Nome: A Flor de Cerejeira
Autor: BastetAzazis
Beta-reader: Roxane Norris
Pares: Snape/Sakura – não, isso não é uma piada :P
Censura: NC-17 / Hentai
Gênero: Romance
Aviso: crossover HP/Naruto
Sumário: Dumbledore surpreende Snape no meio do ano letivo com uma tarefa
peculiar, fazendo-o interagir com uma jovem irritante de cabelo rosa. Sakura
descobre que a única esperança para salvar o Sasuke está na Inglaterra, na
figura de um odiado mestre de Poções...
Disclaimer: Naruto e seus personagens pertencem a Masashi Kishimoto. Eu só os
roubei enquanto ele insiste em tirar férias.
Harry Potter e seus personagens pertencem a J.K.Rowling, mas eu achei que eles
mereciam expandir seus horizontes um pouquinho!
Notas: Esta fic faz parte do SnapeFest 2008, uma iniciativa do grupo Snapefest
do Yahoo!grupos.
Como Naruto é atemporal, fixei esta fic no período de novembro de 1990 a março
de 1991, ou seja, no ano letivo anterior à chegada de Harry Potter a Hogwarts.
Enquanto que a linha de tempo no fandom Naruto é logo após o Shippudden,
considerando que o Sasuke estaria de volta a Konoha, e Orochimaru e a Akatsuki
derrotados.
\o/\o/\o/\o/\o/
Capítulo 1: O Velho Louco
O dia estava perfeito. Duas aulas de Poções com os imprestáveis da Lufa-lufa
logo pela manhã. Um frasco de unhas de dragão quebrado, um caldeirão derretido,
cinqüenta pontos a menos no contador da Lufa-lufa e duas detenções. Não havia
melhor maneira de começar a semana.
Mas meus martírios estavam apenas começando. Mal sabia eu que, ao encontrar o
Diretor Dumbledore no almoço, um dia ainda iria suplicar por voltar a ensinar
cabeças-ocas a preparar uma simples Poção Anti-Furúnculos. Ele simplesmente
inclinou-se para o meu lado, enquanto me deliciava com um belo cozido, e pediu
para que o encontrasse em seu escritório logo após as aulas da tarde.
Eu devia saber que aquele velho estava ficando gagá. Mesmo para um bruxo, ele já
estava com a idade avançada. Mas como devia minha liberdade a ele, eu segui até
o escritório do Diretor no final da tarde e, após uma xícara de chá e cookies de
limão, ouvi o que ele tinha a me dizer.
- Eu recebi o pedido de uma velha amiga esta manhã. Uma ninja que conheci quando
procurava reforços para lutar contra Grindewald.
- Uma ninja? – perguntei, quase engasgando com um cookie que desceu atravessado.
- Sim – ele respondeu, fingindo não notar minha estranheza. – O país dela estava
em guerra naquela época também, e assim como eu, ela havia perdido um grande
amigo para as Artes das Trevas.
- Eu não estou muito familiarizado com esse pessoal. Artes das Trevas? Eles
também usam magia?
- Eles preferem chamar de outra forma – ele respondeu, passando a mão pela longa
barba branca. – Mas sim, podemos dizer que eles também usam magia, embora sejam
treinados de maneira diferente e não precisam de uma varinha.
Eu coloquei a xícara de chá vazia sobre seu pires na mesa e me recostei na
cadeira. Ainda não fazia idéia do quanto aquele velho era maluco.
- Mas eu não pedi para você vir aqui para conversamos sobre o passado – ele
continuou. – Esta amiga é a chefe da sua vila hoje, e me mandou uma águia
mensageira pedindo por ajuda.
- Águia? O que há de errado com as corujas? – perguntei, mal-humorado. Acho que
já estava desconfiando que aquele pedido de ajuda me traria problemas.
O velho soltou um longo suspiro e me considerou com um olhar reprovador. Eu
simplesmente levantei uma sobrancelha, convidando-o a continuar.
- Ela é uma das melhores médicas que conheço, mas parece que está com problemas
com um rapaz da sua vila. Um jovem que, como você, foi tocado pelas Artes das
Trevas e agora luta para se libertar.
Então era isso. Mais uma vez ele me jogava na cara minha antiga aliança com o
Lorde das Trevas. Eu me perguntava como aquele velho imaginava que eu esqueceria
do período mais obscuro da minha vida, se ele vivia me recordando daquilo.
- Ela me pediu para mandar o melhor mestre de Poções que conheço para Konoha –
Dumbledore continuou. – Eu imaginei que você gostaria de deixar seus alunos por
um tempo e se engajar num projeto mais desafiador.
Aquele velho imbecil... Ele sabia mesmo como massagear o ego de um sonserino. E
conhecer uma nova terra... Como foi mesmo que ele chamou aquele lugar? Na certa
haveria uma gama de novos ingredientes, novas técnicas... Eu não era muito
familiarizado com essa gente, mas qualquer dono de botica sabia que os ninjas
eram os maiores especialistas em venenos e seus antídotos. Eu podia aprender
muita coisa com essa tarefa.
- Konoha, você disse? – perguntei, começando a me interessar. – Eu nunca ouvi
falar desse lugar.
- Sim, Konoha – ele assentiu. – A Vila Oculta da Folha. É um lugar secreto,
escondido nas florestas do País do Fogo. Não há nenhum tipo de acordo
diplomático entre o Senhor do País do Fogo e o Ministério da Magia, portanto,
essas suas pequenas férias deverão ficar em segredo.
Dumbledore parecia estar falando grego. Vila da Folha? País do Fogo? Aquelas
pessoas não tinham uma imaginação melhor para dar nome às suas cidades e países?
E como aquele velho gagá imaginava que eu manteria em segredo uma viagem em
pleno ano letivo? Quem daria as aulas no meu lugar? E como ele explicaria minha
ausência aos meus alunos?
- Eu sei o que você está pensando – ele interrompeu meus pensamentos, os
olhinhos azuis brilhando por trás daqueles óculos cafonas. – Você deve ir a
Konoha apenas para se inteirar do caso e trabalhar aqui, em Hogwarts. Eu o
substituirei em suas aulas enquanto você estiver ocupado com o caso deste rapaz,
e tenho certeza que a Papoula confirmará que você foi acometido de uma grave
doença e está em tratamento nos seus aposentos quando precisar se ausentar.
- Humf! – bufei. – Você já tinha seu plano todo arquitetado antes mesmo de eu
dar o meu aval.
O desgraçado apenas sorriu, os olhos brilhando com ainda mais intensidade.
- Eu sabia que podia contar com você, Severo. Mais chá?
- Não, obrigado – respondi. – Quando devo partir?
- Eu já providenciei uma chave de portal. Tsunade está esperando que você
apareça no escritório dela a qualquer momento.
- Quem?
- A amiga de quem lhe falei. O nome dela é Tsunade. Ela é a Hokage, ou seja, a
ninja mais poderosa do País do Fogo. Espero que você a trate com o devido
respeito.
- Claro – resmunguei.
- E há ainda mais uma coisa.
Claro, sempre há algum detalhe sórdido que o Dumbledore deixa para revelar
apenas na última hora.
- A aprendiz da Tsunade deve voltar para a Inglaterra com você. Ela ficará em
segredo aqui em Hogwarts até vocês encontrarem uma cura para o tal rapaz.
- O quê? – esbravejei. – Como você espera que eu trabalhe num antídoto para algo
totalmente desconhecido e relacionado com as Artes das Trevas com uma aprendiz
sei lá de quem no meu pé?
- Acalme-se, Severo – ele respondeu calmamente, como se não visse nenhum
problema naquilo. – Você precisará da ajuda de uma médica ninja nas questões
relevantes à cultura deles e à forma como eles utilizam a magia, ou chakra, como
preferem chamar.
Eu cruzei os braços e fiz uma careta, deixando bem claro que não gostava daquela
idéia. Mas o Dumbledore até tinha razão, eu não conhecia nada sobre ninjas, nem
ao menos fazia idéia de como alguém poderia usar magia sem canalizar sua energia
através de uma varinha. Na verdade, estava até me interessando por aquele
pessoal, mas é claro que não confessaria isso ao velho tolo.
- Está bem – resmunguei, fingindo-me contrariado.
- Excelente! – ele exclamou, levantando-se da sua mesa. – Aqui está a chave de
portal. Ela deve ativar em torno de dez minutos.
Eu peguei a garrafinha de cerâmica que ele me passou e a destampei, cheirando o
seu conteúdo.
- Saquê? – perguntei, franzindo a testa.
- Não seria elegante chegar lá sem um presente – Dumbledore respondeu com uma
piscadela. – E nada melhor que um bom saquê para acalmar os ânimos da velha
Tsunade...
Capítulo 2: A Idéia da Hokage
- Sakura-san... – uma voz me despertou da vigília incessante sobre o corpo do
Sasuke. Ele estava há uma semana internado no hospital, o selo do Orochimaru
tomando conta do corpo dele de uma maneira incontrolável. – A Tsunade-sama pediu
para você ir ao escritório dela imediatamente.
Eu olhei em dúvida da enfermeira parada na porta do quarto para o corpo
inconsciente dele.
- Mas eu não posso deixá-lo sozinho – respondi ao olhar indagador dela.
- Sakura-san... Você não sai deste quarto há uma semana. E isso não é motivo
para desobedecer uma ordem da Hokage.
Ela tinha razão. Por mais que eu quisesse continuar ao lado do Sasuke, não podia
ignorar um chamado da minha mestra e Quinta Hokage.
- Você fica aqui até eu voltar? – perguntei, preocupada.
- Claro – ela assentiu com um sorriso.
Quando saí do quarto, ainda podia sentir o olhar de reprovação dela. Eu sabia
que ela não ficaria muito tempo no quarto, apenas eu ainda tinha esperança de
salvá-lo daquela maldição.
Atravessando as poucas quadras que separavam o hospital do escritório da Hokage,
eu podia sentir os olhares de pena sobre mim. Eu sabia o que todos em Konoha
pensavam, que eu era uma coitada, sofrendo por amor a um foragido que jamais me
considerou. Mas eu fingia ignorá-los e dizia para mim mesma que eles não
conheciam o Sasuke como eu o conhecia, que um dia ele ainda entenderia o quanto
eu o amava e me amaria também. Eu só precisava achar uma cura para aquele selo
que ainda tomava conta dele.
- Sakura, pode entrar – ouvi a voz da Hokage de dentro do escritório assim que
bati na porta.
- Você mandou me chamar, Tsunade-sama? – perguntei assim que entrei.
- Sim – ela respondeu. – Eu entrei em contato com um velho amigo inglês, diretor
de uma escola muito renomada no país dele, e ele acha que pode nos ajudar com o
caso do Sasuke.
Meu coração se encheu de esperança. Eu nunca soube que a Tsunade-sama tinha
amigos de tão longe, mas ela rodou por vários cantos do mundo antes de voltar a
Konoha, então isso não parecia estranho. E o fato de que havia alguém que
pudesse nos ajudar sobrepunha qualquer indagação sobre o passado da minha
mestra.
- E quando ele vem para cá? – perguntei, ansiosa por mais informações.
- Mais cedo do que você imagina – ela respondeu com um sorriso que não consegui
decifrar. – Mas antes é preciso que você entenda uma coisa, Sakura.
Eu apenas levantei uma sobrancelha.
- Este meu amigo vai enviar um especialista em poções, mas ele não é um ninja. É
um bruxo.
- Um bruxo? – repeti, espantada. Não sabia que a Tsunade-sama conhecia bruxos,
muito menos que eles podiam nos ajudar.
- Sim – ela continuou. – Eles têm uma maneira diferente de canalizar o chakra,
intensificando-o com o auxílio de uma varinha mágica. E bruxos especialistas em
poções ainda podem usar esse chakra, que eles preferem chamar de magia, para
auxiliar na combinação de diferentes ingredientes e chegar à criação de
antídotos mais rapidamente que com os pergaminhos que usamos.
Eu estava abismada. Nunca ouvira falar em usar o chakra para a criação de
antídotos. A esperança em meu coração de encontrar uma cura para o Sasuke
crescia a cada palavra ouvida da Tsunade-sama.
- Entretanto, este bruxo pode precisar de ajuda para entender como utilizamos o
chakra. E como ele não tem conhecimento de jutsus médicos, vai precisar de uma
médica ninja para administrar o antídoto no Sasuke.
- E você quer que eu auxilie este bruxo? – perguntei, torcendo para que
estivesse certa.
- Sim.
A resposta fez meu coração palpitar, mas de alegria. Eu estaria, finalmente,
trabalhando ativamente para ajudar o Sasuke.
- Você deverá voltar para a Inglaterra com ele, depois que ele tomar
conhecimento do caso – Tsunade explicou.
- Voltar para onde?
- Inglaterra – Tsunade repetiu. – Você ficará no Castelo de Hogwarts, onde
trabalhará no antídoto ao lado deste bruxo que está para chegar.
- Mas... mas... – Eu fui pega de surpresa, não imaginava que precisaria deixar
Konoha para trabalhar na cura para o selo. – E quem vai cuidar do Sasuke-kun?
Tsunade me encarou com um olhar reprovador, mas não teve tempo de me repreender.
No mesmo instante, uma luz começou a brilhar no centro do escritório e, logo em
seguida, um homem apareceu no mesmo lugar.
Eu o considerei com curiosidade. Não conhecia muito sobre bruxos, mas um jutsu
capaz de transportar uma pessoa por uma distância tão grande só poderia ser
feito por alguém muito poderoso. Naquele momento, eu tive a certeza que ele
seria capaz de nos ajudar.
Mas depois de considerá-lo por alguns minutos, senti um arrepio cruzar a
espinha. Ele me encarou com aqueles olhos... Pretos, distantes, inexpressivos...
Eram os olhos que eu sempre via no Sasuke. E a expressão dele era de indiferença
também, analisando friamente o local onde aparecera, como se estivesse
calculando cada detalhe.
- Você deve ser o Snape Severo – eu ouvi a voz da Tsunade. - Dumbledore-san me
falou muito bem de você.
oOoOoOoOo
* Jutsu: é um termo japonês para técnica ou habilidade. Na série Naruto, Jutsu é
considerado qualquer técnica ninja que um ser humano dificilmente poderia
aprender naturalmente.
Capítulo 3: O Selo das Trevas
Assim que a chave de portal começou a brilhar, eu a toquei. A última coisa que
vi foi o sorriso aprovador do Dumbledore enquanto eu desaparecia da frente dele
para parar no meio de um escritório bem mais rústico. Duas mulheres me encaravam
assim que cheguei ao meu destino. A primeira, que me chamou mais atenção, tinha
o cabelo rosa... Sim, eu torci o nariz quando vi aquilo. O que, em nome de
Merlin, fazia uma mulher pensar que poderia ficar mais bonita com o cabelo
daquela cor? Com certeza, tratava-se de alguma cabeça-oca romântica inútil, e eu
torci silenciosamente para que essa não fosse a tal aprendiz que teria que levar
comigo de volta para Hogwarts.
Mas meus olhos escureceram ainda mais quando desviei a atenção dos cabelos dela
para o rosto. Olhos verdes enormes me encaravam de volta. Olhos verdes...
atentos, curiosos, esperançosos... Não! – exclamei para mim mesmo. Ela está
morta! Morta! Por sua culpa...
- Você deve ser o Snape Severo – uma voz estranha me resgatou das minhas
lembranças. - Dumbledore-san me falou muito bem de você.
Era a outra mulher. Não pude deixar de notar os seios fartos antes de subir os
olhos para o rosto dela. Aquele velho viado não deixava de me surpreender...
Mas, quando parei para analisar as feições dela, levei um susto. Era uma mulher
muito bonita, loira, olhos castanhos... mas aparentava ter a minha idade. Não
podia ser ela a tal amiga de Dumbledore.
- Eu... er... – comecei, um pouco constrangido. – Fui enviado pelo Diretor
Dumbledore para oferecer minha ajuda à Hokage.
- Sim – a loira respondeu com um sorriso. – Então você é o mestre de Poções que
Dumbledore-san me falou. Seja bem-vindo a Konoha.
Sem saber ao certo como agir, eu fiz uma reverência e, assim que voltei à
posição ereta, perguntei:
- Eu gostaria de tomar conhecimento do caso o mais rápido possível. Se o tal
rapaz está dominado por Artes das Trevas, não podemos perder tempo, ou os danos
serão irreversíveis. Onde está a Hokage?
A loira soltou uma gargalhada espalhafatosa. Eu não entendi nada e me virei para
a garota de cabelo rosa, com um olhar indagador. Ela parecia um pouco assustada,
e confusa também. Quando ela finalmente entendeu que eu precisava de ajuda,
apontou discretamente para a loira, e eu pude ler a palavra “Hokage” saindo dos
lábios dela.
- Ah... er... me desculpe – foi a única coisa que consegui balbuciar, me odiando
internamente por ter concordado com as idéias malucas de Dumbledore. – Eu não
sabia...
- Não se preocupe! – ela respondeu. – O Dumbledore-san não deve ter lhe falando
sobre meu genjutsu. Aposto que você esperava uma velhinha de cabelos brancos
como ele, não é mesmo?
Eu simplesmente continuei olhando para ela, estupefato. Não entendia nada do que
ela estava falando. Gen- o quê? Estava começando a suspeitar que aquela tarefa
seria mais desafiadora do que imaginava.
- Agora me passe esse saquê – ela ordenou. – Um dia eu ainda vou descobrir como
aquele velho consegue um saquê tão bom vindo da Inglaterra...
Ela praticamente tomou a garrafa da minha mão e tomou uma dose de um gole só. Eu
nunca entendi como alguém poderia preferir aquela bebida no lugar de um bom
uísque de fogo, mas já estava me acostumando à idéia de ser surpreendido por
ninjas.
Quando a Hokage já estava indo para a quinta dose, a menina cor-de-rosa – Eu
mencionei que não apenas o cabelo dela, mas todas as suas roupas eram em
diferentes tons de rosa? – resolveu me ajudar:
- Er... Olá! Meu nome é Haruno Sakura. A Tsunade-sama me encarregou de ajudá-lo
enquanto estiver em Konoha.
Eu agradeci por aqueles olhos verdes que me observavam com atenção. Pelo menos,
a garota cor-de-rosa agora tinha um nome e parecia mais normal que a chefe dela.
- Muito prazer, Srta. Haruno – respondi, com um leve aceno de cabeça. – Se
possível, eu gostaria de ver o rapaz. Como disse antes, é melhor não perdermos
tempo.
Os olhos dela se iluminaram. Era minha impressão, ou havia mais alguma coisa
entre ela e o tal rapaz?
- Isso mesmo! – a voz da Hokage soou do outro lado da sala, enquanto ela se
servia de mais uma dose de saquê. – Vão para o hospital e, assim que tiverem
alguma novidade, podem me avisar.
A tal Srta. Haruno me conduziu para fora do escritório e pelas ruas da sua vila
até o hospital onde deveríamos encontrar o tal rapaz. Silenciosamente, eu
observava a paisagem em volta. As casas eram um tanto diferentes das casas
bruxas ou trouxas da Inglaterra, mas as pessoas pareciam as mesmas.
Cumprimentavam a garota cor-de-rosa com uma cordialidade disfarçada e me
consideravam com um olhar inquisidor, embora não ousassem nos parar para
perguntar quem eu era.
Quando chegamos ao hospital, os olhares inquisidores continuaram nos perseguindo
até que entramos no quarto do paciente da Srta. Haruno. Ele estava deitado na
cama e coberto até a cintura por um lençol. Haviam manchas negras espalhadas por
todo o corpo dele, e o rapaz se debatia muito, embora parecesse inconsciente.
- Sasuke-kun!
A Srta. Haruno correu até o rapaz, que pelo jeito chamava-se Sasuke, e pousou
uma das mãos na testa dele. A outra mão ela colocou no ombro esquerdo dele, mais
ou menos na altura do pescoço. Um brilho azul começou a sair das mãos dela, e as
manchas no corpo do rapaz pareceram perder a força, fazendo-o se acalmar.
Eu observei admirado. Ela realmente podia usar magia sem uma varinha, acumulando
sua energia apenas nas mãos. E ainda, ela conseguia usar essa energia para
controlar o avanço de uma magia das trevas sobre o corpo de uma pessoa. Aquela
jovem devia ser um prodígio entre seus companheiros.
- Nós já tentamos diversas técnicas de cura – ela disse assim que suas mãos
voltaram ao normal, ainda observando atentamente o rapaz deitado na cama. – Mas
nada parece ser capaz de eliminar esse kinjutsu definitivamente – completou, com
um tom de melancolia na voz.
- Kinjutsu? – perguntei, franzindo a testa.
Ela assentiu com a cabeça e acenou para que me aproximasse. Quando parei ao lado
dela, ela apontou para uma marca entre o pescoço e o ombro esquerdo dele, o
mesmo local que ela estivera tratando com magia antes. A forma era totalmente
diferente da Marca Negra enfraquecida no meu antebraço depois de quase dez anos
do desaparecimento do Lorde das Trevas, mas pela maneira como marcava a pele,
parecia que as duas marcas tinham origens semelhantes. Kinjutsu, provavelmente,
era a maneira como eles chamavam as Artes das Trevas, concluí.
- Você sabe como ele recebeu essa marca? – perguntei.
Ela assentiu com a cabeça. Apontando com o braço para uma poltrona, ela indicou
que me sentasse e começou a contar a história do rapaz, o qual eu estava
incumbido de salvar a vida. A história dele não era muito diferente da minha.
Cego pela sede de poder, embora por causas diferentes, ele abandonou os únicos
amigos para seguir um ninja, um tal de Orochimaru, que não me parecia muito
diferente do Lorde das Trevas. Ao lado deste ninja, ele desenvolveu suas
técnicas de maneira inigualável por causa daquela marca, ou selo, como a Srta.
Haruno chamava. Depois de muitas perdas – sempre há perdas – ele voltou para a
vila. Mas com a morte do ninja que lhe deu aquele selo, sua saúde começou a
piorar, até que foi totalmente dominado pelas Trevas, e mantinha-se inconsciente
desde então.
Se eu ainda estava incerto com aquela tarefa, pensando apenas na experiência
inigualável que ganharia com aquilo, agora eu tinha mais uma motivação para
continuar com a idéia maluca de Dumbledore. Eu também queria me livrar da Marca
Negra. Ela estava praticamente invisível no meu braço, mas eu sabia que ela
ainda existia; sabia que se um dia ele voltasse, ela também voltaria a arder e
brilhar sob minha pele.
Entretanto, ainda estava incomodado com a idéia de ter aquela garota vestida de
cor-de-rosa ao meu lado enquanto trabalharia num antídoto. Não foi à toa que
aqueles olhos verdes me hipnotizaram a primeira vez que os vi. Ela tinha os
mesmos olhos da Lílian. E não eram apenas os olhos, mas tudo o que eles
passavam... os sorrisos tristes, o desapontamento com o amigo, a atenção com que
me recebera. Tudo me fazia lembrar da Lílian nas diferentes fases que eu a
conheci.
Silenciosamente concluí que, para chegar à cura daquele selo das Trevas, teria
que dar um jeito de afastar aquela garota de mim. Mas isso não seria problema,
afinal, eu era o temido Prof. Snape, mestre de Poções e Chefe da Sonserina, não
era?
oOoOoOoOo
* Genjutsu: tipo de jutsu que manipula o chakra para atingir o sistema nervoso
do adversário, confundindo e enganando os cinco sentidos (paladar, olfato,
visão, audição e tato) para assim criar ilusões.
* Kinjutsu: jutsus proibidos por inúmeras razões, normalmente pelo criador ou
pela autoridade de um vilarejo Ninja (Vila Oculta). Normalmente, o efeito desses
jutsus são milagrosos, como a regeneração instantânea e a ressurreição, porém o
preço que o usuário deve pagar para fazê-lo é algo inaceitável. Outra razão da
proibição seria pela maldade que ele gera.
Capítulo 4: Hogwarts
Eu passei o resto do dia contando ao Snape-sensei todos os detalhes sobre aquele
dia na floresta, quando o Orochimaru colocou aquele selo maldito no Sasuke-kun.
Depois, mostrei a ele nossas estufas e todos os estudos e tentativas frustradas
que eu e Tsunade-sama havíamos realizado até ele chegar. Ele analisou tudo
atentamente e, juntando amostras de nossas ervas e outros ingredientes usados em
antídotos e venenos, decidiu que já podia voltar para sua terra.
Eu ainda estava apreensiva de deixar o Sasuke sozinho no hospital, mas se ir com
aquele homem era a única maneira de salvá-lo, despedi-me dos meus pais e segui
para o escritório da Hokage, onde deveríamos nos encontrar para partir.
Foi a viagem mais estranha que fiz em minha vida. Eu já tinha visto o Sasuke-kun
e o Kakashi-sensei se movimentarem tão rapidamente que davam a impressão que
eles desapareciam no ar, mas aquele bruxo me fez desaparecer literalmente de
Konoha. Foi um pouco embaraçoso quando ele me abraçou, nossos corpos ficaram tão
próximos que eu podia sentir o cheiro dele, e aquilo me fez sentir um frio
estranho na barriga. Entretanto, no segundo seguinte eu sentia meu corpo inteiro
sendo puxado, e quando abri os olhos, ele já se afastava de mim, e descobri que
estava parada num lugar que nunca havia visto antes.
- Severo! Imaginei que você chegaria em breve – um senhor de cabelos e barba
brancos e compridos exclamou. – Como foi sua estadia no País do Fogo?
- Dumbledore – o Snape-sensei o cumprimentou com um aceno de cabeça -, esta é a
Srta. Sakura Haruno, a aprendiz da Hokage que veio para me ajudar com o
antídoto.
- Ah! – O senhor levantou de sua mesa e parou na minha frente, cumprimentando-me
com uma reverência. Eu repeti o gesto dele em respeito. – Muito prazer,
Sakura-san. Espero que aprecie o Castelo de Hogwarts.
- Eu e a Tsunade-sama ficamos muito gratas pelo senhor ter concordado em nos
ajudar – respondi. – Vocês são a nossa última esperança.
Os olhos azuis dele pareceram brilhar por trás das lentes em forma de meia-lua
dos óculos que ele usava. Eu me senti totalmente familiarizada com aquele bruxo,
ele transmitia uma paz e uma confiança que fizeram meu coração ter a certeza de
que eu sairia dali com uma cura para o Sasuke. Um sorriso sincero se formou no
meu rosto.
- Ah... a Princesa Tsunade! Como gostaria de encontrá-la novamente – ele disse,
com um enorme sorriso no rosto. – Mas deixe-me apresentar. Eu sou Alvo
Dumbledore, Diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. É um prazer tê-la
aqui conosco, Srta. Haruno, e saiba que eu jamais poderia recusar um pedido da
Tsunade. Será um prazer poder ajudá-las.
Um pigarro seco do Snape-sensei nos fez virar para a direção dele. Ele parecia
muito mal-humorado e o seu olhar, mais sombrio que quando o vi pela primeira
vez. Aquilo fez um arrepio cruzar minha espinha...
- Agora que já estão todos devidamente apresentados, como você pretende explicar
a presença dessa garota em Hogwarts, Alvo? Ela não tem mais idade para ser uma
aluna, mas ainda é muito jovem para se passar por uma professora.
- Cada coisa ao seu tempo, meu rapaz – o Diretor Dumbledore respondeu. Ele
acenou para que nos sentássemos nas poltronas em frente à lareira e, depois de
eu ver com os meus próprios olhos um bule e xícaras de chá aparecerem apenas com
um aceno da varinha dele na mesinha de centro, continuou: - Acredito que a Srta.
Haruno precise de um tempo para se recompor. Ainda me lembro da primeira vez que
aparatei, foi um susto e tanto... – ele disse, piscando para mim e oferecendo
uma xícara de chá.
Realmente, eu ainda me sentia um pouco zonza com aquela viagem. Aceitei o chá
que me foi oferecido com prazer, mas assim que o experimentei, me arrependi. Era
uma bebida estranha, misturada com leite e açúcar, e que me fez perceber que eu
teria que me adaptar a muitas coisas naquele lugar tão diferente de Konoha.
- Será que agora que a Srta. Haruno já está descansada – o Snape-sensei começou,
sem esconder o sarcasmo e recusando a xícara que lhe foi oferecida – você pode
nos explicar como pretende que essa loucura continue?
O Diretor Dumbledore ainda fez aparecer um prato cheio de doces e os ofereceu
para mim antes de responder ao professor.
- Ora, isso é óbvio, não é? Ela está aqui como sua aprendiz, então nós diremos
que a Srta. Haruno é uma aluna de medibruxaria de intercambio, e está em
Hogwarts para fazer um estágio em Poções Medicinais com você, meu caro.
- Uma aluna de intercâmbio? Em Hogwarts? – o Snape-sensei repetiu as palavras do
Diretor com um tom irônico. – E desde quando Hogwarts recebe alunos de
intercâmbio?
- Ora, Severo – o Diretor Dumbledore respondeu com um largo sorriso no rosto,
como se estivesse se divertindo com a fúria do outro homem. – St. Mungus não tem
nos enviado aprendizes nos últimos anos porque todos eles parecem ter um certo
receio do nosso mestre de Poções...
Meus olhos correram do Diretor Dumbledore para o Snape-sensei enquanto eu
pensava se deveria me preocupar com o que ele acabara de dizer.
- Entretanto, Srta. Haruno – o Diretor Dumbledore continuou, virando-se para mim
–, quando eu apresentá-la para a escola amanhã, direi que a senhorita veio do
Japão. É o país mais próximo da sua cultura que tem algum tipo de relações
diplomáticas com o nosso Ministério da Magia.
Eu assenti com a cabeça. Como ninja, fui preparada para me passar por diferentes
papéis, e fingir que era uma bruxa aprendiz de um país distante seria apenas
mais um subterfúgio para cumprir minha missão.
- Excelente! – o Diretor Dumbledore exclamou. – Vou pedir para Minerva levá-la
ao Beco Diagonal amanhã cedo para vocês providenciarem vestes bruxas, e a tarde,
vocês dois já podem começar a trabalhar.
Eu respondi com um sorriso, enquanto o Snape-sensei apenas bufou da sua
poltrona. E mais uma vez eu me assustei ao observá-lo; era como se estivesse
vendo o Sasuke quando eu e o Naruto fazíamos alguma brincadeira que ele não
gostava...
oOoOoOoOo
No dia seguinte, eu conheci a Profa. Minerva McGonagall, e nós tivemos uma manhã
agradável no tal Beco Diagonal. Eu ganhei vestes bruxas e até uma imitação de
varinha, para deixar meu disfarce mais convincente. Enquanto andávamos pelas
ruas, ela me explicava vários detalhes sobre o mundo bruxo, medibruxaria e
Hogwarts.
Aquilo me deixou mais aliviada quanto ao meu papel em Hogwarts. Afinal, concluí
que, de certa forma, eu era realmente uma estudante de medibruxaria e estava
mesmo passando por um estágio com o Prof. Snape – como eles chamavam seus
mestres na Inglaterra.
O mais difícil foi entender toda hierarquia em Hogwarts. Os alunos eram
divididos em diferentes Casas, cada uma com características diferentes. E
parecia que havia uma rivalidade enorme entre cada Casa, que competiam entre si
por pontos dados nas aulas e disputados num jogo estranho com vassouras
voadoras. Quando voltamos ao castelo, eu me peguei observando o brasão da
escola, onde aparecia o símbolo de cada casa. Não pude deixar de me perguntar a
que Casa eu pertenceria... O Naruto provavelmente seria da Grifinória – a Casa
dos corajosos e puros de coração – e, olhando para o símbolo da Sonserina – uma
cobra – não pude deixar de pensar no Sasuke mais uma vez: era a Casa daqueles
que não mediam esforços para atingir seus objetivos e, segundo a Profa.
McGonagall, a que mais originou bruxos das trevas...
- O Prof. Snape é o Chefe da Sonserina – a voz da Profa. McGonagall ainda
ressoava em minha mente. Eu estava começando a ficar incomodada com as
semelhanças que encontrava entre eles.
Mas meus receios foram repentinamente interrompidos pela voz de uma garota,
aluna de Hogwarts.
- Eu adorei o seu cabelo! Você também é uma metamorfomaga?
Eu me virei para ela. Nós devíamos ter quase a mesma idade, ela vestia as vestes
da Lufa-lufa e sua característica mais marcante era o cabelo amarelo e preto –
as mesmas cores da Casa dela.
- Metamorfomaga? – perguntei, confusa.
- É... – ela respondeu, colocando um dedo no nariz e fazendo-o mudar de forma.
Eu olhei espantada, então ela continuou: - E eu posso mudar a cor do meu cabelo
também... Já estou enjoada destas cores, e adorei esse seu rosa!
- Er... Obrigada – respondi, tentando fingir que estava acostumada com aquilo.
- O meu nome é Tonks – ela continuou, estendendo uma mão para mim. – E todos nós
achamos que você foi muito corajosa em escolher o Morcego Seboso como mestre.
Olhei em volta, mas não havia ninguém com ela. O Diretor Dumbledore tinha me
apresentado para todos os alunos da escola durante o almoço. Ela estaria falando
em nome da escola inteira?
- Bem, eu tenho Feitiços agora. Boa sorte com o Morcegão e, se precisar de uma
amiga aqui em Hogwarts, pode me procurar – ela concluiu com uma piscadela,
enquanto subia as escadas para a sua aula.
Eu estava sozinha de novo, e estava atrasada. Desci correndo para as masmorras,
onde ficava o laboratório no qual iria trabalhar, sem tempo para refletir sobre
o que os alunos pareciam pensar sobre o Prof. Snape.
Capítulo 5: Uma Lição Sobre Ninjas
Para explicar minha ausência em Hogwarts no dia anterior, Dumbledore e Papoula
confirmaram que eu estava acamado, e as aulas de Poções foram ministradas pelo
Diretor. Eu não podia imaginar o quanto me divertiria com esta pequena
intervenção até ver a cara de desapontamento dos meus alunos grifinórios quando
apareci totalmente recuperado na aula do dia seguinte.
A aula da manhã levantou meu humor para o trabalho árduo que começaria à tarde.
Eu estava catalogando cada uma das ervas que havia trazido de Konoha, mas
precisava da Srta. Haruno para elucidar as características de cada uma delas. E
claro, minha nova e não requerida assistente estava atrasada.
Levantei os olhos por um simples instante da bancada onde dispus todos os novos
ingredientes quando percebi um ponto cor-de-rosa no meio do laboratório escuro.
Por Merlin! Ela não tinha saído com a Minerva para comprar vestes novas? Será
que não podia escolher uma cor diferente? Mais discreta?
- Você está atrasada – foi o que disse, seco.
- Me desculpe – ela respondeu baixinho.
- Da próxima vez – continuei, ignorando as desculpas dela –, bata na porta antes
de entrar. Eu nem ouvi você se aproximar.
- Me desculpe – ela respondeu de novo, mas desta vez a voz dela soou quase do
meu lado. – Nós, ninjas, somos treinados para permanecer desapercebidos.
Eu tive que usar todo meu autocontrole para não pular de susto quando me virei
na direção em que a voz dela soava. Sem eu perceber que ela se movera,
encontrei-a parada ao meu lado, a centímetros de distância, com um sorriso
irritante no rosto. Ninjas... Aquilo já estava começando a me incomodar mais
cedo do que eu imaginava.
- Eu preciso da sua ajuda para terminar de catalogar estes ingredientes – disse,
fingindo não estar surpreso com a encenação dela. – Eu não sei quais são as
propriedades de cada um deles, ou como são utilizados em poções.
Ela assentiu com a cabeça. Em seguida, pegando um pequeno galho de cerejeira,
quase que totalmente recoberto com suas flores cor-de-rosa, começou sua
explicação:
- Este é bem fácil. Nós chamamos estas flores de sakura.
Ela parou por um instante, provavelmente para analisar minha reação. Por acaso
era para eu achar aquilo engraçado? Eu simplesmente levantei uma sobrancelha,
esperando que ela continuasse.
- Ela representa a natureza em transição... e a brevidade da vida de um shinobi.
Não tem nenhuma propriedade terapêutica em si, mas...
Eu deixei de anotar o que ouvia e me virei bruscamente para ela.
- Nenhuma propriedade terapêutica? – interrompi a explicação dela rispidamente.
– Por que estamos perdendo tempo com esta flor idiota, então?
Os olhos verdes se arregalaram, e ela deu um passo para trás. Ótimo. Meu plano
de afastá-la parecia estar dando certo. Assim que eu obtivesse todas as
informações que precisava, ela estaria com tanto medo do Morcegão da Sonserina
que imploraria ao Dumbledore para voltar para casa.
- A sakura é um símbolo para todos os shinobis – ela respondeu, ofendida. – Nós
a adicionamos nas poções ou administramos em simples infusões para ninjas que
estão muito longe de casa. A fragrância da flor os reconforta, os faz lembrar da
terra natal. Se o tratamento não tiver resultado, ao menos os ajuda a aceitar a
morte com mais tranqüilidade.
Sem perceber, eu estava boquiaberto quando ela terminou seu discurso. O que
aquela garota que mal havia tirado as fraldas entendia sobre a morte? Ela falava
como se “aceitar a morte” fosse uma verdadeira honra... O que ela sabia sobre
perder alguém? Sobre descer tanto a ponto de preferir a morte a ter uma
sobrevida covarde e odiável?
- Neste caso – falei assim que consegui fechar a cara de novo, ameaçando jogar o
galho para um canto –, ela nos é inútil. Seu amigo não está longe de casa.
- Não! – ela segurou minha mão para me impedir.
Eu olhei indignado com o atrevimento dela ao me tocar daquele jeito, e o rosto
dela enrubesceu quando percebeu o nosso toque. Ela me soltou rapidamente e
baixou os olhos para o chão.
- Me desculpe – disse, baixinho.
Eu continuei encarando-a, intrigado com a timidez dela por causa de um simples
contato entre nós dois.
- Se nós não encontrarmos nenhuma cura para o Sasuke – ela começou, parecendo
segurar algumas lágrimas que enchiam os seus olhos –, eu vou precisar dela
para... para... aliviar a dor dele.
Eu fiquei em silêncio. Não havia resposta para aquilo. Minha mente pregou uma
peça em mim e, de repente, eu me vi admirando a força que a Srta. Haruno
escondia por baixo de seus sorrisos constantes e suas roupas cor-de-rosa.
Voltando minha atenção para as anotações na mesa, passei rapidamente para o
próximo ingrediente. Ainda um pouco intimidada, a Srta. Haruno sentou-se do meu
lado e começou suas explicações novamente. Nós passamos boa parte da tarde
discutindo sobre as propriedades de cada um daqueles novos ingredientes, minha
mente vagando pelas novas possibilidades em Poções.
No dia seguinte, após mais uma aula tentando ensinar cabeças-ocas, fui obrigado
a assistir toda uma palestra sobre folhas de chakra e pergaminhos criados com
estas tais folhas para o diagnóstico de um veneno e seu antídoto. A única coisa
útil que entendi daquilo tudo era que os tais pergaminhos, depois que a Srta.
Haruno fizesse pequenas inscrições com uma amostra que ela trouxera do sangue do
rapaz que deveríamos ajudar, reagiriam com as poções criadas, dizendo se o
antídoto funcionaria ou não.
Eu já tinha uma boa idéia dos ingredientes base para a poção, baseado nas leis
para criação de antídotos que todo mestre de Poções deve conhecer. Entretanto,
eu precisava saber como o rapaz recebera aquela marca e como começou a expansão
daquela magia das Trevas no corpo dele.
- Srta. Haruno – eu a chamei. – Você me disse que estava presente quando o Sr.
Uchiha recebeu aquela marca.
Ela assentiu com a cabeça, e então eu continuei:
- Seria muito útil para eu entender a ação desta marca no organismo dele se
pudesse rever este momento com todos os detalhes.
- Como assim? – ela perguntou, surpresa e ao mesmo tempo interessada.
- Alguns bruxos têm o poder de entrar na mente das pessoas e... – eu realmente
não gostava de admitir aquilo, era como se voltasse a ser um servo do Lorde das
Trevas – e ler a mente delas.
- Você quer ler a minha mente? – ela adivinhou.
Eu assenti com a cabeça e expliquei:
- Apenas se você concordar. Eu jurei ao Dumbledore jamais invadir a mente de
alguém sem o seu consentimento.
- O que eu tenho que fazer? – ela perguntou, inocente.
- Basta olhar nos meus olhos e trazer à tona as lembranças que tem daquele dia.
E talvez, outras lembranças do selo atuando nele. Isso também ajudaria a
entender melhor como aquilo funciona.
Ela baixou os olhos, pensativa. Alguma coisa em mim não queria fazer aquilo,
como se temesse que eu voltasse a ser o antigo Comensal da Morte, responsável
por obter informações para o Lorde das Trevas.
- Você não precisa fazer isso se não quiser, se essas lembranças forem muito
dolorosas – disse, vendo que ela estava apreensiva. – Nós daremos um jeito sem
precisar recorrer a isso.
- Não – ela respondeu, decidida. – Se é para ajudar o Sasuke-kun, eu deixarei
que você leia a minha mente.
Eu engoli em seco. Sentia como se estivesse me aproveitando da ignorância da
Srta. Haruno a respeito da nossa sociedade. Por outro lado, estava incomodado
com a dedicação cega dela por aquele rapaz inconsciente que eu mal conhecia.
Aproximei-me dela, parando bem à sua frente, menos de um palmo de distância
entre nós. O rosto dela ficou levemente avermelhado e ela encarou o chão. Eu
tive que pousar minha mão sob o queixo dela e fazê-la erguer o rosto para mim.
- Você tem que estar olhando diretamente nos meus olhos – expliquei.
Eu encontrei aqueles olhos novamente. Verdes, brilhantes, esperançosos. A
lembrança incômoda que ela sempre me trazia me fez hesitar por um momento. Mas
foram os mesmos olhos, depositando em mim toda sua confiança, que me fizeram
prosseguir. Saquei minha varinha e, encarando-a firmemente, fiz o encanto:
- Legilimens!
Eu estava numa floresta fechada. Um sentimento de ódio e medo me atingiu de
repente. Olhando para frente, pude ver quem ela temia e odiava... Uma cobra
enorme, que logo depois tomou a forma de um homem. Ele não estava falando com
ela, praticamente a ignorava, olhando atentamente para o menino ao lado dela.
Foi quando o corpo daquele homem se moveu rapidamente e, com dentes de cobra,
mordeu o pescoço do garoto, exatamente na mesma posição onde eu vira a marca
dias atrás. Agora eu entendia como ele fez aquilo sem o uso de uma varinha.
Ao contrário do que aconteceu comigo e o Lorde das Trevas, a ligação entre
aquele garoto e o seu mestre fora involuntária, e ele não estava preparado para
a dor prestes a dominar seu corpo, caindo inconsciente no chão. As imagens
começaram a ficar borradas, ela estava movendo suas lembranças um pouco mais
adiante. Ela havia levado o garoto para uma caverna, que usara como abrigo,
preparando armadilhas em volta. De alguma forma eu sabia que aquilo que eles
estavam passando era um teste de sobrevivência, e ela estava tratando não apenas
do garoto com o selo das Trevas, mas também de outro companheiro inconsciente.
A paz durou pouco tempo, e eu a vi lutando sozinha contra três outros ninjas.
Era uma luta injusta, mas ela não se intimidou, usou todas as suas forças para
defender os dois amigos indefesos. Entretanto, ela sucumbiu, e quando parecia
que tudo estava perdido, o garoto do selo se levantou. Era incrível, as mesmas
manchas que eu vi dias atrás no corpo dele avançavam na imagem das lembranças
dela. Sozinho, ele derrotou os três ninjas que os ameaçavam, com toques de
terror que assustaram até mesmo um ex-Comensal da Morte. Pelo que eu conhecia
das Artes das Trevas, aquele selo provavelmente alterava também a consciência
dele. Depois de imobilizar seus inimigos, eu assisti, tão assustado quando à
jovem Srta. Haruno das lembranças, ele quebrar impiedosamente os dois braços da
sua vítima, apenas para mostrar o seu poder. Aquelas lembranças trouxeram à tona
lembranças minhas, da época em que eu também era guiado pela Marca Negra, e
estava prestes a deixar a mente da Srta. Haruno quando a vi correndo para o
garoto. Ela o abraçou, chorando, e implorou para que ele parasse. Foi a única
coisa que o acalmou. Eu observei as manchas recuando, da mesma forma que
recuaram com o tratamento dela dias atrás, e em pouco tempo ele voltou ao
normal, parecendo alheio ao que havia acontecido.
Eu perguntei se ela tinha mais lembranças como aquela, de outros surtos dele, e
uma série de imagens veio à tona. Eu não apenas vi, mas senti o quanto aquilo a
preocupava, o quanto ela se importava com aquele garoto. Lágrimas começaram a
brotar daqueles olhos verdes que tanto me perturbavam e, sem perceber, eu tomava
conta da mente dela, vasculhando por mais imagens dela com o garoto.
Passeando pelas lembranças da Srta. Haruno, eu o encontrei novamente, pedindo
para que ela escondesse de seus superiores o que sabia sobre a marca dele. Eu o
vi num teste, usando o poder das manchas negras para sobrepujar seu concorrente,
e depois passei por uma guerra. A Srta. Haruno parecia presa, e o garoto com
manchas negras corria para salvá-la, mas ela caiu inconsciente. A imagem
seguinte me levou a um pátio, dois moleques lutavam, manipulando uma quantidade
enorme de magia, e a inocente garota cor-de-rosa correu para impedi-los. Sem me
importar com o estado emocional da garota, continuei procurando, até que fui
atingido por um sentimento que só havia encontrado uma única vez em minha vida:
- Depois de todo esse tempo, você continua irritante!
Rejeição. Eu li os olhos dele enquanto dizia aquelas palavras na mente da Srta.
Haruno. E eram tão impiedosos quanto os olhos de Lílian. Ele a abandonara, da
mesma forma que eu abandonara a Lílian quando a chamei daquilo...
- Eu não preciso da ajuda de uma sangue-ruim imunda!
Subitamente, nossas lembranças se mesclaram, e eu não conseguia mais discernir
entre a minha mente e a dela. Como ela podia continuar tão devotada àquele rapaz
depois do modo como ele a tratara? A Lílian nunca me perdoara... Ou será que ela
teria me perdoado se eu não tivesse ficado cego pelo poder? Ou, quem sabe, se
ela tivesse sobrevivido?
Não! Eu me recusava a voltar àquelas conjecturas mais uma vez. Me recusava a
imaginar o que teria acontecido se e se... Eu queria aqueles olhos verdes longe
de mim, aquela piedade... aquela devoção... só faziam me sentir pior. Eu queria
a Srta. Haruno fora da minha mente e do meu laboratório.
- Você é mesmo irritante! – vociferei, e nossas mentes finalmente pareceram se
libertar.
Meus olhos novamente encaravam os olhos verdes, agora repletos de lágrimas, da
Srta. Haruno. Nossos rostos estavam a menos de um palmo de distância, e eu podia
sentir o leve odor de flores de cerejeira. Mas não durou muito tempo, no segundo
seguinte ela recuou, assustada.
- Como ousa, Srta. Haruno? – continuei. A única coisa que queria naquele momento
era expulsar aquela garota dali. – Invadir minha mente, vasculhar por
informações que não são da sua conta? Saia daqui!
- Eu... eu não sei como isso... a- aconteceu... – ela começou a balbuciar, mas
minha raiva era tanta que apontei minha varinha para ela.
- Saia da minha frente!
Os olhos verdes se arregalaram, e no instante seguinte, a Srta. Haruno saiu
correndo do laboratório. Com um gesto da minha varinha, tranquei a porta atrás
dela, não queria ser perturbado por mais ninguém no resto do dia, nem mesmo se
Dumbledore me ordenasse. Voltei para a bancada, onde estavam os ingredientes que
usaria como base para a poção, e comecei a prepará-los. Inútil. Em menos de meia
hora havia estragado um pote inteiro de unhas de dragão mal trituradas e várias
gramas de folhas de mandrágora picadas desproporcionalmente. Irritado,
retirei-me para os meus aposentos, culpando aquele insuportável odor das flores
de cerejeira pela minha falta de concentração.
oOoOoOoOo
Na manhã seguinte eu estava mais calmo. O fato de não ter nenhuma aula
programada ajudava bastante, além de ter salvo alguns cabeças-ocas de levarem
uma semana inteira de detenção. As lembranças que a Srta. Haruno me fez reviver
no dia anterior assombraram minha mente a noite inteira, mas pelo menos eu teria
como recompensa a partida da minha jovem aprendiz. Ela não estava no
café-da-manhã no Salão Principal, o que indicava que Dumbledore já deveria ter
enviado-a de volta à terra dela ainda na noite anterior.
Sem alunos para infernizar, voltei ao laboratório para retomar o preparo de
ingredientes que fora interrompido no dia anterior. As unhas de dragão e as
folhas de mandrágora já estavam devidamente preparadas quando o som da porta se
abrindo e se fechando tiraram minha atenção do próximo ingrediente. De trás da
minha bancada, eu simplesmente levantei uma sobrancelha para a figura
cor-de-rosa parada a minha frente.
- Me desculpe por ontem – ela começou. – Eu não devia ter deixado o laboratório
daquele jeito. Isso não vai se repetir.
Os olhos verdes, que sempre me pareceram frágeis, estavam firmes e decididos. A
expressão sempre calma e sorridente estava séria, e me dizia que ela não sairia
dali apenas com alguns gritos e uma ameaça da minha varinha.
- Você não entendeu, Srta. Haruno – respondi, minha voz deixando claro que ela
não era bem-vinda. – Eu realmente não a quero aqui. Não há nada para se
desculpar.
- Eu fui mandada para Hogwarts para ajudá-lo a achar uma cura para o Sasuke-kun.
Não sairei daqui enquanto não cumprir minha missão.
- Sua missão? – repeti, um tom de escárnio na voz. – Não me venha com desculpas
tolas, Srta. Haruno. Você está aqui apenas porque está desesperada para salvar
seu amiguinho; um presunçoso que sempre a desprezou. Isso é patético!
Por que eu estava dizendo aquelas coisas a ela? Eu queria que ela deixasse
Hogwarts, mas alguma coisa em mim dizia que não era só isso. Era como se eu
estivesse mais uma vez alertando a Lílian contra aquele... aquele exibido da
Grifinória.
Por que eu queria proteger a Srta. Haruno daquele moleque? Por que a expressão
dele chamando-a de irritante me fazia odiá-lo?
- Quando eu estava na academia – ouvi a voz dela, agora mais próxima de mim – eu
não me achava forte o bastante, então tive que compensar estudando todos os
deveres de um shinobi. E eu sempre tirava as maiores notas nestas provas.
Ela havia caminhado da porta até a minha bancada, parando bem a minha frente. A
voz firme ainda continuava:
- Uma das obrigações de um shinobi é sempre priorizar sua missão. Não me importa
se você gosta de mim ou não, ou se o Sasuke ainda se lembra de mim ou não. Se a
vida dele é importante para a vila, eu não vou sair daqui enquanto não chegar a
uma cura para ele.
Não era mais a garotinha que estava na minha frente, era uma mulher. A atitude
da Srta. Haruno era merecedora de uma consideração minha. Ela aparentava um
pouco mais de vinte anos, mas seus olhos pareciam refletir mais experiência e
mais infortúnios que os meus. Ela não era mais velha que os cabeças-ocas do
primeiro ano nas lembranças que invadi no dia anterior, entretanto, já havia
vivenciado guerras tão horríveis como quando o Lorde das Trevas iniciara seu
reinado de terror. Enquanto Dumbledore protegia ao máximo seus alunos, ela foi
educada para enfrentar a morte se isso fosse necessário para cumprir sua missão.
Ninjas... eu estava aprendendo que havia subestimado-os. Talvez fosse a hora de
dar mais uma chance à bela mulher que apareceu na minha frente.
- Eu vim me desculpar porque – a voz dela continuou, depois de um longo tempo em
silêncio –, como shinobi, é esperado que meus sentimentos nunca estejam acima da
missão. Você não me verá chorando outra vez.
- Neste caso – respondi –, você pode começar sua missão macerando aquelas ervas
que me indicou. Acredito que junto com estes ingredientes, elas serão a base
para nossa pesquisa – completei, apontando para a minha própria bancada.
Ela assentiu em silêncio, sem demonstrar um único sorriso ou qualquer outro
sinal de contentamento, e se colocou na bancada ao meu lado, preparando as ervas
que trouxera consigo.
oOoOoOoOo
* shinobi: termo sinônimo de ninja.
Capítulo 6: O mestre de Poções
Foi difícil me adaptar ao mundo bruxo na minha primeira semana em Hogwarts.
Felizmente, o Prof. Dumbledore e a Profa. McGonagall tiveram muita paciência em
me explicar as diferentes peculiaridades do mundo deles, mas eu não podia dizer
o mesmo do mestre de Poções que me ajudaria a conseguir o antídoto. O Prof.
Snape era um homem que fazia questão de ser temido por todos ao seu redor; nunca
o vi sorrindo ou mesmo dizendo uma palavra genuinamente cortês para um dos seus
alunos ou colegas professores, e tinha certeza que ele me desprezava.
Desde o primeiro dia que trabalhamos juntos eu percebi que ele não estava
confortável com a minha presença. Mas tudo piorou depois que ele pediu para ler
a minha mente. Eu não sei o que aconteceu, mas ao reviver as piores lembranças
que tinha do Sasuke, também comecei a ver as lembranças do Prof. Snape quando
era jovem.
Talvez eu devesse odiá-lo, desprezá-lo por ter usado minhas lembranças com o
Sasuke para me insultar e tentar me impedir de trabalhar ao lado dele. Mas eu
sabia que ele estava certo. Eu era mesmo uma idiota por ainda lutar tanto para
trazer o Sasuke de volta. Ele nunca me reconheceu como uma kunoichi, sempre me
considerou um empecilho para seus objetivos, mas eu nunca desisti dele. Talvez o
Prof. Snape estivesse certo, e meus reais objetivos ali fossem egoístas e não
tinham nada a ver com os interesses de Konoha.
Mas o Severo Snape que eu conheci nas lembranças dele era tão parecido com o
Sasuke... O mesmo olhar sombrio, a mesma vontade de se superar, as mesmas
negações. Eu o vi se entregando às trevas, recebendo um selo parecido com o selo
do Sasuke, ferindo outras pessoas apenas para conseguir mais poder. Ele também
havia rompido seus laços para se concentrar apenas em se fortalecer. Mas ele...
ele se arrependeu... por causa de uma mulher. Uma linda mulher de cabelos
vermelhos e olhos verdes que, por algum motivo, ele julgava ser o causador da
morte dela. Era um amor tão puro, tão bonito, que nem mesmo as trevas foram
capazes de apagá-lo. Eu não podia odiar um homem capaz de ainda sofrer por um
amor como aquele, que talvez ainda sofresse o mesmo que eu sofria pelo Sasuke...
Depois do confronto no segundo dia de trabalho, eu voltei decidida a não deixar
Hogwarts sem completar minha missão, e foi quando ele pareceu me respeitar mais.
Ele me mostrou diversos ingredientes comuns em poções bruxas que eu nunca ouvira
falar, ensinou todas as propriedades dos ingredientes que usaríamos na primeira
tentativa de um antídoto e me explicou as diferentes formas de preparo de cada
item da poção.
A primeira semana de trabalho terminou e outras semanas se seguiram. Muitas
vezes tínhamos que esperar vários dias, ou a fase certa da lua, para adicionar o
ingrediente seguinte, até que um mês havia se passado e eu ainda não havia
retornado para casa.
- Você deveria tirar um dia de folga – eu ouvi a voz dele, do outro lado do
laboratório, enquanto estudava algumas técnicas bruxas sobre o preparo de
poções. – Já faz um mês que está aqui e nunca a vi fora do castelo.
Eu levantei os olhos do livro e o observei. Ele estava mexendo uma mistura em
seu caldeirão e usando sua varinha para adicionar delicadamente uma segunda
poção à mistura aquecida.
- Eu... eu acho que não teria para onde ir – respondi, um pouco tímida, mas
ainda admirando a forma como ele preparava suas poções.
- Humm... – ele pareceu pensar por um momento. – Amanhã é sábado e é dia de
visita à Hogsmeade. Você pode ir com os demais alunos da escola.
- Hogsmeade? – repeti aquele nome estranho sem ter a mínima idéia do que
significava.
- É a vila bruxa mais próxima de Hogwarts. Os alunos acima do terceiro ano têm
alguns sábados liberados para visitarem a vila, você pode ir com eles para
conhecer um pouco mais sobre os bruxos fora das paredes deste castelo.
- Eu... eu não sei... – respondi.
- Nosso provável antídoto deve ficar em repouso por mais uma semana. Não haverá
mais nada para você fazer aqui amanhã.
Eu apenas assenti com a cabeça e voltei à minha leitura. No dia seguinte, sendo
dispensada pelo Prof. Snape, acabei decidindo me aventurar pela tal vila bruxa.
Assim que cheguei ao Saguão de Entrada, onde o Sr. Flinch verificava as
permissões de cada aluno para deixar a escola, ouvi uma voz conhecida me chamar:
- Ei! Sakura, não é?
Virei-me em direção à voz e encontrei a mesma menina de dias atrás, só que desta
vez, o cabelo dela estava roxo.
- O Morcegão te deu uma folga hoje? – ela perguntou. – Se quiser, pode ir a
Hogsmeade com a gente.
Eu sorri para ela, aliviada, e acabei seguindo-a com seu grupo de amigos da
Lufa-Lufa. Pelo menos teria companhia no meu passeio.
Hogsmeade era uma vila muito bonita, embora muito diferente do que estava
acostumada a ver em Konoha. Tonks e seus amigos me levaram para conhecer
diversos pontos que os alunos de Hogwarts adoravam, principalmente lojas com
doces tão diferentes quanto deliciosos, e outras com diversas brincadeiras
mágicas.
O inverno estava próximo, e a primeira neve do ano caíra naqueles dias. Depois
de passar por todos os pontos que a Tonks julgava imprescindível conhecer, nós
nos refugiamos do frio num lugar chamado Três Vassouras, onde eu experimentei
uma deliciosa caneca de cerveja amanteigada. Nós ficamos quase a tarde inteira
naquele lugar, os alunos da Lufa-Lufa conversando animadamente sobre diversos
assuntos como Quadribol, um esporte popular entre os bruxos, e os professores de
Hogwarts.
Era estranho ouvir as histórias deles sobre o terrível Prof. Snape. Eu havia
experimentado na pele a fúria dele e também já havia trabalhado o suficiente com
ele para saber o quanto ele odiava alunos desinteressados. Mas aqueles alunos o
pintavam como um monstro, um homem muito diferente do mestre de Poções que eu
aprendi a respeitar em seu laboratório. Talvez fosse apenas implicância deles,
como eu e a Ino costumávamos cochichar sobre o Iruka-sensei nos tempos da
academia, ou ainda, como eu e o Naruto especulávamos o que havia por trás da
misteriosa máscara do Kakashi-sensei. Mas eu permaneci quieta enquanto eles
faziam piadas sobre o Prof. Snape, sem entender por que aquilo me incomodava
tanto.
Quando o dia estava começando a escurecer, os lufa-lufa do sétimo ano decidiram
correr para a loja que vendia itens para Quadribol antes do horário de voltarem
para a escola. Eu os acompanhei, sem nenhum interesse nas últimas novidades para
vassouras ou uniformes dos diferentes times do país, até que passamos em frente
a uma botica. Eu parei na vitrine, admirando os diferentes tipos de caldeirões e
outros utensílios que sempre observava o Prof. Snape manipular em seu
laboratório. Pelo menos eram mais interessantes que vassouras... Despedindo-me
da Tonks, acabei entrando na loja e parei em frente a uma estante com diversas
ervas secas. Fiquei por minutos incontáveis admirando os diferentes ingredientes
que os bruxos usavam em poções, alguns eu já tinha visto nos laboratórios de
Hogwarts, outros eram totalmente novos para mim.
Distraída com as prateleiras de ingredientes, mal percebi a porta da loja
anunciar a entrada de outro cliente. Entretanto, a voz do atendente me despertou
assim que me fez entender quem havia entrado:
- Boa tarde, Prof. Snape. Eu ia mesmo mandar uma coruja para Hogwarts. Suas
encomendas chegaram.
- Boa tarde, Thomas – ouvi a voz dele responder, fazendo minha barriga gelar de
uma maneira esquisita. – Ah... muito bem. Aqui tem outra lista para você, e
desta vez, é urgente.
Eu me virei para cumprimentá-lo, um nervosismo que eu não entendia me fazendo
corar e morder os lábios.
- Olá, Prof. Snape.
Ele virou o rosto bruscamente para mim, considerando-me com uma expressão que
não conseguia diferenciar entre estranheza e curiosidade. Os olhos dele sobre
mim me faziam desejar que um buraco aparecesse no chão para que eu sumisse nele.
- Srta. Haruno? – ele finalmente falou. – Quer dizer que resolveu aceitar o meu
conselho – completou, um sorriso discreto se formando nos lábios finos.
Eu assenti com a cabeça, odiando-me ao sentir meu rosto enrubescendo ainda mais.
Felizmente, o atendente o chamou, fazendo-o desviar sua atenção de mim.
- Aqui está, Prof. Snape – ele disse, pousando um enorme pacote no balcão. –
Coloco na conta da escola?
- Obrigado, Thomas – o Prof. Snape respondeu. – Estes ingredientes são para um
projeto meu com o Diretor Dumbledore, você pode cobrar diretamente dele.
O rapaz fez um leve assentimento, e o Prof. Snape sacou sua varinha, fazendo um
pequeno raio sair dela e atingir o pacote, diminuindo seu tamanho até que
coubesse no bolso. Virando-se para mim novamente, ele convidou:
- Aceita uma xícara de chá, Srta. Haruno?
Felizmente, eu estava bastante admirada com a magia que acabara de testemunhar
para que minhas bochechas voltassem a se avermelhar. E também, já estava há
tempo suficiente na Inglaterra para entender que um convite para um chá não era
necessariamente o convite para um encontro, embora ainda ficasse sem graça com a
idéia de sair sozinha com o Prof. Snape.
- Cla... claro – respondi, um pouco tímida, sem saber ao certo como negar aquele
pedido.
Nós caminhamos em silêncio pelas ruas de Hogsmeade, passando por lugares não
muito freqüentados pelos alunos. Eu realmente não poderia imaginar o Prof. Snape
tomando cerveja amanteigada ou visitando as mesmas lojas preferidas por seus
alunos.
Em poucos minutos, entrávamos numa casa de chá. Não era exatamente como as casas
de chá do País do Fogo, mas era onde os ingleses costumavam se reunir no final
da tarde. Assim que nos sentamos, perto de uma aconchegante lareira, ouvi o
Prof. Sanpe fazer o seu pedido.
- Dois pedaços de torta de abóbora, um chá preto com leite para mim e chá verde,
sem açúcar, para a senhorita.
Eu olhei para ele em dúvida quando o garçom nos deixou, e ele explicou:
- Eu observei que você não aprecia muito o chá servido pelo Dumbledore.
Minha reação imediata foi um sorriso agradecido. Eu jamais imaginaria que aquele
homem tão carrancudo seria capaz de fazer uma observação como aquela. Mais
surpreendentemente ainda, ele me respondeu com um discreto sorriso também. Ou
será que era eu que estava vendo coisas?
Quando nosso pedido foi finalmente atendido, eu agradeci silenciosamente mais
uma vez pelo gesto delicado do Prof. Snape. Beber aquele chá quente numa tarde
fria da Inglaterra me fez relembrar um pouco de casa, de Konoha.
- Eu gostaria de me desculpar, Srta. Haruno – ele falou depois de alguns
instantes de silêncio. – Eu não deveria ter usado as imagens que vi ao invadir
sua mente para insultá-la daquele jeito. Eu... eu acho que me descontrolei
quando nossas lembranças se mesclaram...
- Não – respondi. – Você não precisa se desculpar. De certa forma, aquilo que
você disse... você tinha razão.
Ele me considerou por um momento, aqueles olhos pretos, tão profundos quanto os
olhos do Sasuke, mas que refletiam a admiração que eu sempre desejei ler nos
olhos do meu antigo companheiro de time.
- Não – ele respondeu, então. – A relação entre você e aquele rapaz não é da
minha conta. Eu jamais deveria ter usado isso para tentar afastá-la do meu
laboratório. Devo admitir que você ganhou minha confiança quando voltou ainda
mais determinada no dia seguinte.
- Obrigada – respondi com um sorriso triste, baixando os olhos para o meu pedaço
de torta.
- Sakura... – ele me chamou, fazendo com que eu levantasse os olhos novamente
para ele.
Um novo Prof. Snape me encarava, sua expressão estava mais branda, e eu não pude
deixar de lembrar do jovem bruxo apaixonado pela garota de cabelos vermelhos.
- Eu admiro o que você está fazendo – ele continuou, sério. – Quem sabe, se
tivessem feito o mesmo por mim quando era mais jovem, eu também estivesse livre
da minha maldição.
Outro sorriso triste. Era impossível outra reação enquanto o assunto ainda fosse
o Sasuke.
- É diferente – retorqui, referindo-me ao que sabia das lembranças dele. – Eu
sei que ele nunca vai olhar para mim do jeito que eu gostaria.
Era a primeira vez que eu confessava aquilo para alguém. De alguma maneira,
sentia que precisava dizer isso, como se fosse impossível esconder qualquer
coisa dele. Entretanto, ainda não conseguia entender porque precisava ser tão
sincera com um homem que eu mal conhecia.
- Era eu quem sempre corria atrás dele – continuei. – Ele nunca se importou
comigo, e nunca se importará, mesmo que a gente consiga libertá-lo daquele selo.
- Não importa – ele respondeu como um consolo. – Ao menos você fez a sua parte.
- Obrigada – disse, levantando a xícara de chá para esconder meu olhar triste.
Depois de tomar mais um gole da bebida quente, continuei: - Você deve me achar
uma idiota, não é? Cega de amor por alguém que mal sabe que eu existo.
- Não – ele protestou. – Não, Sakura... Eu entendo.
Eu o respondi com um olhar de compreensão. Não me atreveria a perguntar se ele
também havia amado alguém daquela maneira. Eu sabia que sim. Naquele momento, se
ainda havia algum resquício da máscara de frieza que o Prof. Snape costumava
usar com seus alunos, ela havia se desintegrado completamente.
oOoOoOoOo
* kunoichi: ninja do sexo feminino.
Capítulo 7: Primavera
O inverno chegou e passou por Hogwarts; os alunos deixaram o castelo para os
feriados de Natal e Ano Novo e voltaram para mais um período de aula, e a Srta.
Haruno continuava em meu laboratório. Eu devia desconfiar, quando aceitei a
proposta do Dumbledore, que o desenvolvimento de um antídoto para aquela marca
não seria corriqueiro. Nós já havíamos tentado quatro ou cinco composições
diferentes, usando magia bruxa, chakra ninja, e os dois combinados, mas nada
parecia surtir efeito; e o que mais me deixava indignado era o fato de que todas
as poções testadas estavam de acordo com os mais exigentes manuais bruxos. Eu
estava a ponto de desistir, mas Severo Snape não era um covarde.
Eu tinha que admitir, entretanto, que a presença dela havia se tornado tão
constante que, gradualmente, passara de indesejável a indiferente, começando até
a se tornar apreciada. Eu sou um homem, afinal de contas, seria muito estranho
se não apreciasse a companhia de uma bela mulher. Mas não era apenas isso. A
Srta. Haruno, ou melhor, a Sakura – uma vez que a convivência nos fez
rapidamente esquecer das formalidades – tinha o poder de me fazer esquecer dos
cabeças-ocas que era obrigado a ensinar cada vez que aparecia com uma nova
sugestão para o nosso trabalho. Não, o abominável Morcegão da Sonserina ainda
existia, mas perdia sua máscara assim que era encarado por aqueles olhos verdes.
Talvez fora apenas a presença dela o que me acalmara quando Dumbledore me
lembrou que o filho de Lílian estaria em Hogwarts no próximo ano letivo. Não era
apenas o fato dele ser também o filho do meu maior inimigo do passado, mas a
certeza de que, se o Lorde das Trevas estivesse realmente vivo como Dumbledore
desconfiava, ele tentaria alguma coisa com o garoto quando ele aparecesse no
mundo bruxo, livre das proteções instaladas na sua família trouxa. E dependendo
da força com que o Lorde das Trevas voltasse, eu novamente estaria ligado a ele,
pois sabia que a Marca Negra estava apenas enfraquecida no meu braço, mas jamais
desaparecera totalmente. Mas a presença da Sakura ali, me ajudando a encontrar
uma cura para um selo tão semelhante, me dava esperanças de um dia conseguir me
livrar da Marca Negra também.
Por várias vezes eu me pegava relembrando das palavras dela naquela tarde em
Hogsmeade, imaginando se Lílian havia morrido também acreditando que eu jamais
sentira nada por ela. Aquela idéia me entristecia, ao mesmo tempo que fazia
crescer uma simpatia pela ninja de cabelos cor-de-rosa que invadira a minha
vida. Eu não repetiria com ela o erro que cometi com a Lílian.
A primeira vez que percebi o quanto a Sakura havia se tornado uma presença
constante e querida foi no meio de março. Subitamente, a única mulher que sequer
havia recebido minha permissão para freqüentar livremente meu laboratório de
pesquisas desapareceu de Hogwarts. No primeiro dia eu me preocupei, achando que
Sakura poderia estar com algum problema de saúde e fui investigar com a Pomona,
mas ela não tinha nenhuma notícia da minha “assistente”. Sem outra alternativa,
tive que recorrer ao Dumbledore.
- Meu caro Severo – ele começou, com aqueles olhinhos brilhantes e o sorriso
malicioso –, nunca imaginei que o veria preocupado com a Srta. Haruno. Sempre
pensei que você não apreciava a presença dela na escola.
- Ela se mostrou uma assistente eficiente – me expliquei, sem entender realmente
por que sentia aquela necessidade infantil de me explicar. – Eu apenas estranhei
a ausência dela no laboratório hoje.
- Ela me pediu para voltar para casa por uns dias – ele respondeu com um ar
misterioso, sem elaborar mais a resposta.
- E por que ela ia querer voltar para casa? – repliquei irritado.
Aquele velho onisciente apenas deu uma risadinha.
- Não há nada em Konoha que ela precise para a poção que não tenha aqui em
Hogwarts também – me expliquei novamente. Estava começando a me irritar com
tantas desculpas não solicitadas, mas que meu inconsciente insistia em inventar.
- Talvez ela estivesse com saudades de casa, Severo – Dumbledore argumentou,
oferecendo-me uma xícara de chá.
Eu grunhi uma resposta qualquer e bebi um gole do chá, tentando tirar da minha
mente a imagem da Sakura. Saudades de casa? Provavelmente, saudades daquele
moleque que a abandonou, que nunca lhe deu o devido respeito. E por que, raios,
aquilo me preocupava tanto?
A semana se seguiu com uma queda considerável nos contadores da Grifinória,
Lufa-lufa e Corvinal. Não tinha paciência para os cabeças-ocas, e o antídoto que
acabava de cozinhar no meu laboratório particular precisava ser testado. Mesmo
depois de inúmeras tentativas, eu ainda não tinha conseguido adivinhar como
funcionavam as tais folhas de chakra para prová-lo. O tempo estava correndo, e
onde estava a minha suposta assistente?
Foi apenas eu me perguntar por ela pela milésima vez, e a porta do laboratório
se abriu sem nenhuma cerimônia.
- Onde você esteve? – perguntei, sem nenhuma paciência para conveniências
sociais.
Os olhos verdes se arregalaram, assustados, mas depois voltaram ao normal.
- Eu precisei voltar por uns dias – ela respondeu, um tom triste compunha a voz
dela. – A primavera chegou, e as cerejeiras tiveram a primeira florada esta
semana.
- E o que isso tem a ver com o nosso trabalho? – repliquei, fingindo não me
preocupar com as cores apagadas dos olhos dela.
Ela não respondeu imediatamente. Caminhou devagar até a minha bancada,
depositando um galho florido com as tais sakuras.
- Nós estamos há quase cinco meses tentando chegar num antídoto, nada do que
tentamos funcionou. O Sasuke não vai suportar muito mais tempo.
Uma raiva enlouquecedora começou a crescer dentro de mim, entretanto, foi apenas
mirar o rosto apagado da minha assistente, e minha voz saiu apaziguada quando
lhe respondi:
- Eu entendo.
Ela veio para o meu lado, sentando-se no banco que sempre usava para me observar
trabalhando, e a voz derrotada dela chegou aos meus ouvidos.
- Talvez seja melhor assim. Quem sabe agora eu me livre da prisão dele.
Eu queria responder-lhe que não, que se ela amava aquele rapaz como eu um dia
amei a Lílian, ela jamais se libertaria daquilo que chamara de prisão.
Entretanto, eu, o mordaz, mal-humorado e cruel mestre de Poções e Diretor da
Sonserina, não tive coragem de dizer a verdade aterradora para a mulher que
sofria ao meu lado.
- Essas flores... – foi o que consegui responder, inclinando a cabeça em direção
às sakuras. – Isso significa que você vai acelerar o processo daquele selo...
Ela apenas assentiu a cabeça.
- Nós ainda temos uma nova versão do antídoto para testar – disse, sério.
Ela assentiu em silêncio; depois, decidida, afirmou:
- É nossa última tentativa. Se não funcionar, eu voltarei do mesmo jeito.
Eu respondi com um gesto silencioso, e observei quando ela começou a trabalhar
com seus pergaminhos. Ela pingou uma pequena amostra da poção recém-preparada
numa das folhas de chakra, e pelo que talvez fosse a milésima vez, houve uma
pequena explosão. Eu já havia aprendido o que aquilo significava: mais uma
tentativa frustrada.
- Sakura... – minha voz foi mais rápida que a minha razão, mas não havia como
consolá-la. Simplesmente deixei o nome dela morrer no ar.
Ela virou a cabeça para mim e deu mais um daqueles sorrisos tristes.
- Parece que você finalmente se livrará de mim.
- Não – protestei, sem nem pensar no que estava dizendo. – Alguns antídotos só
são eficazes depois de algumas horas de repouso. Talvez nós devêssemos esperar
até amanhã para uma conclusão tão drástica.
Uma pequena centelha de esperança pareceu surgir nos olhos dela, que logo em
seguida desapareceu.
- Obrigada – ela disse simplesmente.
Eu sabia que ela não me agradecia pelos meses que a ajudei a preparar um
antídoto. A expressão de entendimento dela me dizia que aquele “obrigada”
significava que ela sabia exatamente o que eu estava fazendo, tentando
consolá-la de um fato que não tinha consolo, tentando levar um pouco de
esperança a um coração que só conhecia a decepção. Ela sabia que havia me
transformado. Como a primavera vem para derreter a neve fria do inverno, Sakura
Haruno fazia jus ao seu nome e parecia destinada a derreter corações ainda mais
gélidos.
Naquele momento eu percebi que, nos quatro meses que a Sakura fez parte da minha
vida em Hogwarts, nós nos tornamos cúmplices. Apenas o Dumbledore me entendia
tão bem quanto ela, ou talvez ele jamais me entendesse da mesma forma que ela.
Nós dois nos unimos por histórias tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas
que palavras nunca foram necessárias para conquistar esta compreensão mútua. E
foi a idéia de que logo ela não estaria mais em Hogwarts que me fez perceber o
quanto eu precisava de alguém, o quanto a solidão estava me deixando cada vez
mais sombrio e sarcástico.
- Você devia esperar – eu insisti. – Pelo menos mais um dia.
- Está bem – ela respondeu num suspiro. Seus olhos apagados, sem nenhuma
esperança.
Deixando que meu coração guiasse meu corpo, pois apenas isso explicava meus atos
seguintes, eu me levantei e parei bem a frente dela, levando uma mão aos
antigamente odiados cabelos cor-de-rosa. Ela se encolheu com o toque, não por
medo, mas eu percebi que suas bochechas se avermelhavam.
- Sakura, eu... – minha voz falhou, em dúvida, mas eu precisava dizer aquelas
palavras. – Eu vou sentir a sua falta.
Ela levantou os olhos verdes assustados para me encarar.
- Nestes últimos meses – continuei –, você iluminou este laboratório. Eu vou
sentir falta de uma assistente tão eficiente quanto você.
Eu a senti estremecer, e seus olhos voltaram a fitar o chão.
- Talvez seja melhor assim – ela sussurrou.
Aquelas palavras doeram em mim. Era a primeira vez em anos que eu pensava em
alguma outra mulher além de Lílian e não aceitaria ser rejeitado outra vez.
Tomei seu rosto em minhas mãos, obrigando-a a levantar os olhos para mim. Eles
lacrimejavam, mas não conseguiram me intimidar; sem deixar que ela protestasse,
eu a beijei. Assustada, ela não reagiu de início, mas em poucos segundos, senti
a língua dela procurando pela minha, e poções e antídotos deixaram de ser a
única conexão entre nós.
oOoOoOoOo
* haruno: primavera
Capítulo 8: Adeus
O momento que eu mais lamentava estava chegando; depois de tantos meses em
Hogwarts eu havia me afeiçoado ao lugar e a algumas pessoas. Entretanto, eu era
uma ninja da Folha, e Konoha havia confiado em mim para chegar numa cura para o
Sasuke. Uma cura que, se existisse, levaria mais tempo que o corpo dele poderia
suportar para ser desenvolvida. Não havia mais esperanças, a única coisa que me
restava era dizer adeus às pessoas que eu havia conhecido na Inglaterra e que
talvez jamais encontrasse novamente.
Após verificar o estado do Sasuke, eu sabia que não restava mais nada a fazer a
não ser preparar uma última infusão para ele. Voltei para Hogwarts levando
comigo alguns ingredientes. Eu poderia fazer aquilo em Konoha mesmo, mas acho
que estava procurando uma desculpa para trabalhar mais uns dias ao lado do
Snape; nós já estávamos íntimos a ponto de nos chamarmos pelos nomes apenas, e
eu sabia que sentiria saudades dele, até mesmo das caretas irritadas e das meias
palavras quando seus alunos o deixavam de mau humor. O que eu não entendia era
por que às vezes eu me pegava pensando que ressentia-me mais ter que dizer adeus
a um homem que tão recentemente aparecera na minha vida que por ter que
finalmente aceitar a morte daquele que eu sempre considerara o meu único amor.
Talvez porque o Sasuke já havia saído da minha vida há muito tempo, eu só havia
demorado a perceber.
Assim que entrei no laboratório do Snape, depois de uma semana em Konoha, fui
recebida pelo olhar furioso dele. Felizmente, eu já estava acostumada com
aqueles ataques e até me senti lisonjeada por ele ter se mostrado preocupado com
a minha ausência.
Quando lhe contei sobre o Sasuke e os meus planos de voltar para Konoha, ele
pareceu compreender. Nós ainda testamos uma última poção, que também se mostrou
inútil, e eu provavelmente não consegui esconder minha decepção, pois eu o ouvi
sussurrar o meu nome, seus olhos implorando para que eu não entristecesse.
- Parece que você finalmente se livrará de mim – foi a única coisa que consegui
dizer, como se um comentário irônico pudesse esconder minha melancolia.
Mas ele não me deixou enganá-lo. Ao contrário, convenceu-me a permanecer mais um
dia em Hogwarts, dando-me a esperança de que a poção precisava de mais algumas
horas de repouso para fazer efeito. Funcionou por um único segundo, mas eu já
tivera decepções demais para me apegar a uma possibilidade tão fraca.
Entretanto, a gentileza vinda de um homem que sempre parecia querer mostrar ao
mundo sua rispidez me tocou. De repente eu entendia o que me fazia lamentar ter
que voltar para casa, e aquela compreensão me atingiu no mesmo instante em que
senti seus dedos tocando o meu cabelo. Eu enrubesci com a proximidade dele,
sentindo meu coração bater cada vez mais acelerado.
- Sakura, eu... Eu vou sentir a sua falta – ele disse, e eu apenas levantei os
olhos para encará-lo, assustada com aquela confissão. - Nestes últimos meses,
você iluminou este laboratório. Eu vou sentir falta de uma assistente tão
eficiente quanto você.
Claro, uma assistente. Era assim que ele me via. Da mesma forma que o Sasuke
nunca me notou, o Snape também jamais sentiria alguma coisa por mim.
- Talvez seja melhor assim – sussurrei.
Foi a única coisa que podia dizer. Seria mesmo melhor nunca mais nos vermos, eu
já estava acostumada com a rejeição e sabia que a melhor maneira de esquecer era
a separação, embora eu também soubesse que era impossível esquecer um amor.
Entretanto, fui surpreendida ao sentir meu rosto ser levantado pelas mãos dele
em minhas bochechas. No instante seguinte, eu era beijada. Senti os lábios
quentes e úmidos dele sobre os meus e fiquei sem ação num primeiro momento, até
que meu corpo cedeu a qualquer raciocínio, e minha boca abriu caminho para um
beijo mais ardente. Há muito tempo que eu não era beijada com tanta paixão, se é
que algum dia poderia chamar de paixão aquelas tentativas frustradas com o Lee,
quando eu achava que o Sasuke jamais voltaria a Konoha.
Quando o ar nos faltou, nossos lábios se separaram, e aqueles olhos pretos
profundos me encaram com um brilho malicioso, que eu jamais testemunhara nele
anteriormente.
- Sakura... – ele sussurrou com seus lábios quase encostando nos meus – se nós
continuarmos com isso, eu não vou me contentar apenas com beijos.
- Então continue me beijando – eu respondi, abraçando-o e puxando o corpo dele
para perto do meu, que implorava por mais atenção.
As mãos dele passeando por mim eram cada vez mais ousadas, mas os beijos vorazes
me impediam de tentar refreá-las. O toque dele, o gosto dele, o cheiro dele...
qualquer sensação trazida por ele parecia me enlouquecer, e eu mal percebi que
ele me carregava para fora do laboratório, por uma entrada escondida que eu não
conhecia, e nos conduzia direto para os aposentos dele.
Deixei que ele me despisse enquanto suas carícias me faziam esquecer qualquer
alusão à Konoha ou à minha missão. No calor dos braços dele, eu finalmente me
sentia desejada, e aquilo me fazia querê-lo urgentemente. Mas o Snape não era um
garoto inexperiente procurando por novas sensações, ele parecia adivinhar os
pontos que me enlouqueciam, e eu descobri, maravilhada, um prazer que apenas uma
espera arrebatadora poderia proporcionar.
Nem eu, nem o Snape aparecemos para o jantar no Salão Principal. Nossos corpos
não precisavam de comida, consumidos por uma paixão que parecia insaciável,
ambos esperando há anos por um simples toque capaz de desencadear todas aquelas
reações. Naquela noite, nos permitimos abandonar a razão apenas para satisfazer
nossos desejos; ávidos por prazer, esquecemo-nos do tempo, das nossas
diferenças, das nossas lembranças... Naquele quarto, havia apenas um homem e uma
mulher, ambos presos apenas um ao outro, numa loucura que teria hora e lugar
para acabar.
Foi com este pensamento que abri os olhos na manhã seguinte. Ele ainda dormia
serenamente ao meu lado, e eu não tive coragem de acordá-lo, temendo não
conseguir deixá-lo se o encarasse mais uma vez. Levantei e me vesti na discrição
que as kunoichis aprendiam, e deixei os aposentos em direção ao laboratório e,
de lá, segui para o quarto que ocupava em Hogwarts. Eu não partiria para Konoha
sem me despedir dele, mas não podia fazer isso naquele momento. Não enquanto meu
corpo ainda sentia a presença dele em mim, não enquanto meu coração ainda pesava
com a dúvida se eu deveria mesmo voltar.
Capítulo 9: Fim
Um aroma doce atingiu minhas narinas, fazendo-me despertar do sonho com o mesmo
par de olhos verdes que me assombrava todas as noites. Assim que tomei
consciência, lembrei-me de outros olhos que vinham confundindo minha mente nos
últimos meses. Procurei-a ao meu lado, mas ela não estava mais lá.
Idiota! – pensei comigo mesmo. Recriminando-me por ter me deixado levar pelos
meus instintos carnais no dia anterior. Eu já tivera outras mulheres antes,
casos sem importância e nenhum comprometimento emocional; não era o que eu
queria para a Sakura.
Com um suspiro amuado, levantei-me e comecei a me preparar para as aulas da
manhã. Durante um banho demorado, me peguei por várias vezes pensando na noite
anterior. Éramos duas almas solitárias tentando nos completar. O corpo dela,
talvez com mais cicatrizes que o meu, evidenciava a vida rígida de um shinobi,
mas eu sabia que era o coração dela que carregava uma ferida ainda maior,
incurada, assim como o meu. Eu sabia que jamais completaria aquele vazio, assim
como ela jamais substituiria a Lílian, mas não podia permitir que a Sakura
encontrasse o mesmo destino de solidão que eu encontrei. Entretanto, eu conhecia
aquela dedicação que li na mente dela meses atrás, e sabia que a única maneira
de deixá-la feliz era salvar aquele rapaz.
Não compareci ao café-da-manhã com os demais professores, fazendo uma parada no
laboratório antes da primeira aula da manhã. A poção preparada no dia anterior
ainda estava em repouso no caldeirão, mas eu sabia que ela era inútil.
Entretanto, depois de inúmeras tentativas, eu também sabia que não havia nada de
errado nela. Todos os ingredientes foram preparados e adicionados na ordem
correta, toda a teoria dos mais obscuros livros de Poções fora seguida. Se
aquilo não era capaz de refrear o avanço daquela Magia das Trevas no corpo do
rapaz, nada mais o faria...
As sakuras esquecidas na bancada me deixavam mais melancólico ao lembrar-me da
mulher que levava o mesmo nome delas. Não conseguia aceitar o fato de ser
incapaz de preparar uma poção para ajudá-la. Concentrando-me novamente sobre o
que poderia ter dado errado, lembrei que já tinha visto aquelas marcas
regredirem antes, duas vezes. Quando conheci o jovem no hospital de Konoha e,
depois, nas lembranças da Sakura. Assim como a Lílian foi a única pessoa que me
arrancou das trevas, a Sakura parecia ser a única pessoa capaz de fazer o mesmo
com seu antigo amigo de infância.
- Sakura... – sussurrei. Não fazia sentido, mas as flores na minha frente
pareciam gritar a solução para mim.
Mesmo que fosse inútil, uma infusão de sakuras não arruinaria uma poção que já
se mostrara ineficaz, pensei. Retirei as delicadas pétalas, macerando-as com
cuidado, até que seu perfume preencheu o lugar; o mesmo perfume que estava
impregnado em meus lençóis e me fizera despertar naquela manhã. Espalhei as
pétalas amassadas pelo conteúdo do caldeirão e o deixei aquecendo brandamente,
tampado. Até o final da aula, a essência das flores já teria passado para a
poção, só precisaria testá-la novamente. Segui para a sala onde encontraria meus
alunos de N.I.E.M., deixando o laboratório vazio.
Duas horas depois, quando voltei para verificar o resultado da poção, ela também
estava lá.
- Eu vim me despedir – ela disse, assim que me viu entrar.
Não havia nenhum traço de arrependimento na expressão dela, apenas serenidade.
Eu respondi com um aceno de cabeça.
- Eu vi que você modificou a poção – ela afirmou, embora houvesse um tom de
dúvida na voz.
- Sim – respondi, aproximando-me do caldeirão. – Eu pensei em testar uma última
fórmula antes de desistirmos por completo.
Verificando a poção, retirei uma parte para um frasco e entreguei a ela.
- Importa-se de testá-la?
- Não – ela respondeu, pegando o frasco das minhas mãos. O brilho de esperança,
sempre presente nos olhos dela quando testávamos uma nova fórmula, havia
desaparecido.
Eu a observei estender mais uma vez sobre a bancada um de seus pergaminhos,
cheios de inscrições e preparados com o sangue contaminado do amigo. Ela pingou
algumas gotas da nova versão da poção, e eu preparei meus ouvidos para a
explosão que viria a seguir.
Silêncio.
Levantei o olhar do pergaminho para o rosto dela. Seus olhos estavam cheios de
lágrimas.
- Funcionou – ela disse, quase num sussurro.
Respirei aliviado, e um leve sorriso conseguiu escapar pelos meus lábios. Sakura
continuava olhando fixamente para o pergaminho quando me aproximei pelas costas
dela.
- Agora você pode voltar – disse.
Ela virou bruscamente para me encarar. Depois de alguns momentos de dúvida,
sorriu e falou:
- Sim. E agora você também poderá se livrar daquela marca. – O antigo brilho
havia voltado aos olhos verdes.
- Não – respondi. – O ingrediente que usei nessa poção não teria efeito em mim.
– Na verdade, a única pessoa capaz de me ajudar numa poção para apagar aquela
Marca Negra havia morrido há anos, por minha culpa; mas eu não podia dizer isso
a Sakura.
Ela me considerou com a testa franzida, em dúvida. Como eu não continuei com a
explicação, ela simplesmente se afastou e disse:
- Obrigada.
Um silêncio incômodo pousou entre nós. Era a primeira vez que tinha que lidar
com uma situação daquelas; ela não era uma mulher do Cabeça de Javali ou da
Travessa do Tranco, facilmente dispensadas com alguns trocados. Entretanto,
quando finalmente resolvi que era hora de esclarecer o que havia acontecido na
noite passada, ela também decidiu falar.
- Sobre ontem a noite...
- O que aconteceu ontem...
Nós começamos ao mesmo tempo e nos interrompemos com as palavras um do outro.
Outro pequeno silêncio, até que ela abriu a boca mais uma vez e continuou,
séria:
- Eu sei, foi um erro. – Um sorriso triste enfeitava o rosto dela. Baixando os
olhos, ela ainda tentou se explicar: - Eu... eu pensei que tinha conseguido me
esquecer dele, mas...
- Não, Sakura – respondi-lhe, interrompendo-a. – Acredite em mim. Até hoje, eu
jamais consegui esquecê-la. Pelo menos, agora você sabe que ele vai sobreviver.
Os olhos dela se levantaram em direção à poção que repousava no caldeirão,
algumas lágrimas voltaram a aparecer. Quieta, seguiu até a poção e a transferiu
para um frasco, guardando-o na bolsa que carregava em sua cintura.
- Às vezes – ela começou, a voz embargada tentando segurar as lágrimas e os
olhos fitando o infinito –, eu acho que não me importaria se essa poção jamais
funcionasse. Isso significa apenas que... que em breve eu voltarei a ser
ignorada e...
- Não, Sakura! – eu a interrompi, seguindo até onde ela estava. – Não diga isso.
Ela focou os olhos em mim e continuou me considerando, confusa.
- Não importa o que ele disser quando acordar – continuei. – Eu também fui
tocado pelas trevas uma vez, eu sei como ele se sente. E posso garantir que você
sempre será uma pessoa especial para ele.
Uma lágrima solitária conseguiu transbordar dos olhos dela, e um sorriso triste
se formou nos seus lábios.
- Obrigada – ela disse mais uma vez.
- Adeus, Sakura – respondi.
- Adeus – ela devolveu.
Nós ainda nos consideramos por algum tempo, guardando a imagem um do outro com
um carinho que, acho, jamais teria por outra pessoa novamente. Finalmente, com
um gesto de reverência, como era comum na cultura dela, ela se retirou. Eu nunca
mais a vi novamente.
oOoOoOoOo
Meu coração ainda pesava em dúvida quando a Chave de Portal do Diretor
Dumbledore me fez aparecer no escritório de Tsunade-sama. Entretanto, assim que
ouvi os berros estridentes do Naruto, uma sensação de familiaridade me atingiu,
e eu fiquei feliz por estar em casa novamente.
Ao encarar minha mestra, entretanto, um frio cruzou minha espinha. Ela estava
com o semblante sério, e a agitação além do normal do Naruto me fazia concluir
que algo muito grave estava acontecendo.
- Você conseguiu o antídoto, Sakura? – Tsunade me questionou, séria.
- Oras, vovó Tsunade – o Naruto respondeu antes que eu conseguisse abrir a boca.
– É claro que a Sakura-chan conseguiu. Nós não vamos perder o Sasuke para aquele
selo maldito do Orochimaru, dattebayo!
A confiança do meu antigo companheiro de time me animou, e eu assenti com a
cabeça para a Tsunade-sama, mostrando-lhe o frasco com o antídoto.
- Neste caso – ela disse –, vamos direto para o Hospital. O último relatório que
a Shizune me passou sobre o estado do Sasuke não era nada animador.
O Naruto praticamente me carregou até o hospital, puxando-me impaciente pelo
braço. Quando cheguei no quarto onde o Sasuke era atendido, meu coração pareceu
paralisar com a imagem dele. Um dos mais brilhantes shinobis de Konoha estava
amarrado sobre a cama, seu corpo passando por espasmos violentos enquanto a
Shizune-san tentava, inutilmente, controlar o avanço do selo.
- Tsunade-sama! – Shizune gritou, desesperada, assim que nos viu entrar. – Isso
está consumindo todo o chakra dele. Desde que a Sakura voltou para a Inglaterra,
que ninguém mais consegue controlá-lo.
Sem pensar, eu corri para o lado da cama e tomei o lugar de Shizune, usando o
meu chakra para tentar acalmar o avanço do selo.
- Rápido, Shizune! – ordenei. – O antídoto está na minha bolsa.
Ela conseguiu achar o antídoto enquanto minhas mãos ocupavam-se do Sasuke, agora
um pouco mais calmo. Os espasmos haviam parado, embora o selo continuasse
espalhado pelo corpo dele.
Shizune tentou fazê-lo engolir a poção, mas ele se recusava a aceitar.
- Vamos, Sasuke... – sussurrei, achando que ele jamais ouviria. – É um antídoto,
vai fazê-lo se livrar da influência dele para sempre. Tente fazer isso por
mim... e pelo Naruto...
Shizune forçou o antídoto mais uma vez, e então parecia que ele havia conseguido
engolir uma pequena dose. Aos poucos, as marcas do selo foram regredindo e
voltando para a base do pescoço. Senti o chakra dele voltando ao normal e me
afastei, em poucos minutos ele deveria despertar.
- Sasuke! – o berro do Naruto anunciou a todos no quarto que o Sasuke havia
acabado de abrir os olhos.
Eu continuei afastada enquanto o Naruto corria abraçá-lo, e a Tsunade-sama e a
Shizune-san tentavam separar os dois para que pudessem examinar o Sasuke. A
felicidade do Naruto chegava a ser contagiante, entretanto, eu ainda não sabia
como reagir.
- Sa... Sakura...
A voz dele chamando por mim fez com que um arrepio cruzasse o meu corpo, mas
ainda assim, não tive coragem de encará-lo. Senti os olhares de todos ao meu
redor, mas continuei a fitar o chão.
- Sakura – ele insistiu –, obrigado.
Levantei os olhos, assustada. As mesmas palavras que ele dissera quando
abandonou Konoha. Entretanto, quando encontrei os olhos escuros dele, havia o
esboço de um sorriso em seu rosto, e eu não me contive e sorri também.
Não corri para os braços dele, contudo, como teria feito anos atrás. As palavras
do Snape quando nos despedimos ainda ressoavam em minha mente; e por mais que eu
quisesse acreditar que aquilo era verdade, achei melhor esperar para o tempo
decidir. Tsunade-sama e Naruto continuaram olhando em dúvida para mim, mas eu
apenas fiz um aceno de cabeça para o Sasuke e me retirei.
oOoOoOoOo
* Dattebayo: expressão típica do Naruto, sem tradução própria para o português,
usada para reafirmar a frase anterior.
_____ FIM _____