em frente ao espelho, admirando a figura à sua frente como se fosse um
estranho curiosamente familiar. Bebendo com os olhos, Severus observou o tórax
expandido, os músculos definidos, o cabelo sedoso, os olhos brilhantes, o
sorriso resplandecente, o nariz irretocável. Ele estava satisfeito. Quase feliz.
Virando-se de lado, depois de costas,
viu glúteos perfeitos e instigantes, dignos do Adônis em que se transformara. A
satisfação aumentou. Acabaram-se os dias em que ele se escondia em masmorras,
causava repugnância, fingia ignorar as piadas sobre o seu cabelo oleoso e nariz
em forma de gancho. Agora ele podia pensar em cortejar Hermione. Agora ele tinha
uma chance. Agora ele era digno daquela flor de formosura. Estava em pé de
igualdade dos admiradores que ela certamente tinha.
Quando Severus voltou à sala, os três
profissionais o esperavam. Os curadores queriam ter certeza de que não havia
qualquer resíduo da maldição, e o Auror tentava confirmar que ele realmente
tinha sido vítima do feitiço das Trevas.
O que Severus não viu foi o rosto de
Hermione com duas grandes lágrimas antes que ela deixasse o local de maneira
sutil e quieta.
o0o o0o o0o o0o o0o
Uma semana de tortura se seguiu à
semana de indecisão. Hermione não sabia o que fazer, além de manter Severus
Snape a distância. Ela estava arrasada com o que acontecera e não conseguia
deixar de demonstrar. Por isso se afastara de Severus, para não magoá-lo.
- Hermione, não estou entendendo -
desabafou Harry Potter, que tinha quase invadido o apartamento da moça para
vê-la. - Pensei que fosse ficar feliz por ele.
- Sim, eu estou. Sério. Mas…
- Mas o quê?
Ela fechou os olhos:
- Você viu os jornais? As revistas?
Não tinha como ignorar. Todas as
publicações bruxas estampavam o rosto de Severus Snape na capa, ou melhor, o *novo*
rosto. As manchetes não eram das mais imaginativas: “Severus Snape, herói e
símbolo sexual”, ou “Confira a beleza que Lockhart roubou”, “O sexy Mestre de
Poções”, “Snape pensa em lançar nova linha cosmética”, “Dentes perfeitos como os
de Severus”, “Severus Snape batiza novo dancing club”, “Humor ácido: a nova
tendência de comportamento”.
Harry notou que todas as capas estavam
empilhadas na sala de Hermione.
- Bom, devo admitir que estou gostando
da folga - brincou Harry. - Dessa vez não sou eu nas capas. E ele parece estar
gostando da atenção.
- Pois é. Ele não é assim.
- Ele também não era... bonito. É isso
que a está chateando?
A moça se avermelhou:
- Não! Não, claro que não. É só que...
ele mudou.
- Pensei que você estivesse feliz por
ele. Está sendo reconhecido. Não está sendo odiado. Na verdade, agora ele é a
sensação do momento.
- Não é justo! Eu que o tirei da casca.
Às vezes, íamos jantar juntos. Nada chique, apenas amigos jantando.
- Até porque agora ele está jantando de
modo diferente. Ele foi visto com duas supermodelos: Valdivenda Verstone e
Sharona Sheronesse.
Hermione tinha visto as reportagens nos
jornais. A mídia apostava em Sharon Sheronesse, pois assim não haveria
necessidade de trocar monogramas das toalhas e guardanapos.
Ela suspirou:
- Eu nunca pensei que ele pudesse ser
tão.. tão... fútil!
Harry a encarou e indagou, numa voz
suave:
- A palavra que você está procurando
não seria volúvel?
Ela o encarou, assustada. Será que ela
era tão óbvia que Harry poderia ter percebido...?
- Não precisa me olhar assim, Hermione.
- Ele riu. - Você está com aquela cara no sexto ano, quando Ron e Lavender Brown
estavam se exibindo na sua frente.
- Não, eu não estou.
- Não foi nesse ano que você fez um
feitiço para lançar canários enfurecidos contra ele?
- Bom, foi, mas....
- Se você pudesse, estaria soltando
canários nas modelos, não estaria?
- Harry, o que está dizendo?
- Não se faça de desentendida,
Hermione. Não cai bem em você. - Harry deu de ombros. - Desde que Ron morreu, as
únicas vezes que eu vejo brilho nos seus olhos são quando fala de Snape. Está
mais do que claro que você tem sentimentos por ele.
Hermione enrubesceu. Parte de vergonha,
parte de remorso.
- Harry...
- Ei, deixe-me dizer uma coisa
primeiro. Ron provavelmente vai se revirar em seu túmulo se perceber que você
está interessada no Sebosão. Mas eu sei que Ron seria o primeiro a querer que
você tocasse sua vida adiante. Então, talvez - eu disse apenas talvez -
ele não se importasse com sua escolha.
Hermione o encarou, depois se jogou em
seus braços, emocionada.
- Obrigada, Harry.
- Talvez Ron até entendesse, agora que
Severus Snape é a sensação do momento. Ele está bonito, apresentável...
“Mas não é mais meu”, pensou Hermione,
infeliz. E esse era o motivo de toda infelicidade. Agora que Severus era o
bonitão mais cobiçado do pedaço, Hermione perdera toda a primazia de tentar
conquistar o coração do mestre de Poções. As fotos traziam o novo Severus com
diversas beldades a tiracolo. Hermione não tinha chance nenhuma.
Era uma injustiça que a fazia querer
chorar. Na verdade, ela chorava sim, mas escondido de todos, quando ia se deitar
(sozinha), numa cama enorme e solitária. Naquela cama, ela temia a noite.
Pois era quando ela tinha pesadelos.
Cada um pior do que o outro.
Desesperada, sem nada poder fazer,
Hermione sonhava com multidões de mulheres maravilhosas engajadas em atos
lascivos com o novo Severus. Praticamente todas as noites o mesmo sonho se
apoderava de Hermione. Ela estava imobilizada, petrificada, incapaz de se mexer.
Severus estava deitado numa imensa cama, que ocupava três quartos do quarto.
Duas mulheres nuas, belíssimas, debruçavam-se sobre ele. Uma delas, uma loura de
cabelos quase brancos, estava entre as pernas musculosas e torneadas, obviamente
engajada em felação. O corpo irrepreensível de Severus se retorcia de prazer, um
movimento que deixava os olhos de Hermione presos à cena. A segunda mulher, uma
morena de cabelos superlisos, beijava o peito musculoso e o longo pescoço de
forma decididamente erótica.
Os olhos de Severus, pretos como o
ônix, não viam outra coisa que não Hermione.
A morena escorregou para o abdômen de
Severus, depois para o umbigo e, finalmente, começou a disputar com a loura um
lugar para servir oralmente ao homem sedutor. Hermione então pôde observar que a
ereção de Severus não só era farta e firme, mas absolutamente convidativa, quase
irresistível.
As moças não se deram ao trabalho de
opor qualquer resistência, servindo-se da dita ereção para extrair o máximo
prazer de seus corpos bem-feitos. A morena sentou-se no colo, encaixando-se tão
completamente que arqueou as costas, em êxtase com o contato. Severus também se
arqueou, um grunhido profundo, produzido no meio de sua caixa torácica. Os dois
começaram a se movimentar de maneira harmoniosa. A outra moça beijava Severus e
tentava encaixar a mão dele dentro dela.
Então mais mulheres chegaram, todas
nuas e belíssimas. Uma a uma, elas foram se revezando em Severus, nem sempre
esperando até a antecessora sair, uma orgia sensual, incessante. Como um sultão
em seu harém, Severus dava conta de todas, e várias vezes ele olhava para
Hermione, os olhos negros brilhando como pedaços de carvão em brasa.
Finalmente, a voz maviosa sussurrou:
- Pena que nenhuma delas é você, Srta.
Granger.
E ele olhou para Hermione.
Que acordou imediatamente, ofegante,
suada, com uma umidade bastante desconfortável entre as pernas. Ela suspirou e
levantou-se para, no meio da noite, tomar um banho.
Frio. E longo.
Desde que descobrira que Severus tinha
sido a vítima da Sra. Lockhart, Hermione tinha evitado qualquer contato com o
Mestre de Poções. Por sua vez, Severus desde então tinha lhe mandado no mínimo
uma coruja por dia. Convites para jantar, para café, para encontro, para
compras. Hermione rejeitou-os, todos.
A loja de poções que ele tinha em
Diagonal Alley tornou-se o ponto mais quente de toda Inglaterra bruxa. Era uma
multidão que parecia ter criado subitamente não uma grande necessidade de
poções, mas sim grande necessidade do mestre de Poções. Mais e mais manchetes.
Um final de tarde, Severus apareceu no
St. Mungo's e pediu para que Hermione fosse chamada. Ela se derreteu por cinco
segundos, e ia descer quando viu, pelo mezanino, que o átrio tinha se tornado
uma balbúrdia. Mulheres cercavam Severus, um escândalo de risinhos e suspiros.
Severus recebeu uma mensagem dizendo que a Curadora Granger estava muito ocupada
e não podia recebê-lo. Na verdade, Hermione se escondeu na sala do staff,
tentando de modo vigoroso não chorar pelo homem que ela amava.
Ele parecia ter morrido.
No átrio, ela vira não o homem que
amava, em seus trajes negros e esvoaçantes, mas um com calças de couro de
dragão, suéteres justos, botas até o joelho, paletós italianos. O vestuário de
Severus Snape tinha mudado radicalmente, como que para combinar com a nova
aparência.
Amargamente, Hermione pensou que
Severus Snape tinha herdado mais de Gilderoy Lockhart do que a aparência.
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Hermione remoía os pensamentos de
Severus quando um grande pássaro bateu na janela dela. Era Esculápio, a coruja
de Severus. O animal entregava pelo menos uma carta todos os dias na casa de
Hermione; já deveria saber o caminho de cor e salteado.
“Ótimo”, pensou ela, desanimada. “O que
ele quer agora?”
Ainda que deprimida, ela deu um
biscoito para a coruja e aceitou a carta.
“Cara Srta Granger,
Escrevo para me despedir, pois estou deixando definitivamente as Ilhas. Recebi uma proposta do renomado instituto suíço de farmacologia bruxa. Eles me darão carta branca para um projeto de pesquisa que vai aperfeiçoar Wolfsbane.
Decidi aceitar a proposta por vários motivos, mas principalmente porque não tenho nada que me prenda à Inglaterra. Venho tentando contatá-la nos últimos dias, mas aparentemente estamos nos desencontrando com grande freqüência. Se eu fiz ou deixei de fazer algo que a tenha magoado, peço mil desculpas. Tenho grande apreço pela amizade que me concedeu, e jamais me esquecerei dos momentos em sua companhia. Por mais que eu desejasse aprofundar essa amizade em algo mais íntimo, percebo que minhas eventuais investidas só lhe seriam ofensivas. Assim, encontro-me sem motivo para permanecer no país.
Externo meus mais sinceros votos de
profunda estima e afeto, bem como agradecimento por sua atenção. Jamais a
esquecerei.
Atenciosamente,
Severus Snape”
Hermione ficou boa parte de um minuto
inteiro olhando a carta, perplexa. Durante esse tempo, seu cérebro parecia ter
congelado. Ela não compreendia bem as palavras. Desejo de algo mais íntimo?
Deixando as Ilhas definitivamente?
Severus ia embora para sempre?
- NÃO!!
Hermione mal teve tempo de calçar um
sapato baixo e Aparatar diretamente para a casa de Severus.
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Severus empacotava seus pertences com
um sentimento misto. Havia a oferta do instituto suíço, o que lhe dava uma
sensação de recomeço, de esperança, de renovação. Por outro lado, a bênção da
beleza terminou transformando-se numa maldição: havia a imprensa, as fãs, a
cobrança, a invasão de sua preciosa privacidade. E, pior do que tudo isso,
Hermione o rejeitara. Ele fora um tolo em pensar que, com sua nova aparência,
ele teria mais chance com a moça.
Foi quando a porta se abriu
violentamente, e uma bruxa de cabelos arrepiados e soltos o encarou, de varinha
em riste, e com os olhos brilhando. Hermione simplesmente avançou contra
Severus, que, em choque, recuou, indagando:
- Srta. Granger?
- Não me venha com essa de Srta.
Granger! Agora você vai fugir?
- O que pensa que está fazendo?
- Quero ver com meus próprios olhos
você simplesmente ir embora! É isso que vai fazer? E sem dizer adeus?
Hermione Granger podia parecer uma
bruxa nerd, mas ela era a mais brilhante de sua geração, e também poderosa,
ainda por cima. Experiente como era, Severus sabia que irritá-la ainda mais não
era aconselhável.
- Srta... Hermione... Eu escrevi uma
carta explicando meus motivos.
- Sim, eu li sua carta! Você diz na
carta que tem sentimentos por mim, mas que vai se mudar para sempre sem nem
tentar agir sobre esses sentimentos, não foi?
- Herm...
Ela o interrompeu:
- Você é mesmo um covarde! Um covarde
feio e seboso!
- Feio? - Severus deu um sorrisinho
sarcástico e jogou os cabelos sedosos para o lado com um movimento de cabeça.
A manobra não passou despercebida à
moça, que gritou:
- Feio, sim, isso se não estiver pior
do que antes!
Na hora Severus perdeu o sorriso. Ele
deveria saber que não conseguiria enganar Hermione. Apesar da renovação no
visual e do exterior revigorado, a perspicaz jovem tinha enxergado, por baixo
do verniz de beleza, o mesmo interior indigno, feio e seboso que ele sempre
tivera, a feiúra dentro da alma, aquela que tinha afastado Lily... A feiúra que
ele nunca deixara ou deixaria de ter. Severus deveria esperar isso de Hermione.
O que ele não esperava era a reação
seguinte dela.
A moça se aproximou dele e sussurrou:
- Com tudo isso, eu o amo mais que tudo
há tanto tempo...
Ato contínuo, sem dar a ele chance de
reação, Hermione pôs-se na ponta dos pés e beijou-o.
O toque foi suave, mas as sensações
foram intensas.
Pego de surpresa, Severus mal pôde
processar os eventos que se desenrolaram. Levou alguns minutos até que ele
percebesse os lábios sedosos sobre os seus. Seria aquela realmente Hermione? E o
que ela falara sobre "tanto tempo?"
Num impulso Severus se afastou dela,
segurando os ombros:
- Espere. Você... fala sério?
Os olhos castanhos que o encaravam
possuíam um brilho que ele conhecia muito bem, mas nunca supunha que pudesse ser
direcionado a ele:
- Severus Snape, somos as duas
criaturas mais obtusas de todo o mundo bruxo. Eu estou apaixonada por você há
tanto tempo. E pelo seu bilhete...
- Mas... e Ronald Weasley? Eu pensei
que...
Ela o interrompeu:
- Severus, não quero criticá-lo nem
coisa assim, mas nem todo mundo curte a dor de uma perda durante 30 anos. Ronald
já se foi há muito tempo, e ele gostaria que eu tivesse achado uma forma de ser
feliz. Acredito que Lily também.
Num flash, Severus lembrou-se dos
sonhos com Lily. Ela pedia que ele voasse, que ele se soltasse. Era um símbolo
de que Severus poderia se soltar dela, poderia deixá-la ir e “voar” em busca de
novos rumos.
Ele argumentou:
- Mas você não quis me ver. Eu pedi,
insisti...
- E ver você se exibindo com essa nova
aparência? Ou para se exibir com as modelos mais badaladas? Não, obrigada. Eu
tinha isso nas revistas e jornais.
Severus empalideceu:
- Eu pensei que... Se você me...
Achei...
Hermione o encarou, surpresa:
- Severus?
- Eu odiei tudo aquilo. Só me submeti
por sua causa.
- Minha causa?
- Queria ser digno de você. Achei que um aval público poderia ajudar-me a convencê-la. E, para esclarecer algo de uma vez por todas: aquelas moças me usaram. Queriam que eu lançasse uma linha de produtos de beleza com seus nomes.
- Por que achou que essa exibição iria
me convencer?
- Você me conhece. Sabe que sou... difícil.
- Por difícil, você quer dizer
sarcástico, mal-humorado, sagaz, nobre, persistente, corajoso, leal e adorável?
Ele arregalou os olhos:
- Você realmente pensa isso a meu
respeito?
- Sempre pensei isso de você, Severus.
Você espionou durante quase 20 anos, correndo riscos para cumprir uma promessa e
se redimir de seus pecados. - Ela acariciou o rosto pálido. - Amou perdidamente
por tantos anos, mesmo após a morte dela. Pensei que jamais olharia para mim.
- Mas então... Quando o feitiço se
quebrou, por que não quis me ver?
- Pensei que você tivesse virado
Gilderoy Lockhart em tudo, até na fanfarronice. Achei que esse novo Severus
Snape tivesse matado o Severus Snape que eu amava.
- Você parece não ter gostado que o
feitiço tenha sido quebrado.
- Não me leve a mal - pediu. - É claro
que gostei. Mas ainda preciso descobrir a completa extensão das mudanças.
- O que tem em mente?
Hermione abraçou-o, capturando seus
lábios num beijo tão profundo e apaixonado que ambos estavam sem fôlego quando
se separaram para ela pronunciar, marota:
- Ainda preciso descobrir se algo mudou
embaixo dessas vestes...
Seveus deu um sorrisinho e comentou:
- É uma investigação interessante.
- Intrigante.
- Então podemos começar imediatamente?
- Perfeito. Tudo pelo espírito
científico.
- Adoro seu entusiasmo pela pesquisa.
Quando seus lábios voltaram a se
encontrar, em algum lugar Ron e Lily se apertaram as mãos, comemorando a missão
bem-sucedida.
The End