Nome da fic: Pretérito imperfeito.
Autora: Susi A. R. Gil
Pares: Não há.
Censura: livre
Gênero: Drama
Spoilers: Os acontecimentos desta fic ocorrem logo após o final da "Ordem de fênix" e trazem supostas revelações sobre a adolescência de Snape.
Desafio: Esta fic não corresponde a nenhum desafio proposto.
Resumo: Snape se vê obrigado a passar suas férias com Lupin, e pela primeira vez terá a oportunidade de fazer um acerto de contas sobre o que ocorreu na sua adolescência em Hogwarts.
Esta fic faz parte do SnapeFest 2004, uma iniciativa do grupo SnapeFest, e está arquivada no site
http://oxetrem.com/festDisclaimer: Esses personagens são de JKR, eu não quero nem vou ganhar dinheiro com eles.
"Dizem que os amores da juventude se esgotam.
É possível, mas não se esquecem."
Sonia Guralnik
Lupin estava sentado solitário na mesa onde costumava conversar com seu saudoso amigo Black. Lia um livro qualquer sem acompanhar a leitura. Ao perceber sua desatenção, desviou o olhar para a cadeira onde Sirius se sentava durante as refeições.
Começou a relembrar o passado desde o dia em que os dois garotos se conheceram em Hogwarts. Alguns minutos depois, suas lembranças foram interrompidas por um barulho na porta.
Era Snape. Estava apressado e apenas soltou um olhar desdenhoso para Lupin. Atravessou a sala e saiu pela outra porta. O silêncio então foi preenchido pelos passos rápidos de Snape e portas fechando e abrindo. Pouco depois, o professor voltou e perguntou friamente:
Irritado, Snape bufou e dirigiu-se até a sala de estar somente para não ficar sozinho com seu ex-colega. Não demorou muito para que Dumbledore aparecesse.
O diretor chegou com sua sábia tranqüilidade que parecia imutável. Sabia que Snape desaprovava seu atraso, mas que não iria demonstrar isso. Portanto, entrou na sala pedindo desculpas:
- Severo, lamento o atraso. Tive que resolver alguns problemas em Hogwarts de última hora. Tudo ficou muito tumultuado após o ocorrido no Ministério. Mil perdões.
Snape, que havia se levantado, respondeu educadamente:
- De forma alguma, professor!
- Peço que você espere aqui mais um pouco, preciso falar com Lupin antes. Ele está na sala de jantar, sim?
- Sim.
- Com licença, então.
Obviamente, Snape não gostou da idéia de ter que esperar mais um tempo por causa de uma conversa provavelmente banal com Lupin. Dumbledore havia marcado essa reunião há alguns dias e ele não havia entendido o porquê do diretor querer conversar fora de Hogwarts.
O que aparentemente era uma pequena troca de palavras, transformou-se em meia hora de uma conversa aos sussurros. Snape mal ouvia as vozes do outro lado da parede.
Dumbledore e Lupin finalmente saíram da sala de jantar. Lupin passou por Snape e sentou-se em uma poltrona distante. O diretor fez um sinal para que Snape entrasse com ele na sala de jantar e fechou a porta.
Os dois se sentaram à mesa um de frente para o outro. Severo estava com a impressão de que a conversa com Lupin tinha alguma conexão com a sua. Dumbledore foi direto ao assunto:
- Severo, você sabe que sua vida corre perigo...
Snape estremeceu: - Sim, tenho consciência disso.
- O fato de você ter traído Voldemort, nas circunstâncias que vivemos agora...
- Eu sei. interrompeu preocupado.
- Então vamos direto ao ponto: você deve se esconder durante estas férias, talvez nem Hogwarts seja tão segura quanto imagina.
O professor baixou os olhos pensativo.
- Portanto, Severo, você deve passar as férias em um lugar onde nunca ninguém imaginaria.
Snape levantou os olhos.
- Conversei com várias pessoas da Ordem durante esta semana. E todos nós concordamos com um lugar onde você não seria procurado e nós vamos poder manter o contato sem problemas.
- Aonde professor? perguntou temendo a resposta.
- Na casa de Lupin.
Severo riu com ironia. Não acreditava no que tinha ouvido. Além de ter certeza de que corria risco de vida, teria que passar as férias com um inimigo de infância.
- Escute Severo, sei que é difícil de compreender, mas você deve saber que no momento, é o lugar mais seguro...
- Prof. Dumbledore, eu...
- Severo. interrompeu segurando em seu braço não é hora para ressentimentos. O que é mais importante do que sua vida? Quem desconfiaria que você e Lupin estão passando as férias juntos, apesar de pertencerem a Ordem? Todos conhecem sua personalidade forte, Severo, qualquer um acharia que isso não passa de uma piada. E tem mais, na casa de Lupin, poderemos nos comunicar normalmente. E você sabe, devido as condições dele, sua casa é um tanto quanto isolada... Dumbledore então calou-se parecendo procurar outros argumentos para convencer Snape. E além disso, você estará bem protegido, Lupin foi um dos melhores professores de DCAT que tivemos.
- Snape irritou-se com o comentário. Cerrou os lábios e desviou os olhar para o chão. Dumbledore percebeu e disse:
- Você sabe muito bem porque eu não permito que você dê aulas de DCAT. Não vamos mais tocar neste assunto.
O professor voltou a olhar para Dumbledore. Não havia se convencido, mas sabia que não tinha muito o que argumentar. Sabia que o diretor não tomava atitudes impensadas ou mal planejadas. Não teve coragem de dizer "sim", mas seu olhar já demonstrava que não iria mais insistir.
Após um breve silêncio, Dumbledore perguntou:
- E então, Severo?
- Tenho outra escolha?
- Se você quiser se manter seguro, por enquanto não.
Snape suspirou: - Qual a probabilidade de passar todas as minhas férias na casa de Lupin?
- Grande. - respondeu o diretor tranqüilamente. Não é hora para desavenças, a Ordem precisa se fortalecer agora.
- Se não tenho outra escolha, quando irei me mudar? E...ele? Snape virou a cabeça para a direção da sala onde estava Lupin. - Já sabe disso?
- Claro, e aprovou plenamente. Ele é uma pessoa muito solícita. Bem...para evitar que você seja perseguido, seria bom que você saísse de Hogwarts um dia antes do habitual. Para isso, peço que você feche suas notas o mais rápido possível, para poder arrumar suas coisas com tranqüilidade.
Snape continuava olhando para o diretor sem piscar os olhos. O diretor não parava de falar.
- Para desviar a atenção, você irá para Hogsmeade comigo e de lá iremos aparatar na casa de Lupin. Ele não mora muito longe de lá. Suas coisas serão levadas depois. E falando em coisas, não se esqueça da poção do Lupin, é uma forma de retribuir a ajuda.
O professor suspirou: - Ele não está ajudando, está cumprindo ordens suas!
Dumbledore não deu atenção ao comentário: - Irei entrar em contato uma vez por dia em horários diferentes. Precisamos fazer as reuniões da Ordem em locais diferentes, podemos até fazer uma na própria casa de Lupin. Como já disse, a probabilidade de você estar seguro lá é grande. Mas a qualquer sinal de problema, você será transferido imediatamente. E o mais importante: evite sair, se isso for muito necessário, faça somente com o meu consentimento. Na verdade, o ideal é que você não saia de forma alguma. Talvez eu esteja pedindo demais...
O diretor esperou mais um comentário de Snape, mas este permaneceu em silêncio. Ele continuou então:
- Severo, uma última coisa Dumbledore abaixou o tom de voz e deu um ar de importância ao que ia dizer Eu não tenho nada a ver com a sua vida pessoal, mas o ressentimento que você nutre por Lupin, é um tanto quanto infundado. Tenho certeza que no fundo, ele não aprovava as atitudes de seus amigos, mas ele se manteve neutro para não contrariá-los. Potter e Black estão mortos, vocês estão vivos! Não estou dizendo para vocês serem amigos, mas pelo menos tolerem-se. Vocês estão do mesmo lado, e lutam contra o mesmo inimigo, não?
Snape pediu licença e se retirou. Dumbledore continuou sentado pensativo. Estava muito cansado, precisava cuidar de cada um dos membros da Ordem de fênix.
* * *
A notícia caíra como uma bomba para Snape. Ele voltou atordoado para Hogwarts, sem rumo, como se tivesse recebido a notícia da morte de um ente querido. Temia que algum colega encontrasse com ele no corredor e perguntasse: "Você já sabe onde vai passar suas férias?"
Snape realmente não gostava de Lupin. Independente dos acontecimentos do passado, Severo se irritava com a imagem popular que Lupin havia criado entre os alunos. Sabia também que já tinha sido motivo de escárnio em uma de suas aulas. Em um primeiro momento poderia parecer inveja, mas ele simplesmente não apreciava professores muito queridos. Achava que um professor deveria ser apenas respeitado e temido.
O tempo passou voando para o desgosto de Snape. Quando se deu conta disso já estava em Hogsmeade com Dumbledore. Era um ensolarado dia de Sábado. Os dois passeavam pela cidade transparecendo tranqüilidade. O plano era andar mais ou menos meia hora, beber algo no Caldeirão Furado e de lá aparatar na casa de Lupin.
Tudo deu certo. Dentro do tempo planejado, eles aparataram no jardim de inverno da casa de Lupin. Snape olhou para fora e viu que estava em uma rua com casas humildes e pequenas, aparentava ser um lugar tranqüilo. Reparou que as janelas estavam cercadas de grades, o que ele sabia que não era uma forma de se proteger contra ladrões. Tudo era muito simples: havia apenas duas cadeiras, e uma pequena mesa entre elas, com uma caixa de costura fechada a cadeado.
Dumbledore não quis aparatar dentro da casa de Lupin. Snape nem se deu ao trabalho de perguntar o porquê. O diretor bateu à porta, mas ninguém respondeu. A porta estava aberta, eles entraram. Era uma sala pequena, com poucos móveis e nenhum objeto pequeno ou frágil a vista. Havia no ar um cheiro de bolo assando.
- Tem alguém aí? perguntou Dumbledore.
Ouviu-se passos apressados vindo em direção a sala. Snape percebeu que não era Lupin. Em alguns segundos, entrou na sala uma senhora alta, magra com um coque no cabelo. Tinha por volta dos sessenta anos e se parecia muito com Lupin, obviamente era sua mãe. Trajava um vestido marrom surrado e um avental.
- Prof. Dumbledore, quanta honra! Nunca imaginaria que o senhor viria pessoalmente. apertou calorosamente a mão do diretor Por favor, não repare nossa casa!
- Não se incomode, Margareth. Pompa e luxo não medem caráter. É aqui que Snape encontrou abrigo, isso é o que importa. dirigiu seu olhar para Snape este é o Prof. Severo Snape, é quem vocês irão proteger durante as férias. Severo, esta é Margareth Lupin, a mãe de Remo.
Snape apertou sua mão um tanto constrangido. Iria viver de favor na casa dela, e não quis demonstrar indelicadeza.
- É um prazer, conhecê-la. disse secamente.
A mãe de Lupin arregalou os olhos para Snape. Era certo que ela sabia o passado do seu filho em Hogwarts, e que os dois não eram amigos. Ela estava assustada. Retribuiu o aperto de mão e sorriu abertamente. Mas esse sorriso exagerado era um meio de disfarçar sua surpresa.
- Bem, agora que já entreguei Severo a salvo, minha missão hoje está cumprida. Já deixei com todos as orientações. Vocês sabem o que fazer certo? Dumbledore olhou por cima dos óculos para Snape.
- Sim, professor. disse Snape em tom de obediência.
- E onde está Lupin? - perguntou Dumbledore.
- Está vindo, ele teve que descansar um pouco esta tarde. Vocês não aceitam um bolo enquanto ele desce?
Mesmo estando com pressa, Dumbledore acabou aceitando o convite. Era a primeira vez que estava na casa dos Lupin, portanto poderia parecer indelicado. Os três então adentraram a sala de jantar e os dois professores se sentaram à mesa enquanto Margareth dirigiu-se a cozinha. Discretamente, Snape olhou ao seu redor e reparou mais uma vez na simplicidade dos móveis e principalmente no cuidado de guardar todos os objetos dentro de portas com cadeados. Por um momento sentiu pena daquela família.
Dumbledore parecia advinhar os pensamentos de Snape, e quando Margareth voltou para servir a mesa, ele perguntou:
- Ainda precisa trancar tudo, Margareth?
- Hum...é. ela ficara sem graça com a pergunta Faz tempo que não ocorrem acidentes. Ele sempre toma a poção, mas em todos esses anos, eu aprendi a ser prudente, não custa. Já perdemos muita coisa, e ele já se machucou muito. O dia em que ele deixou o faqueiro cair, eu quase tive um enfarto. Mas ele se assustou com o barulho e saiu correndo, foi sorte.
- Severo não irá deixar ele esquecer a poção, não é mesmo?
- Claro. respondeu com frieza.
O diretor mudou de assunto e eles então passaram a falar de receitas de bolos que as mães faziam. No meio da conversa, ouviu-se passos descendo a escada, era Lupin.
Prontamente Dumbledore se levantou e deu um pequeno chute no pé de Snape para que ele fizesse o mesmo. Este levantou-se contrariado. Lupin estava com os olhos cansados, cabelos um pouco alvoroçados, uma camisa totalmente torta. Margareth correu para arrumar a camisa do filho:
- Você está se sentindo melhor, meu filho?
Lupin suspirou e fez sinal positivo com a cabeça. Após sua mãe ter ajeitado sua camisa e seu cabelo, dirigiu-se até Dumbledore:
- Professor?
- Como está Lupin?
- Estarei melhor hoje. virou seu olhar em direção ao calendário que estava na parede.
- Bem, aqui está seu hospede...
Snape e Lupin se olharam com desconfiança. Lupin esticou o braço e Severo apertou sua mão formalmente. Nada disseram.
- Se vocês não se importam, agora eu preciso ir mesmo. disse Dumbledore Agradeço o lanche e a hospitalidade, mas tenho muitas coisas para fazer ainda. Dois estão a salvo. Espero. Dumbledore piscou o olho para Margareth e esta prontamente disse:
- Como o senhor vai embora? disse a mãe de Lupin indicando o caminho da sala.
- Vou aparatar em Hogsmeade, preciso falar com algumas pessoas lá. E quanto a vocês dois. virou-se e encarou Snape e Lupin. até amanhã. Talvez eu fale com vocês no período da tarde. Cuidem-se meninos, senão descontarei pontos de suas casas! Dumbledore riu e saiu.
Os dois se sentaram a mesa sem se olhar. Enquanto Lupin se servia perguntou friamente a Snape:
- Suas coisas chegarão hoje?
- Sim.
- Se precisar de algo antes disso...
- Creio que não. interrompeu.
Nada mais falaram até Margareth voltar. Quando ela apareceu, perguntou gentilmente a Snape:
- Precisa de algo, meu filho?
- Não, obrigado.
- Já que você acabou seu lanche, era bom conhecer o lugar onde vai dormir e o resto da casa. Não quer fazer isso Remo?
Lupin não tinha escolha. Levantou-se e fez sinal com a mão para que Severo o seguisse. Os dois subiram as escadas e seguiram por um pequeno corredor. Lupin abriu a porta do fundo, e fez sinal para Snape entrar. Era um quarto minúsculo para quem estava acostumado com as salas espaçosas de Hogwarts. Havia apenas uma cama e um armário remendado.
- Você irá dormir aqui. É pequeno e simples, na verdade era nossa dispensa. Nós o arrumamos para você, não temos quarto de hóspedes.
- Não tem problema, está bom.
Snape nunca se sentira tão constrangido em toda a vida. Nunca imaginara ser bem acolhido por um inimigo de infância. Ele percebera que o quarto tinha sido até pintado. Não sabia como agir, pois não sabia se Lupin agia assim por ordens de Dumbledore ou por vontade própria.
Após o jantar, as malas de Snape chegaram. Lupin ajudou a carregá-las até seu quarto, sem que Severo pedisse ajuda. Ele nunca pediria.
- Você não precisava se dar ao trabalho de carregar minhas coisas...
- Não foi trabalho. Boa noite! saiu sem olhar para seu colega. Ele deu a impressão de ter ajudado por obrigação.
O dia seguinte era um Domingo e portanto, todos acordaram mais tarde. Margareth mal fez o café da manhã. Deixou o almoço pronto e um bilhete na sala de jantar que dizia: "Irei visitar umas amigas, volto à tarde." Lupin não se surpreendeu com o bilhete, sua mãe nunca passava os domingos em casa, pelo menos quando ele estava são. O problema seria passar o dia sozinho com Snape.
Severo acordou e ao descer as escadas já ouviu a voz de Lupin explicando a situação, como se quisesse poupar seu hóspede de fazer perguntas. Ao final, como Snape já estava na sala de jantar, Lupin virou-se e disse:
- Você não iria perguntar, não é mesmo? Sente-se e sirva-se.
- Os dois almoçaram em silêncio. Quase no final da refeição, Snape disse sem graça:
- Sua mãe cozinha muito bem.
Lupin jogou o garfo no prato e encarando Snape disse:
- Obrigado, Severo.
Novo silêncio.
- Severo, você gostaria de jogar xadrez após o almoço? É seu jogo preferido, não?
- Como sabe? perguntou levantando os olhos.
- Eu me lembro, oras. Quando passávamos por você no salão, estava estudando ou jogando xadrez. Seu interesse até inspirou outras pessoas a jogarem.
Snape levantou a cabeça e o encarou.
- Desconheço isso.
- Desconhece muitas coisas, meu caro. E agora se me dá licença vou retirar a louça.
Lupin arrumou a mesa e Snape continuou sentado pensativo. Após alguns minutos na cozinha, ele voltou para a sala de jantar com o tabuleiro de xadrez. Sentou-se na frente de seu colega e montou o jogo.
- Posso saber quais são as coisas que desconheço?
Remo riu. Seus olhos brilharam e se fixaram em um ponto qualquer da mesa, como se estivessem vendo algo. Propôs então descontraidamente:
- Só conto se você ganhar o jogo. Vamos ver se continua bom mesmo.
Severo fez uma cara feia, mas achou melhor não contrariar o anfitrião. Se aquele era o melhor lugar para ele se hospedar, qual seria o pior? Deu início ao jogo, e após uma longa e complicada partida, ele ganhou. Ao final, ao invés de dizer "Xeque-mate", disse:
- Fui humilhado durante sete anos por você e sua turminha...
- Por mim não....
- Você acatava as atitudes deles, dá na mesma!
- Eles eram meus amigos, eu não poderia contrariá-los, pelo menos na frente dos outros. E nós éramos adolescentes!
- Ah! A velha desculpa. Então devemos perdoar tudo o que as crianças e adolescentes fazem!? Severo estava visivelmente irritado Para que então aplicar penalidades na escola? Vou avisar então o diretor para mudar as regras.
- Então, o fato de eu ter pertencido a uma turma que não ia com a sua cara já é suficiente para você me tratar como inimigo a vida inteira? E nunca me perdoe, mesmo neste momento?
Snape ficou calado, não tinha resposta imediata, continuou fitando Lupin.
- Não entendo você, Severo. Como não consegue perdoar os erros passados das pessoas, se você só está aqui porque alguém perdoou um erro do seu passado!
Severo gelou. Não sabia que Lupin sabia do seu passado, e não queria saber como ele tinha tomado conhecimento.
- Não sei do que você está falando, em todo caso vamos encerrar o assunto por aqui. Com licença. levantou-se, trancou-se no quarto e só saiu quando Lupin o chamou para falar com Dumbledore.
* * *
Aquela última conversa havia causado um clima muito constrangedor na casa. Lupin havia dito para sua mãe que os dois haviam discutido, e Margareth parecia ter repreendido seu filho. Durante três dias, os dois só conversavam o que era extremamente necessário.
Na quarta-feira à noite, após o jantar, Margareth alegou estar com dor de cabeça e se retirou mais cedo, deixando a cozinha sem arrumar. Lupin esperou sua mãe subir as escadas e perguntou a Snape:
- Ajudaria a arrumar a cozinha?
Snape esboçou um sorriso. Há anos não arrumava uma cozinha, e após quase uma semana de hospedagem, sentiu-se em débito com a pequena família que o acolhera, mesmo sabendo quem ele era. Mas seu orgulho não permitiu que ele exprimisse isso, apenas se levantou da mesa e começou a levar as coisas para a cozinha.
Durante o trabalho, Severo queria fazer uma pergunta a Lupin, mas não tinha coragem. As palavras pareciam estar atravessadas em sua garganta. Mas quando tudo terminou, ele criou coragem e sem olhar para o seu companheiro, perguntou:
- Queria entender porque no Domingo você afirmou que eu desconheço muita coisa. Que coisas eu desconheço? Você não me respondeu ainda.
- Adiantaria eu falar? Você não acreditaria em mim...
- Ah, claro! Eu esqueci que sou o grande vilão da história. Além de tudo, agora todos falam a verdade e eu não acredito.
- Severo...
- Olhe aqui interrompeu apontando o dedo para Lupin você faz idéia o que é passar sete anos da vida agüentando um bando de exibidos e ser ridicularizado? Você não sabe o quanto sofri...
- E você sabe o que é passar toda a vida se escondendo, não poder ter um trabalho decente ou construir uma família, por SER UM LOBISOMEM?
Lupin pegou Snape pelo braço e puxou-o até a varanda:
- Vamos ter esta conversa aqui fora. Não quero acordar minha mãe, a noite está muito quente, e nossa conversa vai ser longa.
Snape sentou em uma das cadeiras e encarou Lupin desafiando-o.
- Severo, muitas pessoas também sofreram por causa de você. EM BAIXO DO SEU NARIZ, E SÓ VOCÊ NÃO PERCEBEU!
- Isso só pode ser piada...
- PARE DE SE SUBESTIMAR, SEVERO! Você nunca percebeu que durante todos aqueles anos, havia uma pessoa apaixonada por você, e que se casou com outra para te esquecer?
Snape cerrou os lábios e se recostou na cadeira.
- Nunca percebi, óbvio. Se tivesse percebido...
Os olhos de Lupin se encheram de lágrimas.
- Que idiotice! O que está acontecendo aqui, heim? perguntou irritado Snape se levantando. Prontamente, Lupin se levantou e segurando Snape pelos braços, sentou-o novamente na cadeira.
- Agora você vai ouvir. Eu não quis que você soubesse na época, mas agora você tem a obrigação de saber.
Severo ergueu as sobrancelhas.
- Lílian Evans era apaixonada por você. EU era apaixonado por ela. Tiago queria apenas ficar com ela, mas quando ela viu que você não a correspondia, começou a dar em cima dele, pois sabia que vocês eram inimigos, queria se vingar a maneira dela. E EU FIQUEI A MARGEM DE TUDO, EU SOU ANORMAL, NÃO PODIA ME RELACIONAR COM AS GAROTAS.
Snape emudeceu. Começou a pensar em várias coisas que haviam acontecido no passado, e tentar associá-las com o que Lupin havia dito. Lupin se sentou e aliviado, esperou alguma palavra de Snape. Após alguns minutos, Severo murmurou:
- Ela sempre me defendia quando o Potter me humilhava em público...
- Ela era muito solícita. Quando descobriu minha condição passou a me ajudar, chorei muitas vezes no ombro dela. Era a garota que mais me dava atenção, foi assim que me apaixonei e cheguei a imaginar que era correspondido. Mas não, ela gostava de você, e não se declarava diretamente, pois tinha vergonha de dar em cima do garoto que servia de chacota da turma mais famosa da Grifinória. O que as amigas iriam pensar dela? Um dia, ela se abriu para mim, fiquei com tanta raiva que disse que você não gostava dela, mas ela não confiou em mim, pois sabia que nós não éramos amigos. Mas eu não sei como, ela se desiludiu, algo ocorreu, ou simplesmente ela perdeu as esperanças. Foi então que ela se aproximou do Potter, e ele nessa época, já não era mais aquele adolescente indolente, estava mudado. Bem, o resto você sabe, eles se casaram.
Snape estava cabisbaixo com a mão no queixo, processando tudo o que Lupin falava.
- Sabe, eu tinha inveja de você. Queria saber o que a atraía tanto. Às vezes quando Black e Potter zombavam de você, eu tinha vontade de entrar no meio e gritar: "CALEM A BOCA, COMO OUSAM ZOMBAR O CARA QUE É AMADO PELA GAROTA MAIS LINDA E LEGAL DA ESCOLA?" Nós éramos ridículos. Mas eu preferia ficar quieto. Minha condição fez-me tornar muito prudente. Por isso, Severo, PARE DE BANCAR A VÍTIMA DO PASSADO, você só sabe ver o lado negativo, isso é patético.
- Eu nunca banquei a vítima. Eu não sabia de nada, e NUNCA desconfiei de NADA! Também para seu encargo, eu nunca iria querer nada com a Lílian!
- Ah, claro, desculpe, esqueci que ela era uma sangue-ruim. comentou com ironia.
- Olhe aqui, Remo, não queira jogar a culpa de suas desgraças em mim. Se a garota que você gostava, na verdade queria a mim, isso é lá um problema seu.
- Meu Deus, como sou idiota, falei isso para tentar ajudar você!
- Ora, não me venha com essa conversa agora. Muito fácil, não? Dos seus amiguinhos só sobrou você. Dois morreram e o outro se perdeu como serviçalzinho do Lorde das Trevas...
- Severo, você ainda fala como um...
- CALE A BOCA! Mas...como eu ia dizendo, não tente agora dar uma de bonzinho, já que você perdeu seus amigos e não tem ninguém aqui para desmenti-lo, ou para rir da minha cara.
- Se você não acredita, conheço várias pessoas que confirmam minha versão. Algumas até fazem parte da Ordem.
- Não quero meu nome rodando em rodinhas de fofoca. E tudo isso é passado, não irá alterar em nada o presente.
- Eu só queria que você se sentisse melhor. As pessoas quando descobrem que são amadas, geralmente ficam mais felizes. Parte de sua infelicidade é injusta, são baseadas em coisas de sua cabeça, teorias infundadas que nunca aconteceram.
- E porque você se interessaria em me ver melhor?
- Porque eu sempre admirei você. Só pelo fato de Lílian te amar. E também porque eu não agüento mais uma cara amarrada comendo na minha frente, sem eu ter culpa nenhuma. Enquanto o Aquele-que-não-deve-ser-nomeado está por aí, estou aqui em minha varanda conversando com um inimigo de infância, tentando tornar nossa vida, um pouco mais leve...só isso...
- Seus outros amigos sabiam de toda essa história?
- Tiago não sabia que eu era apaixonado por Lílian, eu não contei pois ele sempre teve uma queda por ela, mas ele a princípio não queria nada sério. Quando descobriu que Lílian gostava mesmo era de você, seu ódio aumentou.
Snape bufou.
- Eu já falei muito por hoje, Severo. Vou dormir. Mas só mais uma coisa: não se esqueça portanto que Harry Potter poderia ter sido seu filho.
- Aquele moleque nunca...
- ...poderia ter sido seu filho. É isso? Boa noite, então. Lupin saiu e deixou Snape pensativo na varanda.
Era por volta das onze horas da noite quando Lupin se recolheu. Severo permaneceu na mesma posição até as duas da manhã. Sua vida em Hogwarts passou toda como um filme diante de seus olhos, como se ele quisesse resgatar algum momento onde Lilian teria demonstrado seus sentimentos. O fato dela sempre defendê-lo, havia passado desapercebido, pois como o próprio Lupin havia dito, ela era uma pessoa muito solícita. Mas conforme ele ia reconstituindo os fatos, via como tudo aquilo fazia sentido com o que seu colega dissera.
Os dois colegas dormiram mal e pouco. Ambos foram acordados pela senhora Lupin:
- Ei, eu sei que vocês estão de férias, mas não são mais adolescentes, vamos acordar então? Por acaso passaram a madrugada trocando figurinhas?
Lupin abriu a porta com uma expressão de sonolência e fadiga que nunca fizera. Encostado no batente da porta, tentando arrumar os cabelos revirados, disse:
- Melhorou mamãe?
- Eu melhorei, mas você está com cara de ressaca. Fez as pazes com seu amigo? A luz na varanda ficou acesa até as tantas, ficaram relembrando os tempos de colégio?
- Bingo!
- Ótimo, então chame-o para o café, pois Dumbledore enviou uma coruja dizendo que precisará de vocês hoje no começo da tarde, e já são dez horas da manhã.
Snape já tinha acordado. Vestira-se e enquanto ouvia a conversa dos dois do lado de fora. Ficou se olhando no espelho como nunca fizera. Olhava no fundo dos olhos, imaginando quantas vezes Lílian havia pensado em estar frente a frente com ele, olhando-o como ele estava se vendo naquele momento. Ajeitou os cabelos, que sempre ouvia falar que eram sebosos, olhou-se de cima em baixo, e arrumou a roupa no corpo. Passou um pouco de perfume e novamente ajeitou o cabelo. Não se lembrava da última vez em que fizera isso, talvez nunca.
Ele não podia afirmar com certeza que Lupin estava certo. Mas suas palavras encaixavam em todos os acontecimentos que se lembrara. Talvez isso não importaria mais. Lílian havia morrido, nada poderia ser mudado. O fato é que a partir daquele dia, Snape passou a se sentir melhor e ter mais cuidados consigo mesmo. Saber que um dia já fora amado por uma garota bonita e admirada, parecia ter causado uma reviravolta em seu modo de pensar e ver as pessoas em sua volta. Severo Snape não era mais aquele menino magricelo e narigudo que durante tanto tempo fora o palhaço da Grifinória. Passou também a ver Lupin com outros olhos, não só pela conversa que tiveram, mas também pelo convívio em sua casa. O fato de ser lobisomem, trazia muito mais tristes conseqüências do que ele podia imaginar.
Para o mundo, ele não mudara nada. Não daria o braço a torcer, continuou com o mesmo ar imponente e misterioso. Os mais próximos haviam percebido que ele passara a usar um discreto perfume, e tinha melhorado a postura. Mas não era nada muito relevante. Lupin sabia que ele havia mudado por dentro, isso bastava. Nunca mais tocou-se no assunto, os dois se deram por satisfeitos. Mas como desejara Lupin, a partir daquele dia, o relacionamento entre os dois se tornou menos conflituoso. Não se tornaram grandes amigos, talvez isso não fosse possível. Mas a guerra de desvio de olhares durante as refeições haviam terminado. Durante esse micro exílio, os dois colegas passaram as noites quentes de verão, jogando xadrez na varanda, quase calados. Entre uma palavra e outra, Snape descobriu que Lílian aprendera a jogar xadrez só para tentar se aproximar dele, e Lupin por sua vez, aprendera para agradá-la. Esta foi a única vez em que o assunto voltou a ser mencionado. Snape então, soltou um comentário que surpreendeu Lupin:
- Que bom que isso aconteceu, se não, não teríamos o que fazer durante as noites.
Lupin soltou um leve sorriso. Sentiu que sua missão estava cumprida.
- Hum...Severo, antes que você ganhe novamente, posso fazer uma pergunta?
- Imagino que deva ser indiscreta. Mate!
- Creio que não. O que você passa no cabelo?
- Essa é milésima vez que me fazem essa pergunta infame. Aposto que você e seus coleguinhas devem ter rido muito dele.
- Mas Lílian achava ele muito bonito!
- Isso é balela!
- Ora, Severo, me poupe! Nunca reparou como algumas alunas mais velhas te olham? Trabalhei um ano lá, e flagrei umas três no corredor olhando para você. E você que está lá há anos nunca se deu conta disso?
Snape quis rir, mas manteve-se em silêncio, arrumando as peças para a próxima partida.
- Pobre de mim, dava aulas com as melhores roupas, e só os marmanjos me seguiam...
- Vai ver é o bigode!
F I M