Nome da fic: Pai
Autora: Lia Snape
Pares: Severus/Alice, Lucius/Narcissa
Censura: Sexo subentendido, tensãão, linguagem adulta.
Gêênero: Drama/Romance. Tema adulto.
Spoilers: Nenhum.
Desafio: 06. Numa happy hour entre os Comensais, Snape conhece uma moçça e decide tiráá-la do caminho das Trevas. (ludmila)
Resumo: Snape, homem de confiançça de Voldemort, trai aos comensais ao se envolver com a filha de um ex-Death Eater.
Agradecimentos: Minha famíília, Monique Kiki Radcliffe, minha sobrinha, Deus e todo a turma láá de cima, Jobis, minha beta, o povo do SnapeFest, SexySnape e SexySnapeSenior, bem como todo o galerãão de todos os grupos que curtem SS.
Disclaimer: Esses personagens sãão de JKR, eu nãão quero nem vou ganhar dinheiro com eles.
Esta fic faz parte do SnapeFest 2004, uma iniciativa do grupo SnapeFest, e estáá arquivada no site http://oxetrem.com/fest e no site http://www.eusoumaiseu.org. ¶¶
Fora um trabalho perfeito. Nãão havia o mais leve vestíígio da verdadeira autoria dos atentados, comemoravam os criminosos, reunidos na Mansãão Malfoy, ultimamente escolhida como a sede social dos Comensais da Morte. Nãão apreciariam juntar os copos na Travessa do Tranco, todos aqueles suspeitos num úúnico lugar constituiriam um prato cheio para os aurores. Igualmente nãão seria uma boa opççãão a velha e abandonada casa dos Riddle... Por mais que respeitassem a Voldemort, sua presençça repugnante tolhia quaisquer manifestaççõões de júúbilo.
Aos poucos, em pequenos grupos, os bruxos das trevas foram
aparatando no jardim da residêência da famíília aristocrata e puro sangue, sendo recepcionados pelos elfos doméésticos, que circulavam apressados dentre os convidados, guardando casacos e chapééus, anunciando os nomes dos que chegavam. Ante a menççãão daquele úúltimo, o burburinho alvoroççado cessou instantaneamente.
" Severo...! Pensei que nãão vinha mais... ! "
O belo rosto do anfitriãão se abrira num sorriso radiante. Snape limitaria-se apenas a uma mesura e aperto de mãão, mas Lucius o abraççou calorosamente.
" Foi um golpe de mestre, Severo...! Com as preciosas informaççõões que nos conseguiu pudemos detectar facilmente os impuros que se infiltraram entre nóós... àà primeira vista o Ministéério pensou que tratava-se de uma briga em famíília, um delito passional... "
Abanou a mãão no ar desdenhosamente - " Volúúveis e emocionalmente fracos como trouxas... Acabariam mesmo um com a vida do outro, de qualquer
maneira... Quem sabe nóós apenas tenhamos abreviado seu sofrimento? "" - Pilheriou o cíínico, bancando o bom samaritano - Coisa que Lucius Malfoy definitivamente nãão era, conclui Snape, críítico.
Ao contráário do que noticiara em letras garrafais " O Profeta Diáário ", os Srs. Larsson e Kleft nãão haviam se matado num duelo motivado pela iminente infidelidade conjugal da igualmente assassinada Diana Larsson ( Que pudesse sua alma repousar em paz ). O úúnico crime pelo qual poderiam ser julgados culpados era o de possuir sangue trouxa correndo nas veias.
" Um áálibi perfeito este que temos na manga, nãão éé mesmo, meu amigo? " - Lucius encheu a boca com aquela úúltima palavra, cheio de orgulho, envolveu-lhe os ombros com o longo braçço, guiando Severo atéé
o bar. Durante o trajeto, um Snape muito tíímido viu-se forççado a apertar váárias mããos e receber, impassíível, o peso duma torrente de elogios. A um gesto de Malfoy ocupa o espaççoso sofáá estofado em couro de dragãão negro, sentado muito teso, intimidado com tantos olhares voltados em sua direççãão. Sente-se aliviado quando, apóós certo tempo, o áálcool anuviou-lhes um pouco a memóória. Que bebessem e o esquecessem... !
Háá algum tempo nãão sentia mais prazer em estar com aquelas pessoas e com elas compartilhar ideais e praticar atos rancorosos e racistas. Para um menino de famíília rica, puro sangue e desestruturada, brutalmente marginalizado durante o perííodo escolar, a princíípio seria o paraííso finalmente encontrar sua verdadeira " turma", homens que o respeitavam e tratavam como um igual. Descarregava seu óódio
ajudando a destruir dezenas de vidas, cegamente crendo que aqueles pobres diabos eram de alguma forma responsááveis por sua misééria interior, mas agora podia ver que a ferida em sua alma apenas
aumentara mais.
" Snape, grande Snape... Nãão vai dar um abraçço em seu velho Mac? " - Uma voz arrastada arrebatou-o de seus devaneios, Severo desvia o rosto do háálito ardido do homem de aparêência revoltante - bêêbado como um gambáá, o carrasco Macnair apenas conseguia ser mais repelente do que naturalmente jáá o era. Nãão houve tempo, o sujeito emborcou e caiu de lado, roncando alto. Severo suspirou de enfado, olhando para o relóógio na parede. Crendo jáá ter permanecido naquele purgatóório o tempo suficiente para nãão passar-se por anti-social, ia levantando-se rumo a Malfoy para se despedir, mas uma cena insóólita mudaria seus
planos para aquela noite.
Do outro lado do salãão um par de olhos acinzentados e oblííquos pousou sobre ele por um segundo e entãão tornou a fitar a parede, com ar entediado. Uma mulher muito jovem - Talvez uma menina ainda - Fingia bebericar o conteúúdo do cáálice repleto duma bebida forte, tãão deslocada e estranha ali quanto ele. Seu olhar de animal assustado despertou-lhe uma sensaççãão desagradáável. Era caloura, certamente.
Quando Malfoy passou por ela, a guria apressou-se em cumprimentáá-lo, mas Lucius sequer sabia-lhe o nome.
" Ah, senhorita... ? "
" Klain, Alice Klain, filha de Denis Klain. Estagio no Ministéério da Magia, no mesmo departamento em que o senhor..."
" Oh, Merlin... Sim, agora me lembro de vocêê..." - Fez ele, fingindo-se compungido - " Eu conheci seu pai... Morreu como um heróói em honra e glóória do Lord das Trevas... "
A boca carnuda de Alice contraiu-se - " Meu pai estáá em Azkaban... Na verdade nãão era o úúnico culpado, havia muito mais pessoas envolvidas... Mas a corda sempre arrebenta no lado mais fraco, Sr.Malfoy... " - Disse com amargura.
Snape poderia rir da expressãão confusa de Lucius, mas a triste situaççãão da moçça nãão era nenhuma piada.
" ÉÉ claro... Hum... Denis Klain... Devo ter confundido... Com licençça, senhorita Lorena... Fique àà gosto, preciso dar atenççãão a todos os convidados, vocêê compreende " - Virou as costas e desapareceu abruptamente, fingindo responder a um chamado de Goyle.
" ÉÉ Alice... " ? Ela resmungou, torcendo desapontada a barra do vestido cinza chumbo, desabou no sofáá e dispôôs-se finalmente a começçar a embriagar-se. Severo tomou fôôlego e aproximou-se, dissimulado como uma serpente. A mocinha ergueu-lhe o rosto um segundo - Foi quando ele calculou que ela aparentava ainda estar em idade escolar - E tornou a virar-se para a parede, balanççando os péés, inquieta.
" Eu nãão conheçço o seu pai... " - Mentiu - "Mas se quiser pode me contar a históória dele. " - Murmura Snape, sentando-se àà frente da garota, que o mirou ressabiada.
" Por que o novo braçço direito do Mestre das Trevas se interessaria por mesquinharias da vida de uma caloura e ilustre desconhecida? " - Replicou em tom áácido, agora o encarando fixamente, Severo sentiu as
faces arderem.
" Se vocêê estáá dentre nóós éé assunto de nosso interesse. " - Pondera, inclinando-se para afastar-lhe o copo das mããos, o gesto súúbito, sem aviso a aterrorizou, ela estremece e recua, Snape ergue uma sobrancelha, curioso - " Nãão vai querer começçar com isto. ÉÉ muito jovem para beber. Aliáás, nãão deveria sequer estar aqui... ÉÉ jovem demais, menina, quantos anos tem, quinze? " - Ciciou desdenhosamente,
Alice se aprumou, tentando aparentar uma auto confiançça inexistente.
" Dezenove." - Cortou, rispidamente -- " Nãão sou jovem demais para vingar o que fizeram a meu pai. Foi o bode expiatóório... Apenas o elo mais fraco da corrente... " - Abanou a cabeçça - " Fiel como um cãão,
enxotado da mesma maneira... "
" Por que me revela seus planos? Eu poderia ir atéé Lucius e expor suas intenççõões... Somos amigos de infâância, em quem Malfoy acreditaria? "
" Vocêê dorme com a mulher dele. " - Acrescenta, o mar cinzento dos olhos agora flamejando maliciosamente, Snape sentiu um golpe no estôômago poréém falou calma e friamente.
" O que a senhorita pretende? Me chantagear? Pois saiba que nãão tem provas contra mim. E, como vocêê próópria acaba de dizer, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. A meu favor tenho meus contatos
e influêência..." - Defendeu-se de imediato, Alice fez um meneio negativo.
" Pensa que eles desconhecem minhas intenççõões? ÉÉ tãão óóbvio que apenas
desejo vingar meu pai... Mesmo para uma novata, nãão recebo nenhuma tarefa significante, tampouco deixam-me a par de informaççõões relevantes. Parece-me que nãão sou mais que uma mera mascote do
grupo... Mas devo lhes ser úútil de alguma maneira, senãão o próóprio Lucius teria se encarregado de me eliminar... Ou quem sabe essa seráá sua próóxima missãão, Severo Snape...? "
O homem percebeu que aquela conversa nãão os levaria a lugar nenhum. A jovem estava revoltada. O melhor seria dar-lhe um calmante, nãão bebida alcoóólica.
" Nãão veja meu gesto como caridade. Um dos deveres de um comensal éé zelar pelo bem estar de todos os servos de Voldemort. " - Murmurou, indicando-lhe que bebesse a poççãão que o elfo trazia numa salva de
prata. Alice nãão hesitou. Engoliu todo o conteúúdo num áátimo, entãão aguardou que a criaturinha os deixasse a sóós.
" Poderia ter me matado neste exato momento... " - Apontou o cáálice.
" Nãão sou exatamente um covarde " - Escusa-se - " Prefiro combater num duelo. E... francamente... Nãão tenho o costume de atacar moçças indefesas... "
Alice cruzou as pernas num movimento gracioso poréém irritado, agressivo. Snape reparou no castanho luminoso do cabelo muito liso, preso num coque baixo. Quais segredos tãão terrííveis esconderia aquela
linda menina, para ter fel nas palavras e estremecer e esquivar-se como uma coelhinha assustada ante a proximidade fíísica de um homem?
" Afaste-se antes que acabe sabendo demais. Lucius crêê que éé uma idiota fúútil e fríívola, uma alpinista social que apenas tenciona arranjar um bom marido dentre os seguidores de Lord Voldemort.
Ninguéém aqui acredita que estáá realmente interessada nas verdadeiras atividades da irmandade. "
" Nãão. " - Sibilou, lacôônica - " Quanto mais me menosprezarem, melhor. Que me pisem e ignorem minha existêência. Quanto mais invisíível eu estiver, mais liberdade e chances terei de chegar aonde quero. " - Sorriu, passando a mãão pelo colo dum aveludado tom cor de mel, em contraste com a pele macilenta do comensal.
" Nãão imagina do que sãão capazes. " - Fez um muxoxo. - " Se pensa que o mááximo que podem fazer éé enviáá-la a Azkaban para que se junte a seu pai, estáá muito enganada. A prisãão naquele lugar horríível ou a morte na ponta de uma varinha seria muito pouco para uma traidora... Bruxos mais velhos e experientes tiveram pior sorte... Que chances teria uma criançça ingêênua como vocêê? "
Emitiu uma discreta interjeiççãão de desconforto.
" Nãão sou criançça nem ingêênua. E beberei o áálcool que quiser. " - Mudou de idééia bruscamente - " Vou vomitar sua poççããozinha besta. "
" Oh, muito maduro de sua parte. Apenas confirma o que acabei de dizer... "
" Dane-se " - Arrulhou, virando no gargalo a garrafa de champagne, Snape observa-a embriagar-se, impassíível. Em poucos minutos os cabelos de Alice haviam se soltado. Um riso frouxo e déébil serpenteava por seu rosto bronzeado, agora estava enrubescido, as pernas falseavam. Quando ela começçou a rir alto demais um dos elfos lanççou-lhe um olhar desaprovador e correu a relatar ao mestre o quanto a filha do imbecil Klain estava alterada. Seria um escâândalo, o dono da casa lamentou-se com Snape, mortalmente aborrecido. Os adultos estavam acostumados a beber em acontecimentos como aquele, mas a pequena Klain estava querendo dar um passo maior do que as próóprias pernas.
" Severo " - Lucius cochichou-lhe aos ouvidos - " Livre-se dela para mim, sim? " - Deu-lhe uma palmadinha no ombro. - " Nãão me olhe com essa cara. Eu nãão faria mal a uma belezinha como essa, vocêê faria? Apenas quis dizer que a leve para casa. ÉÉ inofensiva... " Frisou - " Lord Voldemort pouco se importa. Acha que nóós precisamos de um pouco de diversãão extra-conjugal... Afinal, sãão tãão poucas as comensais mulheres... E nãão éé todo dia que se vêê carne nova, fresca e sadia como esta... " - Sorriu como um delinqüüente, Snape acenou positivamente e se voltou para Alice, erguendo-a da poltrona.
" Venha comigo. Acho que a festa jáá acabou para vocêê. " - Diz em tom imperativo, segurou-lhe o braçço. Alice torceu o rosto num esgar enraivecido - " O que pensa que estáá fazendo? "
" Vou leváá-la para casa. " - Informa secamente, vendo a expressãão zombeteira da garota alterar-se, uma sombra funesta a envolveu.
" Eu nãão tenho casa. Acabo de sair de Hogwarts... Atrasei-me dois anos para ter um teto sobre minha cabeçça por mais algum tempo... " - Gaguejou, passando a mãão pelo cabelo alvoroççado, trêêmula.
" ÓÓtimo. Hospede-se em minha residêência em minha residêência, neste caso... "
" Prefiro dormir na rua !" - Tentou soltar-se, mas apesar de ser uma garota alta, sua forçça fíísica era muito inferior a de um homem adulto e moderadamente forte.
" Desculpe, mas eu nãão vou permitir. Sugiro que nãão piore ainda mais a sua situaççãão, acompanhe-me em silêêncio " - Falsamente cortêês, faz com que lhe tome o braçço.
" Espere. Nãão posso sair assim... " - Ciciou, com algum amuo na voz, retocou a toalete na parede espelhada do bar, num áátimo ajeitou o cabelo e o batom, respirou fundo e tornou a aceitar o apoio de Snape, atravessaram a sala sob os olhares curiosos dos convidados remanescentes.
" Nãão acredito que jáá vãão nos deixar... " - Lucius beijou as pontas dos dedos finos da mocinha, que fingiu aprovar o gesto. - " Tãão cedo...! " - Completou ele, mirando Snape de modo insinuante. O estôômago de Alice se embrulhou. Que juíízo fariam de sua pessoa, saindo da festa, bêêbada, acompanhada de um estranho? Nãão tinha para onde ir. Apesar de nãão estar de todo desamparada na vida - Os móódicos
rendimentos de estagiáária, adicionado ao pequeno montante que o pai deixara no Gringotes permitiam-lhe viver modestamente, mas ela acabara de sair de Hogwarts e ainda nãão havia conseguido um lugar para si, confidenciou ao bruxo envolto em longas capaz negras e ondulantes, enquanto preparavam-se para aparatar próóximo àà residêência dos Snape. Apenas a estola humilde que cobria-lhe o pescoçço e parte do colo eram ineficazes contra o frio que condensava a respiraççãão em nuvens de fumaçça géélida.
" Quer a minha capa? " - Ofereceu Severo, cavalheirescamente.
" Hein? " - Pensou em recusar, mas nãão estava disposta a adoecer, aceitou a vestimenta com um aceno, sentindo-se muito melhor, a pressãão suave que as mããos grandes de Snape faziam nos ombros estreitos a
inebriaram durante um inquietante segundo que pareceu durar uma
eternidade.
" Podemos ir? " - Inquiriu ele, polidamente. Logo aparataram na entrada da suntuosa mansãão em estilo vitoriano, mais sóólida e sombria do que a dos Malfoy. Snape aguardou o elfo abrir a porta - A criaturinha
deformada notou Alice encolhida a um canto - " Boa noite, Mestre. Jovem Mestra...." - Fez um cumprimento com a cabeçça, indicando-lhes que entrassem. Um amplo living todo decorado em tons francamente escuros abriu-se ao campo de visãão da moçça, que nãão perdia um detalhe, reparando nos variados retratos de bruxos e bruxas de ar esnobe, ornando a parede forrada dum vistoso tecido negro pontilhado com discretos veios dourados, a mobíília pesada em nogueira, uma imponente escadaria estendendo-se por mais dois andares.
Atéé mesmo o semblante do elfo a recriminava, pensou Alice, de súúbito suspendendo suas observaççõões arquitetôônicas e decorativas. Ficou ainda mais evidente o que sua presençça ali parecia quando o monstrinho perguntou ao dono da casa, em tom baixo.
" Devo apresentar àà dama aos aposentos do mestre?"
Snape hesitou e essa ambigüüidade foi uma bofetada no rosto semi-alcoolizado de Alice.
" Presumo que essa casa tenha mais de um ou dois quartos. " - Declarou, enrubescendo visivelmente, Snape limpou a garganta.
" Wilp, leve a senhorita Klain aos aposentos de hóóspedes do segundo andar." - E, àà garota - " Para o caso de precisar de alguma coisa, basta chamar o elfo. Estarei em minha suííte, a segunda, no terceiro
piso. Tenha uma boa noite. " - Fez uma mesura impessoal e deu-lhe as costas, desapercebidamente a mãão de Alice afagou a capa negra que a agasalhava. Principiava a sentir a falta daquele homem misterioso e arrogante que parecia ler seus pensamentos.
" Severo. "
Ele voltou-se, com ar indiferente - " Senhorita? "
Hesitou, agora a face escarlate de vexame - " Bem... Nada de mais... Eu apenas... hum... pensei que quisesse conversar... Nãão me sinto bem... Mas... Estáá certo, éé tarde, foi um dia estressante para
vocêê... Nãão quero ser inoportuna. "
" Poderííamos conversar pela manhãã, durante o caféé... " - Obstou - "Mas vejo que a senhorita precisa aliviar seus pensamentos imediatamente. Vamos a biblioteca, neste caso. "
Alice passou pela porta alta que Snape lhe abrira, nem bem ocupou a chaise longue põõe-se a chorar desconsoladamente, para surpresa do comensal, que de fato nãão esperava por aquilo.
" Acalme-se, senhorita... Merlin... O que se passa? " - Ofereceu-lhe um lençço, mas quando estendeu-lhe a caixinha, a jovem se dependura em seu pescoçço, derreando a cabeçça ao ombro do homem, deixou-se ficar
chorando em silêêncio, Severo nãão teve aççãão, sem jeito, achou que o melhor a ser feito seria afagar-lhe as costas estreitas discretamente, seria cortêês de sua parte reconfortáá-la daquela forma quase impessoal. Quando a moçça estava mais tranqüüila ela pôôde se justificar ; Cambaleante, foi amparada de volta a seu assento.
" Minha vida tem sido um inferno... Tenho a consciêência de nãão possuir nenhuma mente brilhante, poréém me esforcei o bastante para figurar entre os melhores alunos de Hogwarts regularmente... Evitei conflitos, agi educadamente, busquei ser afáável e prestativa todo o tempo... Enquanto os membros de minha próópria Casa toleravam-me porque éé dever dos sonserinos ajudarem-se uns aos outros, os demais alunos
fizeram o possíível para que eu me envergonhasse de minha existêência ! Pedi para permanecer mais dois anos em Hogwarts cursando matéérias extracurriculares somente com o pretexto de ficar mais algum tempo... bem ou mal, sentia que era mais aceita ali do que no mundo aqui fora... Sóó estava adiando o sofrimento... Acabaram-se as féérias e Dumbledore explicou que eu nãão poderia mais ficar na Escola... De
qualquer maneira, por mais que me enxotassem... Se pudesse teria permanecido a vida inteira em Hogwarts ! - Soluççou, tornando a cair no choro, escondendo o rosto lavado de láágrimas no peito de Snape,
atordoado com toda aquela lamentaççãão da bêêbada.
" Queria sentir-me parte de algum lugar, qualquer lugar, mesmo dentre os comensais da morte, os malditos cãães traidores que usaram meu pai e o descartaram quando ele nãão servia mais a seus propóósitos... " - A voz cada vez mais enrolada - " O que esperar do mundo? Nãão conto com inteligêência, nem poder, reconhecimento, amigos, famíília, status, nome ou dinheiro, nãão háá ninguéém esperando por mim em casa esta noite simplesmente porque nãão tenho onde dormir... Minha mããe me expulsou de
casa quando participei-lhe minha decisãão de me unir aos comensais... Ninguéém gosta de mim ! " - Exclama, numa afirmaççãão essencialmente infantil e tola, pensa Severo, revirando os olhos em desdéém, gesto que a menina nãão captou.
" Nem vocêê mesma gosta de si próópria... De outra forma nãão imploraria por atenççãão junto aos carrascos de seu pai... "
Alice interrompeu o que ia dizendo, a boca entreaberta, fitando Snape fixamente, pestanejando ráápido.
" Nãão teve nada a ver com isso, eu sei. Conheçço nome por nome de cada um que contribuiu para arrastar meu pai àà sarjeta..." - Apertou os láábios, sacudindo a cabeçça freneticamente - " O fato de justamente vocêê nãão estar envolvido me éé um alíívio tremendo... " - Soluççou alto, aninhando-se entre os braçços de Snape, que sem se dar conta a abraççara ternamente. Dali a alguns minutos perguntou o que ela queria, entãão. Alice desviou o olhar, sorriu por um instante, Severo bebera do lume daquele precioso segundo fugaz, como que se colhesse uma flor morbidamente fresca àà sombra de um deserto.
" Nãão tenho nada a lhe oferecer em troca da hospedagem... "
" Minha casa nãão éé um hotel. Apenas cumpro meu dever de sonserino. Vocêê deveria saber disso, pois como acaba de me informar, tambéém éé origináária da nobre Casa de Salazar Slytherin.... "
"Nãão tenho nada a lhe oferecer em troca da hospedagem... A nãão ser a mim mesma... " - Acrescenta, o coraççãão de Snape estremeceu e ao mesmo tempo ele sentiu-se enojado do oferecimento gratuito e cheio de interesse. Afastou-se, sentindo que lhe respingavam algo féétido ao rosto.
" Vou desconsiderar porque a senhorita estáá muito abalada e nãão sabe o que diz. Boa noite. " - Afirmou em tom que evidenciava o téérmino da conversaççãão, Alice teve consciêência de quãão insensata e prejudicial
fora a declaraççãão impensada, apressou-se em tentar desfazer a máá impressãão.
" Eu nãão... Eu nãão... Expressei-me corretamente... Quero ser sua amiga, éé isso... Foi o úúnico que tratou-me com respeito e cordialidade, nãão quero desperdiççar a chance de ter em quem confiar... " - Desesperou-se , mas Snape nãão estava disposto a ouvir mais nada.
" Dirãão que nãão honro as calçças que visto porque nãão soube aceitar o convite de uma jovem e bela senhorita que me quis levar àà cama... Mas mantenho a firme convicççãão de que nada fáácil demais, por mais
atraente que seja, éé digno de muita atenççãão... Cure essa bebedeira, e se nãão insistir em seguir essa linha de raciocíínio apóós retomar a sobriedade, quem sabe poderemos nos tornar bons amigos, ou quiççáá cordiais colegas de trabalho...? Mas agora nada do que diremos poderáá ser levado em conta - De sua parte, porque nãão pode responder por si próópria, e quanto a mim, nãão desejo ser seduzido. Atéé amanhãã. " -
Girou nos calcanhares e desapareceu rumo a seus aposentos. Alice engoliu em seco, observando-o subir as escadarias quase em silêêncio.
Fechou a porta num estrondo, desabou na cama, chorando desconsoladamente.
***
Nãão conseguira conciliar o sono aquela noite, mas ouvira durante horas o ronco pesado da tempestuosa hóóspede - Poréém nãão foi o barulho o motivo pelo qual estivera insone, junto àà lareira.
Precisava afastar Alice antes que aquela imundíície a engolfasse como engolfou o velho Klain... Hesitara em salváá-lo... Fora covarde, mas se erguesse um dedo para tentar ajudáá-lo estaria assinando a próópria condenaççãão.
Talvez a exposiççãão ao submundo cruel dos discíípulos de Voldemort a aterrorizasse o suficiente para desistir da idééia de efetivamente unir-se a eles. Ainda nãão tinha a Marca Negra tatuada no braçço... Em poucos minutos de conversa pudera detectar na menina sinais de enorme fraqueza de carááter e submissãão ocultos sob camadas e mais camadas duma ridíícula imagem de bravura e ousadia. Ela nãão suportaria a pressãão... Na manhãã anterior Lucius confidenciara a Snape que se a formosa estagiáária novata fosse boazinha para eles, quem sabe sabe depois lhe arranjariam um marido tolo e rico para bancar os caprichos e lhe dar um bom nome e aceitaççãão na sociedade?
" Vocêê mentiu " - Ouviu a voz falseante àà sua frente, Alice o encarava resoluta, de péé junto àà entrada dos aposentos. - " Conheceu meu pai. Ele sóó falava em Severo Snape..."
" Queria um pretexto para fazêê-la abrir a boca. " - Justifica-se calmamente, dissimulado reparando que a moçça ainda usava a mesma roupa da noite anterior e tinha a aparêência abatida, a despeito de ter dormido pesadamente. Ela passou a mãão no cabelo alvoroççado, de súúbito envergonhada do próóprio estado, mas adentrou o dormitóório mesmo sem ser convidada a tal, jogou-lhe a capa amarrotada sobre os joelhos.
" Muito agradecida pelo agasalho. Parto apóós o caféé, se nãão se importa com que eu coma em sua casa. Posso procurar um restaurante,se o preferir. " - Suspira, cuspindo as palavras em tom seco.
Nãão trazia mais a expressãão maliciosa e insinuante de horas atráás, quando praticamente se oferecera a ele, observa.
" Pode ficar o tempo que quiser. ÉÉ um prazer receber um membro da irmandade. Nãão compreendo sua agressividade, senhorita. " - Obstou, ela cruzou os braçços, mordendo o láábio inferior, gesticulando
afirmativamente.
" Certo. Entãão permanecerei somente enquanto nãão encontrar outro lugar. Mas assim que fizer minha refeiççãão sairei em busca de uma nova residêência. "
***
ÀÀ mesa do desjejum, Snape jáá havia se decidido.
" Se quer mesmo ser uma comensal, éé preciso agir corretamente. Lucius me disse que ainda éé uma trainéée. Comensal assistente... Nãão tem a Marca Negra, nãão foi apresentada formalmente a Voldemort... Veráá como a sociedade realmente funciona... Entãão saberemos se merece receber maiores responsabilidades... Ou seráá apenas guardiãã forççada de nossas identidades - Pois agora que conhece a quase nóós todos, nãão poderáá simplesmente nos dizer adeus e ir cuidar de sua vidinha. "
Miss Klain olhava com ar ausente a opulêência da refeiççãão que lhe era servida. Deu de ombros e permitiu que o elfo encha sua xíícara com um perfumoso caféé puro e simples. Ainda estava enjoada, era compreensíível que nãão quisesse comer nada.
" Sem aççúúcar " - Gesticulou, ao que a criatura curvou-se e correu a servir ao amo. Severo a espreitava com o canto dos olhos negros como a noite, Alice nem de longe lembrava o azouguezinho falante, lamurioso e ameaççador da noite anterior. Apáática e apagada... Preferia-a como antes, embora lhe tivesse dado asco o modo como se insinuara.
" Estarei em meu escritóório. Enviarei uma coruja a Lucius acertando os detalhes de sua entrevista. Como nãão trouxe bagagem, pretende mandar buscar algo apropriado para a ocasiãão ? "
Massageou a próópria nuca , estarrecida. Nãão havia pensado naquilo e, de fato, nãão estava prevenida.
" Acho que terei de comprar algo... "
" Posso trazer a estilista de minha mããe, se o preferir. " - Prontifica-se, inocentemente, logo se dando conta da dimensãão da gafe - Alice nãão teria condiççõões de pagar. Ofendida, nãão deixou por menos.
" Estáá acostumado com mulheres finas, Sr. Snape... Nãão se preocupe.
Eu mesma cuido disso. Nãão vou fugir, se éé isso o que estáá pensando. Encontrarei seus amigos, conforme combinarem. " - Emendou, antes que ele dissesse qualquer coisa.
***
O dia avanççou, nublado e frio, o cééu dum cinza chumbo melancóólico. Nãão tardaria a nevar.
Alice honrara sua promessa. Trajada de forma simples poréém moderadamente elegante - Um conjunto de saia e blusa rosa cháá que a envelheceu um pouco, dando-lhe um ar de adulta precoce -Apresentou-se ao local do encontro, a velha mansãão dos Riddle, que embora razoavelmente limpa, passava uma impressãão de desmazelo e abandono, vazia e silenciosa como uma tumba. Aquele lugar lhe dava arrepios.
" Logo o Lord das Trevas estaráá entre nóós " - Lucius saudou-a, apóós largar-lhe a mãão. ÀÀ sua direita, Snape pressentia que talvez nãão tivesse tomado a decisãão correta.
Voldemort demorou-se consideravelmente e apareceu com cara de poucos amigos. Olhou atravéés da garota, sem em nenhum minuto disfarççar o desprezo.
" Mestre, esta éé a moçça de quem lhe falamos... " - Lucius tentara tomar a dianteira das negociaççõões, como se a jovem estivesse àà venda. Sóó entãão o Lord das Trevas volveu-lhe os olhos astutos de cobra, julgando-a silenciosamente. As víísceras de Alice contraííam-se de ansiedade e terror.
" O que querem que lhes diga? ÉÉ uma inúútil... Estáá entre nóós porque sabe demais, por certo... Sendo filha de quem éé... Nãão podemos dispensáá-la, a menos que a matemos... "
Instintivamente Alice aproximou-se de Severo, embora sua vontade fosse sair dali, levando a menina consigo,protegendo-a daquele inferno. Como arrependia-se de ter ido tãão
longe!
" Nãão tenho para onde ir. Aceitarei o que for de sua vontade, Lord Voldemort. " - Inclinou a cabeçça num gesto de submissãão - " Ofereçço-lhe minha vida."
" Eu sei... " - Fez um muxoxo, desdenhosamente - " Nãão tem outra alternativa, nãão éé mesmo? ÉÉ uma pena que tenhamos de alistar em nossas fileiras nulidades como vocêê... Mas estáá bem. Amanhãã àà noite passaráá pela cerimôônia da Marca Negra. Se nãão tem certeza de que éé o que realmente quer, sugiro que se suicide o mais ráápido possíível da forma que mais lhe convier. Agora desapareçça da minha frente. " - Sem maiores delongas, retirou-se, ainda resmungando sobre a pééssima qualidade das pessoas em cujas mããos estava o nobre futuro dos Comensais da Morte.
Ante a hesitaççãão de Alice em deixar a mansãão, Lucius delicadamente sugeriu a todos que fossem tomar alguma coisa em sua casa. Narcisa ficaria encantada em ter convidados para o cháá.
"Muito obrigada, mas eu jáá tive bebidas suficientes na Mansãão Malfoy. Acho que meu organismo ainda nãão assimilou tudo que consumi. Passar bem" - Desculpou-se a estagiáária, tomando o braçço de Snape, que nãão a contradisse. Alice afasta-se ráápido de Lucius, sussurrando a Snape.
" Severo, apenas me leve para longe desse lugar horríível... Preciso ficar sozinha... " - Gemeu baixo, se agarrando àà mãão do bruxo, tremendo de medo e frio - " Nãão sei bem se estou tomando a decisãão
certa, jáá nãão sei se tudo isto vale a pena, mas como aquele horríível homem disse, que outra alternativa eu tenho? "
Snape nãão respondeu, sem o perceber tentando a encobrir com o corpo, como se com a afastasse do campo de visãão de Malfoy.
***
Alice estava háá horas trancada em seu quarto, desesperou-se Snape, andando em cíírculos do lado de fora das dependêências da hóóspede. Ao que tudo indicava ela acatara a sugestãão do Lord das Trevas... Nãão se podia escutar um úúnico ruíído sequer, angustiou-se, maldizendo a todo instante o momento em que contribuííra para o fatíídico ocorrido, colocando mais lenha na fogueira, contaminando-a com suas idééias maldosas.
Era apenas uma criançça... Uma criançça faminta por aceitaççãão, rejeitada como ele próóprio o fora... Mais uma vez agira como um canalha. Nãão permitiria que Alice se perdesse como Denis. Nãão que estivesse disposto a se tornar um máártir... Mas talvez algo pudesse ser feito sem arriscar a si mesmo. Bate na porta energicamente, chamando-a pelo nome.
" Entre..." - Respondeu ela, com voz sumida. Para alíívio de Severo, a louca nãão havia feito nenhuma idiotice...!
Miss Klain apenas deixara-se ficar imóóvel, àà janela, observando a neve que principiava a amontoar-se na rua daquele endereçço nobre. Snape pôôs as mããos sobre as dela, achando-as quentes e macias, enquanto as dele eram úúmidas e frias de fraqueza. Como enganara-se sobre Alice... Ela era forte, sim, para aceitar o que nãão poderia ser mudado... Negar a Voldemort e lutar contra ele sozinha seria a morte, mas Severo poderia fazer algo para quebrar aquela cadeia maldita.
Estava serena, estranhamente bela, o rosto redondo e infantil pláácido e saudavelmente corado. Sentia-se invadido duma imensa ternura ante toda aquela resignaççãão desesperanççosa e tranqüüila. Ela nãão lhe era uma completa estranha. Denis sempre lhe falara da filha, era como se a conhecesse. Mostrava, orgulhoso, as fotos da pequena que nãão saííra grifinóória como a mããe - Exibia-se muito cheia de si no uniforme verde escuro e prata. A melhor da Casa, cinco anos seguidos a melhor dentre os melhores de Hogwarts.
" Vocêê nãão precisa fazer isso... " - Declarou, pousando-lhe um inocente óósculo na testa febril. - "Sei como impedi-la de tornar-se uma deles... Sem precisar se matar... "
Riu baixo - " Refere-se aos comensais como se nãão fizesse parte deles... " - Reclinou o corpo para tráás, apoiando a cabeçça no ombro do homem páálido e alto, que a envolvia com os braçços.
" Posso dizer que vocêê me seduziu e me lanççou um feitiçço enquanto eu dormia... Sempre foi uma óótima aluna... Pode ter me enganado... Afinal, éé uma bela moçça... Haveria uma possibilidade de enganar mesmo a um homem experiente como eu... "
Nãão pôôde responder de imediato. Arregalou os olhos cor de gelo, que se encheram de láágrimas de pura felicidade.
" Oh, nãão, vocêê nãão... Faria... Isso por mim? "
" Eu nãão lhe proporia isto se nãão estivesse de fato disposto. " - Sorriu, os dedos finos percorrendo-lhe todo o comprimento do cabelo castanho e macio, agradáável ao toque, Alice Klain ainda nãão acreditava.
" Mas... Mas... Seria muito arriscado... Nãão teme que eu o traia...? " - Sobressalta-se, pois parecia bom demais para ser verdade.
" Eu nãão costumo me enganar duas vezes sobre as pessoas. Estou certo de que estaráá melhor longe daqui, na segurançça dos bruxos da luz, dos amigos de Dumbledore e do Ministéério. Na condiççãão de novata, conhecendo tudo acerca de suas origens e passado, crêêem que nãão éé perigosa e apenas sujeita-se a Voldemort por puro medo, por nãão ter mais a quem recorrer. Depois de interrogáá-la com algum veritasserum a aceitarãão e a protegerãão. "
A soluççãão para todos os seus problemas estava ali, oferecida pelo novo braçço direito de Lord Voldemort. Quem ousaria duvidar de Severo Snape? A sorte decididamente estava a seu favor. De qualquer forma a recéém formada gozava de uma boa fama dentre os ex-colegas de classe e o povo do Ministéério. A Poççãão da Verdade a inocentaria. Alegaria que estivera entre os comensais somente o tempo suficiente para descobrir seus nomes e reveláá-los ao Ministéério da Magia - Assim estaria vingando seu pai, que apesar de ser um bruxo das trevas, ainda era o homem que a gerara na barriga de sua mããe, feiticeira honrada e honesta, que nãão suportara a vergonha de ver marido e filha na vida criminosa. Volta-se para ele, radiante de júúbilo.
" Oh... Severo... Eu jamais poderei lhe pagar tudo o que estáá fazendo por mim... " - Suspira, beijando-lhe as mããos repetidamente.
" Pois entãão eu lhe darei uma sugestãão de como pode agradecer-me: Se quer mesmo vingar a seu pai, façça da maneira correta. Vingue-se de todos aqueles que a fizeram sofrer, mas o façça com dignidade. De modo algum tem uma inteligêência simplóória. Nãão se menospreze... Reconquiste o respeito e confiançça de sua mããe, ela a aceitaráá de volta, estou certo disto... "
Do outro lado da janela os flocos de neve começçavam a tornar-se mais espessos. Alice nãão sabia como lhe fazer a pergunta que a queimava por dentro.
" E quanto... bem... ao nosso... digo, ao meu plano de fuga... Tem mesmo de ser... antes da Marca Negra? Vocêê nãão estaráá vulneráável demais? Seria tãão evidente que me ajudou... "
" Se nãão fugir agora, nãão teráá outra chance. Com uma marca negra no braçço, nãão seráá digna de confiançça. A primeira incumbêência de Voldemort aos calouros éé ordenar que se mate alguéém. " - Pondera. - " Tem de ser feito imediatamente. Se nãão cortarmos o mal pela raiz, mais tarde seráá impossíível. Nãão teráá mais a quem recorrer. Seráá uma deles definitivamente. "
Tomou uma profunda respiraççãão. Sentenciava seu Destino ao assentir.
" Certo. Eu aceito... E quanto... Hum... A seduzi-lo e aplicar o feitiçço para o nocautear... Atéé onde éé apenas uma estratéégia... E onde começça a verdade? " - Inquiriu quase inaudivelmente, líívida.
" Alice... Isso éé vocêê quem decide. " - Respondeu suavemente, erguendo-lhe o queixo e aproximando os láábios dos dela, numa súúplica muda.
***
Pouco antes da partida eles haviam definido qual seria a rota de fuga da jovem. Ela seguiria normalmente para o Ministéério, para o estáágio, sem despertar maiores suspeitas, e seguindo as orientaççõões de Snape conseguiria uma lareira segura na Rede de Póó de Flu para chegar a Dumbledore. Revelou ao Diretor de Hogwarts sua situaççãão e ele prontificou-se a lhe fornecer proteççãão. Indicou a Alvo todos os nomes envolvidos com Voldemort, em troca, como garantia. Em questãão de horas a operaççãão foi desenvolvida dentro do próóprio Ministéério da Magia, em absoluto sigilo. Para que as investigaççõões pudessem ser bem sucedidas, nenhuma decisãão foi tomada contra os acusados, a princíípio.
***
Lucius Malfoy dirigia-se ao departamento onde Alice Klain estagiava, confiante que lograria tirar algum proveito do medo que ela certamente estava sentindo. Ansioso como um colegial, bateu na porta do chefe da garota, o baixote e rotundo Roland Gaak. ( Nãão, aquele gordo hediondo nãão levaria a melhor com a bela cabritinha saltitante... )
O próóprio Roland atendeu a porta, coisa que soou a Malfoy como um mau agouro.
" Malfoy... O que o traz aqui tãão cedo? "
Nãão era preciso ser nenhum gêênio para perceber o que Lucius buscava. E se o loiro nãão ficara sabendo... era porque de alguma forma estaria envolvido com o que nãão prestava, rapidamente Roland soma dois mais dois e conclui sabiamente.
" Ah... Entãão vocêê nãão soube...? Ela nãão estáá mais aqui... "
" Refere-se a Alice Klain, presumo... "
Assobiou. " Foi mesmo uma surpresa e tanto. Bem... Veja por si mesmo... " - Estendeu-lhe o impresso oficial de circulaççãão interna, o comensal arregalou os olhos. A putinha ordináária, a filha duma grifinóória enganara a todos...! Quase sufocado de óódio engoliu a raiva estoicamente, agarrando o papel com forçça entre os dedos enluvados.
" Bem... Vou precisar de um destes. Com licençça. "
***
O elfo domééstico avisou ao amigo do anfitriãão que ele nãão sentia-se bem, um par de medi-bruxos saindo das dependêências de Severo parecia confirmáá-lo. A criaturinha olhou para os dois lados, e como se quisesse confidenciar algo extremamente vergonhoso, falou com pesar.
" Meu Mestre foi atacado na cama, enquanto dormia, por... "
Gesticulou evasivamente de modo grosseiro - " Poupe-me de seu circo ridíículo, elfo ! Onde estáá Severo Snape? Exijo falar com ele imediatamente... Acho bom nãão se colocar no meu caminho... "
Lucius jogou o Boletim Oficial do Ministéério sobre a mesinha de cabeceira. Severo jáá esperava por sua reaççãão intempestiva, foi um perfeito ator.
" Lamento recebêê-lo nestes trajes " - Aponta o pijama cinza escuro que vestia, deitado e coberto atéé a cintura, mais macilento do que nunca, com expressãão de doençça e cansaçço. - "O que háá, Lucius? Sente-se. Posso lhe servir alguma coisa? " - Suspira com voz fraca.
" Cíínico... " - Rosnou entredentes - " Leia. "
Ergue o seria sobrolho, tomando o papel despretensiosamente. Sua expressãão alterou-se quando leu o conteúúdo circulado em vermelho por Malfoy. A garota na foto preto e branca sorria-lhe largamente sob o enunciado: " Nova auror contratada esta manhãã - Alice Klain. "
Severo virou-se de lado, puxando as cobertas mais para cima.
" Nãão sei o que quer dizer com esta visita inoportuna, mesmo o meu elfo tendo lhe avisado que nãão estava disposto a receber ninguéém, nem mesmo vocêê, que tanto prezo, que considero um irmãão... "
Lucius estreitou os olhos ameaççadoramente. ? " Nãão me diga... E por que tanta recusa em me receber? "
" Eu lhe diria mais tarde, mas nãão no exato momento, se pudesse ter me dado um tempo para que me recuperasse... " - Explicou, com voz ondulante. - " Fui atacado por aquela... senhorita, filha de Denis
Klain..."
Riu de escáárnio - " Nãão ofenda a minha inteligêência, Severo ! Estáá sendo um palerma se crêê mesmo que acreditarei que nãão sabia de tudo desde o princíípio...! Se Voldemort o preferiu a mim, se éé tãão bom quanto parece ser, por que deu guarida ààquela vadia, mesmo estando escrito naquela bela testa que ela apenas aguardava o momento certo para nos apunhalar pelas costas? " - Espalma as mããos no colchãão, encarando-o desafiadoramente. - " Lord Voldemort vai receber a sua cabeçça numa bandeja de prata, Seboso... Quando ele baixar a ordem terei o maior prazer em cumpri-la... Pessoalmente." - Chiou, espumando de óódio, mas o outro nãão fez caso.
" Temo que tal decisãão fique a encargo de nosso Mestre " - Replicou calmamente, levando àà boca o cáálice com sua Poççãão Reanimadora, que ergue àà guisa de um brinde.
***
A varinha de Snape foi examinada pelo Ministéério da Magia, anáálise acompanhada in loco pelo próóprio Lucius Malfoy. Homens de segurançça de Voldemort acabaram atestando a inocêência de Snape, para desespero do esposo de Narcisa. A atuaççãão da garota no ataque foi encoberta por Lucius e Severo. Este úúltimo ocultaria o fato, temendo ser ridicularizado por ter sido subjugado por uma criançça.
Passados quatro meses, a investigaççãão finalmente chegou a termo. Voldemort estava aliviado por nãão perder seu melhor colaborador. Oferecera um fabuloso baile em sua homenagem - Festa que durante anos permaneceu na memóória de todos presentes e atéé mesmo dos que nãão compareceram.
Malfoy apertou-lhe a mãão energicamente, abraççando-o com palmadinhas nas costas, enquanto lhe segredava aos ouvidos, no meio da multidãão de comensais.
" Muito bem, Severo. Vocêê venceu desta vez. Mas isso nãão quer dizer que vou lhe dar tréégua. Ainda nãão descobri como e nãão importa o que digam, eu sei que ajudou a garota. Acho bom ficar de olhos bem abertos. Na primeira oportunidade nãão hesitarei em destruíí-lo. " - Disse com o sorriso mais fraterno deste mundo - " Sempre foi um óótimo negóócio me ter como amigo, nãão éé mesmo? Pois seráá melhor ainda me ter como inimigo... " - Rinchavelhou numa ironia cruel, segurando-lhe docemente o rosto entre as mããos, o olhar astuto penetrava em sua carne como adagas de óódio fervente. Agora falando em voz alta, para que todos ouvissem, Malfoy bradou - " ÉÉ um irmãão para mim ! " - E, àà
eufóórica assistêência - " Tenho um convite a fazer a Severo Snape perante os senhores..." - Tomou a mãão de Narcisa, que parecia muito loira e páálida aquela noite, os olhos delineados de verde esmeralda e preto saltavam da pele branca.
" Temos o imenso prazer de anunciar que minha amada esposa daráá a luz a meu herdeiro dentro de alguns meses. Quero que vocêê, Severo, seja o padrinho... "
Os aplausos irromperam ensurdecedores. Severo nãão titubeou em aceitar, outra vez abraççando Malfoy, que repetira a jura de morte - " Na primeira oportunidade eu o mato, Seboso... " - Depois beija o dorso da mãão da cobra gráávida, que mirava Snape com disfarççado rancor de amante traíída.
***
Snape nãão soubera mais notíícias relevantes de Alice atéé aquela dourada tarde de Outono, quando um envelope grande e branco chegou ààs suas mããos por interméédio do elfo domééstico. A carta lhe passaria imperceptíível nãão fosse por um pequeno detalhe: A caligrafia trabalhada de Miss Klain ornava a frente da correspondêência. Rasgou o envelope com um pééssimo pressentimento. ÀÀ medida que passava os olhos pela mensagem sentia um nóó no peito a comprimir-lhe o coraççãão.
" ( ...) Severo, sei que parece cruel e atéé mesmo sáádico, mas estou lhe avisando com antecedêência porque nãão gostaria que viesse a conhecer a verdade por interméédio de terceiros. Vou me casar porque estou gráávida... Por favor, nãão me queira mal. Nãão tive outra opççãão... Como poderííamos ficar juntos, eu, uma auror, e vocêê, um comensal da morte? Nosso amor éé impossíível e minha criançça nãão
poderia ficar sem um pai... Que digam que estou sendo simplóória, mas nãão posso criar nosso filho sozinha... Sim, éé isso mesmo o que estáá pensando. Façça as contas... Vocêê seráá o pai do meu bebêê... Ah, se ao menos vocêê pudesse mudar de lado... As coisas maravilhosas que me disse aquela noite... Jamais me esquecerei enquanto viver... O que ainda faz junto a Voldemort? Eu sinto que nãão éé um deles... Se pudesse, se vocêê os deixasse, Severo, eu abandonaria meu noivo, porque éé vocêê o meu primeiro e úúnico amor, teve a prova de que nãão tive ninguéém antes de vocêê...(...) "
Nãão conseguiu ler o restante da carta, grossos pingos de láágrimas formavam cíírculos ao se chocarem contra a tinta que parecia ter sido usada a pouco. Afundou o rosto no travesseiro, os soluçços doloridos ecoando dolorosamente pelo quarto luxuoso, mas que lhe parecia mais vazio do que nunca sem Alice.
***
A criançça era um menino.Quando ele completasse cerca de seis meses de idade, Snape trairia Voldemort e se aliaria a Dumbledore, sendo contratado como professor de Poççõões. Mas a notíícia da loucura da amada definitivamente impôôs um ponto final em sua históória com Alice.
A dúúvida, poréém, haveria de o corroer atéé o úúltimo de seus dias. Se houvesse abandonado Voldemort a mais tempo... Mais uma vez deitara-se para dormir, implorando a Deus que nunca mais despertasse.
***
Nãão tivera âânimo de procurar o garoto atéé entãão. Soubera que ele vivia muito bem com a avóó, nãão estava certo de que seria justo priváá-lo da tranqüüilidade de um lar saudáável e feliz... Onze anos apóós a fuga de Snape, o rapazinho receberia uma carta convidando-o a estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Severo contara os minutos para o exato momento em que se anunciasse um úúnico nome - E o restante do mundo nãão teria mais a míínima importâância, nem mesmo ele próóprio, tudo o que contava era o seu sangue continuando a existir, mesmo que sob o róótulo de um sobrenome alheio.
O Salãão Principal lhe parecia especialmente belo aquela noite, o teto enfeitiççado para que se assemelhasse ao cééu noturno, a iluminaççãão formada por velas encantadas flutuando graciosamente. Respirou fundo, tomando um pequeno susto a cada vez que um nome anunciado nãão era aquele que ele aguardava.
Acontece que Snape nãão tivera coragem de procurar uma foto sequer do menino. Queria vêê-lo pessoalmente, ao vivo. Quando Mac Gonagall desenrolou o pergaminho e pronunciou as palavras que ele queria ouvir, o coraççãão de Snape, outrora péétreo, enterneceu-se encantadoramente.
" Longbottom, Neville ! "
O menino gorduchinho tinha o mesmo rosto e os cabelos castanhos de Alice, reparou. Eram de Severo, poréém, os olhos escuros - Visto tanto ela quanto o marido Longbottom os traziam muito claros. Nãão pôôde mais conter a emoççãão. Tãão discretamente quanto sua dignidade lhe pôôde permitir colheu rapidamente com o indicador uma ou duas láágrimas teimosas que quase lhe escorreram pelo rosto páálido. Ele via a si próóprio no menino esquivo e assustadinho que murmurava de si para si ter medo de ser selecionado para a Sonserina.
" Grifinóória ! " - Gritou o chapééu, para alíívio de Snape. Dumbledore sabia porque ele estava chorando, apertou-lhe o ombro disfarççadamente.
" Tudo bem, Severo? "
" Estou orgulhoso " - Retorquiu - " Muito orgulhoso de ter tido uma criançça perfeita " - Procurou falar em tom que somente ambos ouvissem.
Mas Dumbledore sabia que nãão era apenas orgulho o que Snape sentia. Apesar de definitivamente marcado pela perda da úúnica mulher que amara na vida, estaria condenado a viver sozinho - Pelo menos enquanto nãão pudesse contar ao pequeno como ele e sua mããe se amaram, entãão olharia o rapaz nos olhos e diria: " Muito prazer, Neville Longbottom, eu sou Severus Snape, seu verdadeiro pai. "
FIM