Nome da fic: O preço de uma vida
Autor: Magalud
Censura: 14 anos
Gênero: Angst, Drama
Spoilers: AU, mas tem referências de Half-Blood Prince
Avisos ou Alertas: Nenhum, exceto ressureição
Desafio: Essa fic foi uma resposta desafio em que Snape descobre que sua mãe está viva e que ela se relacionou com o pai de Lucius Malfoy. Resumo: Duas linhas ou menos resumindo a fic.
Agradecimentos: Agradecimentos a Cris e a Carla, que betaram em tão pouco tempo e sem aviso prévio!
Disclaimer: Todos os personagens que você consegue reconhecer são de JKR, os outros são meus.
Esta fic faz parte do SnapeFest 2007,
uma iniciativa do grupo SnapeFest, e está arquivada no site
http://oxetrem
ponto com barra fest e no meu site http:// magalud ponto noigandres com barra
het ponto html.
O preço de uma vida
Ali ele estaria salvo, com certeza.
Aquela cabana era o único local onde ele sentia um mínimo de segurança - e algo
mais, se fosse honesto consigo mesmo.
Ele tinha passado os últimos dez dias
na companhia do Lorde das Trevas, após os acontecimentos que culminaram com sua
saída de Hogwarts e a conseqüente perseguição pelo Ministério da Magia. Agora
ele era um homem procurado. Ainda bem que ele nunca mencionara aquela cabana a
ninguém. Durante os anos em Hogwarts, ele jamais se dera ao luxo de comentar os
verões com o Vovô Prince. Agora ele era o herdeiro do lugar.
Severus Snape olhou em volta e franziu
o cenho ao ver tudo limpo. Ele não se lembrava de ter algum elfo doméstico no
local. Mas obviamente a casa via algum tipo de movimento. Então havia alguém
ali.
Ele se manteve encostado na parede e de
varinha em punho.
A figura saiu da cozinha, trazendo uma
bandeja com um bule de porcelana e serviço de chá vitoriano decorado. Digno da
família Prince.
- Olá, Severus.
Ele franziu o cenho, a varinha apontada
para a mulher.
- Quem é você? Como entrou aqui?
- Não reconhece sua própria mãe?
- Minha mãe morreu há mais de vinte
anos. Portanto, pergunto novamente e aconselho a não mentir desta vez: quem é
você e como conseguiu entrar aqui?
A mulher colocou a bandeja na mesa de
jantar, calmamente, e respondeu:
- Sei que é difícil acreditar, querido,
mas eu sou mesmo sua mãe Eileen. Agora precisamos conversar. Sente-se. Tome um
chá. Você gostava muito da variedade Formosa Oolong quando era pequeno. Mudou de
gosto?
- Escute aqui - ele disse, ríspido. -
Eu não sei o que pensa que está fazendo ou o que...
Foi interrompido:
- Sputnik.
- O quê?
A mulher se sentou, com um sorriso doce
e lembrou, servindo chá:
- Você tinha quatro anos quando trouxe
Sputnik para casa. Era um cachorrinho adulto, mas pequeno, preto com manchas
brancas. Nunca o vi tão feliz. Eu lhe dei um cobertor velho para ser vir de cama
para o bichinho e você o colocou ao lado da lareira, para ele não sentir frio.
Seu pai estava viajando. Naqueles dias, você quase não fez outra coisa a não ser
brincar com Sputnik.
Severus arregalou os olhos. Ele nunca
mencionara Sputnik para ninguém em toda a sua vida.
A mulher continuou, desta vez olhando
para seu chá:
- Então Tobias chegou em casa. Olhou
para o cachorro e não falou nada. Eu sabia que ele não gostara. No dia seguinte,
você acordou e não achou Sputnik. Seu pai disse que ele provavelmente tinha
fugido e não iria voltar nunca mais. Aí você soube. Aos quatro anos, você soube
que seu pai tinha feito alguma coisa com o animalzinho, com o bichinho que você
tanto amava.
Ela tomou um gole de chá, mas a mão
estava trêmula. Inspirou uma vez antes de olhar para ele, os olhos cheios de
água.
- Você não tinha cinco anos, mas seu
pai já o ensinara o que era ódio. Eu nunca o perdoei por aquilo.
Agora era Severus quem a encarava, com
a mão trêmula. Sua voz falhou:
- Mamãe...?
Novamente o sorriso triste, aquele que
Severus tanto lembrava, estava nos lábios daquela senhora, que ofereceu:
- Tome um chá comigo, meu filho. Por
favor, vamos conversar.
Severus ainda estava em choque. Ele
olhou para a mulher, reconhecendo os traços que há tanto tempo vira pela última
vez. De tudo que ele podia esperar no seu futuro, rever sua mãe certamente era
impensável.
Ela serviu o chá, e Severus sentiu o
aroma familiar, adocicado, quase esquecido de seus sentidos. Desde que a mãe
tinha morrido, ele se recusara a tomar o chá tipo Formosa Oolong. Eles tinham um
ritual de saborear o chá. Eileen sempre explicara ao pequeno Severus que o
Oolong era chamado de “champanhe dos chás”. Para o menino, às vezes o chá tinha
um gosto suave de pêssegos bem maduros.
- Explique-se.
Eileen Snape suspirou, saboreando seu
chá. Depois, disse:
- Não espero que me perdoe, mas talvez
me entenda. Severus, eu o amava tanto que não podia suportar ver você mudar.
Você estava se tornando justamente aquilo que eu mais temia. Meu pai o tinha
fascinado e estava envolvendo aqueles tentáculos sobre você. Eu tentei
adverti-lo, mas você sempre foi muito obstinado, Severus. Você se juntou àquele
bruxo. Depois disso, seu pai morreu. Senti que minha vida tinha acabado.
- Pensei que você fosse gostar de se
ver livre dele.
O sorriso dela foi ainda mais triste.
- Você não vai acreditar nisso, eu sei,
mas eu amava seu pai. Nem sempre ele fora tão irascível e abusivo. Quando nós
nos conhecemos, Tobias era um cavalheiro. Sabe, quase vitoriano. Tratava-me como
uma dama. Mas ele tinha dificuldade em lidar com problemas. E nós tivemos muitos
problemas depois que nos casamos. Mas eu amava seu pai, Severus. Por isso me
casei com ele. Quando ele morreu, fiquei muito triste. Achei que estava sozinha.
Com você se entregando a Você-Sabe-Quem, eu temi por minha vida.
- Sua vida?
- O Lorde das Trevas estava matando
Muggles que tinham se casado com bruxos. O próximo passo lógico seria matar
bruxos que tinham se casado com Muggles e traído o sangue.
- Mãe, que bobagem.
- Foi o que Abby disse.
- Quem é Abby?
- Uma amizade dos tempos de fartura com
conexões muito úteis para uma bruxa afastada do mundo bruxo. Abby me ajudou
muito quando decidi “morrer” e viver como Muggle. Sou muito grata, até hoje,
mesmo tanto tempo depois de sua morte.
- Eu conheci essa mulher?
Eileen sorriu suavemente, e Severus
lembrou-se do rosto dela quando ele era pequeno, as grossas sobrancelhas se
movendo quando ela ria.
- Abby não era uma mulher. Na verdade,
ele odiava quando eu o chamava por esse apelido. Sendo um homem tão poderoso,
ele ficava uma fera comigo por causa disso. Mas ele era tão bom para mim que eu
não o encarava como o resto da sociedade bruxa. Ele me protegeu e a você também,
Severus.
- Eu o conheci?
- É possível. Ele era um amigo de seu
avô, mas não concordava com o tratamento que ele dava a nossa família. Sabe como
seu avô era: ele me deserdou depois que eu me casei com Tobias. Abby jamais
concordou com aquilo. Antes de qualquer coisa, eu era uma Prince, ele dizia. E
você era metade Prince. Ele nos ajudou muito. Isso enfurecia seu pai. Então,
passei a esconder nossa amizade dele. Toda vez que seu pai descobria que Abby
nos ajudara, Tobias tinha um acesso de fúria - e de ciúmes. Abby o ajudou
também, Severus. Ele instruiu filho dele a ser seu amigo em Hogwarts. Vocês
desenvolveram uma amizade, eu vi.
- O filho dele era estudante em
Hogwarts?
- Estava alguns anos adiante de você.
Eu temia que sua criação Muggle o deixasse em desvantagem. Então pedi que Abby
conversasse com seu filho para procurar ajudar você discretamente. Vocês se
tornaram amigos, e eu fiquei feliz. Mas aí ele o levou para os braços de
Você-Sabe-Quem...
Severus franziu o cenho.
- De quem está falando?
- Lucius Malfoy, filho de Abby.
Ele quase perdeu a fala:
- Então esse Abby é... Abraxas
Malfoy? *O* Abraxas Malfoy? Membro benemérito do Wizengamot, integrante
da Confederação Internacional dos Bruxos, alto funcionário do Ministério, e
praticamente uma deidade no mundo bruxo, além de ser bilionário tanto no mundo
bruxo quanto no mundo Muggle? Esse Abraxas Malfoy? E você o chama de Abby?
- Eu era muito pequena quando o
conheci. Seu avô era amigo dele, como já disse. E ele me punha em seu colo,
brincava comigo.
- Lucius é uma peste - rosnou Severus.
- Ele jamais brincou com Draco. Como o pai dele brincava com a senhora, mamãe?
Ela deu de ombros:
- Talvez por eu não ser uma Malfoy, e
não precisar ser criada como membro da realeza.
Severus ficou em silêncio, remoendo
aquela informação de que Lucius tinha sido obrigado a se tornar seu amigo. O
único amigo em quem confiava durante sua época em Hogwarts tinha sido comprado.
Ele não pôde evitar dizer isso alto:
- Então... meu único amigo foi obrigado
a ficar comigo.
- Severus, eu lhe disse: vocês
desenvolveram uma amizade. Ou você acha que Lucius Malfoy se sujeitaria a uma
situação desconfortável por tanto tempo? Ele achou sua companhia agradável...
- Você quer dizer tolerável -
interrompeu Severus, azedo.
- Tome seu chá - disse ela. - Vai ver a
vida com outros olhos.
- Não importa quantos litros de chá eu
tome. Você me abandonou - acusou, cruelmente. - Quando eu mais precisava
de você, mãe, você decidiu brincar de morta.
- Eu me assegurei primeiro de que você
estaria protegido em minha ausência.
- Por seu amigo Abby?
- Não. Pelo Prof. Dumbledore. E por
minha amiga Irma.
- Quem?
- Irma Pince, a bibliotecária. Somos
amigas. Costumávamos brincar, dizendo que ela deixara de ser uma Prince por um
R. De qualquer modo, ela ficou de olho em você também. Especialmente depois que
Lucius deixou a escola.
- Quando eu entrei, ele já estava no
sétimo ano.
- Isso mesmo. Ele é um pouco mais velho
que você.
- Ele está há um ano em Azkaban.
- Eu sei. Fiquei por dentro das
notícias.
- Por que está aqui, mamãe?
- Você precisa de mim, Severus.
Ele quase riu, ácido:
- Ah, e antes eu não precisei? Nos
últimos vinte anos? Poupe-me!
- Eu estava sob uma impressão errada.
Achei que você tinha virado um deles. Depois, quando soube o que aconteceu a
Dumbledore, tive certeza de que era a hora certa de voltar. Antes disso, eu não
podia. Esperava que você entendesse, Severus. Eu tinha que me afastar. Estava
com muita raiva. Inclusive de você. Não entendia como tinha caído na conversa
desse bruxo que até hoje está aterrorizando nosso mundo.
Ele a encarou. O chá estava acabando.
- Você não sabia?
- Sabia o quê?
- Meu avô me ameaçou com a vida de meu
pai para eu me tornar um Death Eater.
Eileen arregalou os olhos.
- Eu nunca soube disso. Mas não duvido.
Então... você acha...?
- Mãe - Severus disse pesadamente -,
tenho certeza de que Vovô Prince estava envolvido na morte de papai.
- Meu filho. Se você tem tanta certeza
disso, por que continuou a fazer o que ele mandava?
- Eu... - Severus baixou a cabeça. - Eu
ouvia os seguidores do Lord das Trevas dizendo que primeiro eles iam atrás dos
Muggles que emporcalhavam as linhagens bruxas. Como você bem temia, o próximo
passo seria perseguir os bruxos que tinham aceitado casar com Muggles e procriar
com eles.
Eileen perdeu a cor no rosto. Mal
sussurrou:
- Oh, Merlin...
- Juntei-me a eles para protegê-la.
Achei que eu podia simplesmente mantê-la a salvo, e depois poderia sair... - Ele
soltou uma risada amarga. - Mas eles não pouparam sequer um membro da família
Black. Só então vi como eu tinha sido ingênuo. E logo depois você morreu... E eu
fiquei só.
- Oh, meu garoto.
Eileen pegou a mão de seu filho. Era
magra, manchada de ervas, e estava suja. Mas era a mão do seu menino, do seu
garoto. Ela sentiu uma conexão se refazer, um laço afetivo que tinha se partido
há mais de duas décadas se recompunha diante de seus olhos.
E, desta vez, ela não iria largar
aquela mão sob hipótese alguma.
- Venha comigo.
- Para onde? Do que está falando?
- Vamos para um lugar discreto,
afastado - ela convidou. - Viveremos como Muggles. Nós vivemos como Muggles até
você ir para Hogwarts, então podemos fazer de novo.
- Foi como viveu até agora?
- Sim. Eu posso esconder você. Posso
cuidar de você, Severus. Até isso tudo passar.
- Mãe, você sabe do que me acusam?
- Sim, eu sei - ela assentiu
pesadamente. - Dumbledore me disse que protegeria você.
- Mãe, as acusações são verdadeiras. Eu
cometi o crime pelo qual sou acusado.
Eileen o encarou, o sangue dos Prince
gritando em suas veias. Ela aprumou o corpo, inspirando fundo e decidiu:
- Podemos falar disso num lugar mais
seguro. Venha comigo.
- Não posso. Há um pequeno detalhe de
sete Horcruxes do Lorde das Trevas que preciso ajudar o Herói do Mundo Bruxo a
achar. Isso se esse dito herói não me matar primeiro, claro. Ou o Lorde.
- Severus, Severus...
- Mamãe, eu sou um espião. Há vinte
anos. E está cada vez mais difícil saber para que lado estou espionando...
O coração de uma mãe era uma coisa
misteriosa e maravilhosa. Era o mais abundante receptáculo de amor, e o coração
de Eileen Prince estava há mais de 20 anos esperando para mostrar a seu filho
querido que ele era amado, sim. Por isso, ela tirou seu xale e se ergueu, para
ir até a cadeira onde Severus estava sentando e abraçou-o ternamente.
Severus não era acostumado a ser tocado
por outras pessoas. Portanto, seu primeiro impulso foi se retesar. Contudo, em
algum lugar dentro de suas células, ele reconheceu o toque de amor e carinho que
há tanto tempo não sentia. Era o tipo de toque que começava na sua pele, nos
seus músculos, para chegar até sua alma, aquecendo-a, confortando-a.
Pois ele finalmente não se sentia só.
Finis